Como falar de produtividade em tempos de alucinada produtividade?

Capa Gestão e Produtividade_siteHoje encontrar alguém que não tenha os três turnos ocupados é raridade, seja em função de trabalho, estudo, especializações e super especializações. É como se o mercado exigisse muito mais de nós, já tão exigidos como indivíduos. Não basta trabalhar, chegar em casa e assistir Netflix com nossas pantufas.

Existe uma imposição de ter resultados excelentes como profissionais, estar em constante processo de atualização, ir na academia, no cinema, fazer viagens, falar outra língua, ler muito, entre outras tantas demandas pessoais, ufa, que cansaço. Até o nosso momento de lazer se tornou uma tarefa a ser cumprida. Lembro de um colega de trabalho, anos atrás, que tratava as atividades rotineiras como um check list, tomar banho – ✓ok, estudar – ✓ok, trabalhar – ✓ok, asssitir tv – ✓ok.

É como se a sociedade tivesse transformado tudo em um produto passível de ser consumido. Assim, um curso de graduação deixou de ser uma escolha por aptidões, mas uma necessidade, o mestrado, o MBA, o inglês fluente, a viagem para a Europa… todos eles itens em uma grande prateleira de um wallmart qualquer, ao alcance do desejo de todos. E a corrida não pára, conquistado, ou ainda, riscado um item da lista, já temos outros a cumprir, e ai de quem não conseguir alcançar um destes itens.

Qualquer curso feito há mais de dois anos está defasado, e lá vamos nós atrás de mais estudo para engordar o currículo lattes, de EADs porque não queremos sair de casa, de uma lareira, porque afinal vamos ficar em casa mesmo, assim como uma máquina de café expresso e uma adega climatizada, entre tantas outras facilidades modernas.

Talvez, o que não é percebido, é que esse “mercado” que impõe tamanhas exigências, não existe como um ser em si, mas é sim reflexo de nossas próprias ansiedades. Em um mundo onde nada é o bastante, a atividade alucinada surje como uma válvula de escape contra a reflexão, e o resultado acaba sendo justamente o oposto, como quem enxuga o gelo, fazendo as atividades por fazer. Quanto menos refletimos sobre o que realmente faz diferença nas nossas vidas, menos resultados temos.

Quem trabalha muito, gasta muito, como uma cobra que engole a si própria, sem refletir sobre as decisões e os caminhos que estão (não) sendo escolhidos, somente seguidos com a coletividade. Claro que esse processo circular faz parte da própria estrutura econômica que estamos inseridos, valorizando o “ter” em detrimento do “ser”, onde o consumo é priorizado, e para consumer mais, devemos produzir mais.

E se, por acaso, alguém não se encaixa na dita “normalidade” da busca alucinada por mais, é apontado como louco, como acomodado, ou qualquer outro comportamento desviante. Em tempos de aparente aceitação das diversidades, não se engane, uma fina casca de tolerância esconde camadas profundas de ódio contra o outro, contra o diferente. É o discurso polido que inicia da seguinte maneira “não tenho nada contra, mas…”, e o que vem após este mas é a fala da normatização, seja ela profissional, sexual, ideológica, entre tantas outras.

Em função de uma formação como terapeuta em Filosofia Clínica, e um certo trânsito pelos ambientes terapêuticos, que no meu entender não diferem muito dos ambientes empresariais, somente o cenário é outro, tenho por hábito a escuta como instrumento de trabalho. E esta escuta acaba justamente por me fazer perceber o discurso por trás de alguns discursos da produtividade.

De um lado temos um aumento da ideologia americanizada de winners x losers, invadindo o imaginário brasileiro, pautanto os relacionamentos sejam comerciais, sejam afetivos, pelo acúmulo de vitórias, de conquistas, de itens no currículo. Nós, brasileiros, o povo “cordial” do qual falava Sérgio Buarque de Hollanda, não no sentido da cordialidade, mas sim um povo afeto à emoções radicais, vindas do coração. Grandes amores, mas também grandes ódios, aplicados agora na dicotomia bom x mau, vencedor x perdedor, feliz x depressivo, num sincretismo às avessas, onde todos saem perdendo, numa estafa física e mental pela corrida que se impõe.

Em outra oportunidade escrevi sobre criatividade e a importância, para alguns, do tempo e do silêncio para que brotem soluções e insights relevantes. Mais que isso, sobre a importância de cada um descobrir o seu tempo, o que ativa o processo criativo individual. O que para determinadas pessoas pode ser a atividade física, para outras pessoas pode ser permanecer em silêncio, entre tantos outros caminhos possíveis. O que não é possível, penso eu, é engessar esses caminhos, estabelecendo por decreto que somente a busca incessante por resultados desta ou daquela maneira é a solução, ou ainda que o oposto disto, o “nadismo”, o não fazer nada, como querem alguns publicitários, é a resposta. Talvez, para quem pregue essas soluções, isso seja a solução, o filósofo Leandro Karnal costuma dizer que o livro de auto-ajuda ajuda o escritor, e não os leitores.

