FILOSOFIA CLÍNICA E SAÚDE

Em sua obra Uma História da Saúde Pública, de 1958, George Rosen (1910-1977), médico e pensador estadunidense, destaca no prefácio da edição norte-americana* que: “A função de proteger e promover a saúde e o bem-estar dos cidadãos é uma das mais importantes do Estado moderno, e representa a consubstanciação de uma série de considerações políticas, econômicas, sociais e éticas. Mas desde quando essa preocupação com a saúde do grupo existe? E como se relaciona com a vida de cada cidadão, de cada indivíduo? A história da comunidade e de seus problemas de saúde nos ajuda a responder a essas perguntas.” E continua: “A História, como memória do grupo humano, ajuda a moldar, para o bem e para o mal, a consciência coletiva, e desperta a atenção do indivíduo para o mundo, mesmo o de ontem e o de amanhã.”

Poderíamos considerar que as questões levantadas são pertinentes e atualíssimas, dado que em nosso contexto latino-americano e brasileiro**, em especial, este ainda é um dos prementes desafios que enfrentamos, tendo em vista que, mesmo sendo esse direito garantido pela Constituição Brasileira***, as legislações vigentes ainda não foram efetivamente assimiladas e regulamentadas, imperando os interesses das grandes corporações médicas e da indústria farmacêutica em particular. Mas essa é uma outra abordagem, embora fazendo parte da mesma história, para a qual faz-se necessária constante reflexão e mobilização da sociedade e seriedade por parte dos políticos e governantes.

Também essas mesmas questões fazem parte do universo da Filosofia e da Filosofia Clínica-FC em particular, ao rol das quais poderíamos acrescentar outras: O que é saúde? O que é doença? O que a historicidade de uma pessoa e/ou de um coletivo tem a nos revelar sobre seu estado de saúde/doença? O que vivenciam uma pessoa, um coletivo, serviços e profissionais de saúde, uma sociedade em situações limítrofes da existência? Como munir-se, interior e exteriormente, de meios que possam contribuir para o enfrentamento dessas questões/inquietações/angústias?

Falando especificamente de FC e Saúde, podemos dizer que, tanto no atendimento clínico individual como num trabalho de consultoria e/ou de análise de clima organizacional, essa modalidade de terapia existencial tem muito a contribuir, especialmente visando construir junto às organizações de saúde ambientes e relações mais saudáveis, tão necessárias neste “universo” que exige de todas as pessoas envolvidas – administradores, profissionais, clientes, parceiros – uma postura de silencio para a escuta, atenção e respeito às histórias e às dores, conhecimento e perspicácia nos diagnósticos, conhecimento e técnica no tratamento, mas, fundamentalmente, uma atitude, que poderíamos chamar de atitude filosófica, de profunda humanidade para os seres humanos que somos e para aqueles que diante de nós se apresentam.
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*Ed. UNESP, 2ª ed., 1994
** Vale ressaltar as conquistas dos movimentos sociais que culminaram na Constituição Brasileira de 1988 e a na lei 8080/1990 que regulamenta o SUS-Serviço Único de Saúde e que no atual governo tem sofrido graves desmontes, seguindo a cartilha do neoliberalismo.

***”A saúde é um direito de todos e dever do Estado.” – Constituição Brasileira – 1988, artigos 196 a 200.

Paulo Roberto Grandisolli