Filosofia Clínica e o Feminismo

Lendo a obra de Ivone Gebara, Filosofia Feminista – Uma brevíssima introdução (2017), comecei a pensar, com base no que a autora diz acerca de uma filosofia feminista, se a Filosofia Clínica, tanto em sua concepção como em seu modo de pensar e fazer filosofia, também não seria uma “filosofia feminista”. Mesmo porque, tanto a palavra “filosofia” como a palavra “clínica” são substantivos femininos. E até porque, em sua origem, a Filosofia é considerada a mãe de todas as outras áreas do saber.

A autora afirma que “a filosofia feminista surge quando nós, mulheres tomamos consciência de que também nós somos convidadas à mesa do pensamento, e temos todas as possibilidades de pensar a vida com maestria e sabedoria. Afinal não somos nós que arrumamos a mesa e preparamos a comida? Por isso não desprezemos o convite que a história de hoje nos faz a todas nós: ousar pensar a vida e vivê-la podendo dizer com dor e amor: eis-me aqui”.

Esse “eis-me-aqui”, penso, também é a proposta da Filosofia Clínica, pois ao colocar-se frente a frente com a pessoa, de acordo com sua historicidade e com as dores e as alegrias do cotidiano, buscará, junto dela, ajudá-la a pensar a si mesma, a vida, ao mundo de seu jeito próprio, desengessado pelos padrões impostos. E mesmo que faça uso do conhecimento filosófico construído ao longo da história, procurará abordar esse saber e traduzi-lo de acordo com a singularidade de cada um, de cada uma. Não será a vida que se adaptará a uma ou mais teoria filosófica, mas o contrário: o que esse conhecimento construído pode oferecer para que essa pessoa se conheça melhor e se municie de saber para criar e recriar sua identidade própria e afirmar seu modo de ser e estar no mundo.

Gebara visa, em meu entender, despertar e reforçar nas mulheres essa sua capacidade de sentir, pensar, entender, dizer, expressar a vida desde aquilo que lhes é próprio, não no sentido de que esse “lhes é próprio” já tenha sido determinado pela natureza ou por interpretações que delas fizeram – geralmente feita por homens, mas desde como elas mesmas se sentem, se veem e se mostram para si mesmas e para o mundo.

Assim também a Filosofia Clínica quer contribuir para que as pessoas assumam-se nas suas singularidades, não ficando presas aos padrões e aos pré-juízos que se constroem por terceiros e que se estabelecem enquanto convenções e conveniências de uma sociedade marcada pelos preconceitos, pelos machismos, pelos fascismos e toda ordem de desmandos que buscam enquadrar a pessoa de acordo com o que é considerado “bom” para manutenção da “ordem” e do status quo.
A autora reforça que compete às mulheres que o “pensar filosoficamente a vida, procurando as razões das muitas coisas que vivemos, é de certa forma se retirar das atividades comuns para assumir de forma específica a atividade de pensar, compreender, relacionar, buscar dados e escrever”, admitindo sempre “o limite de nossas percepções e de nossos pensamentos”, mas ousando fazê-lo por si mesmas.

E continua: “não há verdades feitas a serem ensinadas, mas caminhos desde os quais há que aprender a viver na insegurança. Por isso é necessário voltar à trama da vida e acolher a sua constante mobilidade como aprendizado coletivo”.

Igualmente em Filosofia Clínica, filósofo clínico e partilhante buscarão a construção compartilhada de saberes que levem a uma nova atitude perante a vida individual e coletiva.

“Narrar a história dos outros é um enorme exercício de poder sobre eles e elas. É reduzi-los à nossa visão e narrativa”. Por isso, são as mulheres que deverão continuar narrando as suas próprias histórias e não mais admitirem que essas histórias que lhe são próprias, embora partes de uma história maior, sejam narradas por outros, na sua grande maioria homens, que as colocaram e colocam como personagens passivas e submissas, destinadas a reproduzir modelos viciados e opressores de mentes e corpos. É a partir de seus próprios corpos, enquanto algo que lhes é próprio e singular, mas também enquanto afirmação social e política, que essa nova filosofia deve ser construída.

Mais uma vez aqui, a Filosofia Clínica aproxima-se da filosofia feminista, pois o terapeuta jamais deverá narrar a história da pessoa com base em suas interpretações, mas proporcionar à pessoa que ela mesma seja a narradora de sua história, com base no que sente, pensa, entende de si mesma e do mundo. E deverá ter uma escuta atenta à literalidade do que lhe é dito, para assim iniciar o processo de entendimento do modo de ser e estar da pessoa.
Pode ser pura elucubração essa minha tentativa de aproximação da Filosofia Clínica de uma Filosofia Feminista, melhor dizendo, das Filosofias Clínicas e das Filosofias Feministas. Mas vejo que ambas buscam olhar de um modo diferente para a pessoa e para o mundo, resgatando aquilo que deu início ao filosofar, que é essa capacidade de espanto, de angústia, de questionamento frente às coisas da vida e ao mundo.
Sim, a Filosofia Clínica pode ter essa postura feminista também enquanto desafio na construção de um novo filosofar, mesmo porque ao colocar-se frente a frente com as pessoas ou grupos ou organizações, o/a terapeuta terá que ter esse olhar singular para aquela singularidade diante da qual se coloca, seja ela de que gênero for, masculino, feminino ou tudo junto e misturado, assim como é ou deveria ser a vida. O mundo multifacetado exigirá de nós sentires, pensares, agires que nos possibilitem respirar melhor os ares que nos perpassam os corpos individuais e coletivos, buscando mudanças de ares numa sociedade e num mundo onde imperam o poder e a força bruta e os machismos de toda ordem que ainda teimam em dominar mentes e corpos.
Mas, como vem mostrando o movimento feminista, mentes e corpos não podem ser subjugados para sempre. O desejo de liberdade de pensamento e ação é mais forte.

“Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria
Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida”.
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Paulo R. Grandisolli