Pressupor que existe uma solução mágica para questões, sejam pessoais, sejam profissionais, e que funciona da mesma maneira para todos, tema de inúmeros livros de auto-ajuda, se afasta totalmente de uma visão filosófica do mundo, onde a dúvida e o questionamento são privilegiados. Pensar não é uma tarefa simples, exige recolhimento, introspecção, leitura, e traz o incômodo de olhar para o mundo e duvidar das respostas prontas. Pensar nos tira do acomodamento, talvez por esta razão seja tão mais fácil aderir à produtividade, à atividade contínua como válvula de escape, como instrumento do não pensar.

Esse comportamento coletivo, da busca incessante por produtividade, pode sim, acelerar depressões. Pois à medida em que empurra pessoas para esse processo de normatização profissional, onde somente alguns têm o seu lugar ao sol, distancia outros tantos da sua própria essência, na ansiedade por seguir uma tendência social. É angustiante pensar na sociedade em que vivemos, onde todos procuram se capacitar o máximo possível, como uma competição, em que somente um receberá a glória do pódio, estamos falando de uma lógica que exclui quem pensa diferente, quem está fora da curva padrão e não tem espaço neste pódio.

Joseph Campbell, autor de “O Herói de Mil Faces”, costumava dizer aos seus alunos que deviam procurar o seu caminho pessoal, o que tornava cada um feliz, independente da formação acadêmica. Essa era uma aula diferente, imagine um aluno americano ouvir do seu professor que não era fundamental a conclusão do curso, mas sim a busca do que realizava cada um.

Não sei dizer se os alunos de Campbell foram se aventurar além dos muros da universidade, também na década de 70 essa fala era mais aceita, havia nos Estados Unidos uma cultura underground, uma ebulição com movimentos como os Panteras Negras, a luta contra a Guerra do Vietnã, e o movimento hippie pregando a trascendência através do uso de psicotrópicos. É provável que o discurso de ir atrás dos seus sonhos não tenha espaço na sociedade americana de hoje, onde a competitividade predomina.

Entendo que a própria palavra produtividade, está intimamente ligada ao conceito de uma sociedade de consumo normatizada, onde existe um plano a ser seguido por cada um, nascer, crescer, se graduar, casar, trabalhar, como tarefas automatizadas de que falava no início deste artigo. Assim, gosto de pensar em outras ideias para substituir isso, na ideia de diversidade de pensamento, e no quanto o convívio social cresce a partir da multiplicidade de caminhos diferentes.

Na Filosofia Clínica, temos o conceito de construção compartilhada, que na verdade nada mais é do que o diálogo aberto entre duas ou mais pessoas, onde, a partir da disponibilidade da escuta sem barreiras se constrói projetos, trabalhos, e mesmo na terapia, se encontra alternativas que levem ao bem-estar.

Deixando de lado a noção da produtividade alucinada, como barreira ao pensar, e adotando a ideia do diálogo, da construção compartilhada, acredito ser possível a busca de caminhos diversos, onde a inclusão seja priorizada.

Pois quando ouvimos o outro, ou melhor, ouvimos a nós mesmos, ante o turbilhão de tarefas, é possível romper com as pressões sociais, e passar a olhar de maneira diferente o que por hábito era igual. É uma mudança de paradigmas, que torna possível o aprendizado de novos olhares, novas possibilidades. Como já coloquei anteriormente, o pensar, em um momento é incômodo, porém à medida que vai sendo desconstruído e reconstruído os lugares das suas certezas, se abre alternativas antes impensadas.

Quem não ouviu relatos do executivo que foi plantar tomates no interior, ou do publicitário que mora há 30 anos numa caverna? Por mais estranho aos nossos ouvidos essas histórias, são relatos de pessoas que foram atrás do que faz sentido nas suas vidas.

Para eles, esse contato com a natureza, provavelmente, dá um significado às suas vidas. Assim como também são inúmeros os relatos de quem abandonou essa vida simples, e foi viver rem grandes cidades, se dedicando a atividades essencialmente urbanas, como saber quais os caminhos que cada um trilha em diferentes momentos da sua trajetória? Quantas vidas é possível viver em uma só?

Faço estes questionamentos como quem pensa a filosofia na vida, como quem pensa que a filosofia está diretamente ligada à meneira como fazemos nossas escolhas, sejam de caminhos, seja de trabalho e mesmo das palavras que usamos. Mesmo que não tenhamos essa clareza, a filosofia está ali, agindo nas nossas vidas. A capacidade de refletir sobre quais os conceitos que são caros a cada um, quais os valores que norteiam a nossa vida, o que queremos mudar, se é que queremos mudar, é a chance de pensar diferente, de poder escolher entre pensar como a maioria (por que não?) ou fazer um caminho diverso.

Prefiro não pensar no termo produtividade, mas para você leitor, talvez este termo faça sentido. Agora, para chegar neste ou naquele termo, ou conceito, o fundamental é a coragem de se repensar, se reinventar a cada dia, para que as ações cotidianas façam sentido na nossa história pessoal, e não sejam simplesmente um reproduzir uma ideologia que não nos pertence.

 

por Luz Maria Guimarães – Empresária e Terapeuta

Gestão Pessoal para Produtividade
Editora Pragmatha
Porto Alegre, 2016