Poese e Liberdade em Cecília Meireles

Os dois maiores épicos da literatura brasileira, para mim, são Os Sertões, de Euclides da Cunha, e Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles. O primeiro, produzido no período literário pré-modernista, em inícios do século XX, um texto denso de conhecimentos de antropologia, sociologia, geografia e historiografia dos sertões nordestinos que revela, ainda hoje, o mundo desconhecido das relações de poder desumanificadoras de milhões de seres humanos, na terra que deveria lhes pertencer, mas que, no entanto, vivem absolutamente entregues à exploração do trabalho semiescravo do latifúndio e à mercê das intempéries das secas. O segundo, um romance histórico poetizado que desenvolve vasto material de reflexão sobre a história da construção da liberdade do Brasil colonizado, especificamente no contexto do século XVIII.

 

É importante destacar que o texto de Euclides não é meramente técnico-científico. Possui uma poesia em sua linguagem, ao falar sobre a psicologia da alma e do corpo dos sertanejos nordestinos. Suas descrições, constatações e narrações estão plenas de um conhecimento sobre a cultura, o ambiente, as árvores, a comida, a vida dos sertanejos, que ultrapassa o âmbito do saber técnico de sua visão como engenheiro. Há um sentimento que anima todo o texto, de origem bem diversa da que lhe foi encomendada e pretendia o autor, inicialmente. Historicamente sabe-se que Euclides foi enviado ao arraial de Canudos para uma cobertura jornalística da ocupação e destruição daquela população pelas forças policiais do governo brasileiro. Todavia, lá chegando, sua visão  se ampliou para outros parâmetros. E graças a sua obra não ficamos sem um registro histórico da tragédia genocida que lá ocorreu.

 

Paralelamente, tempos depois, em uma circunstância bem diversa, mas num processo intelectual que considero análogo, aconteceria com Cecília Meireles, na cidade mineira de Ouro Preto, em Minas Gerais, algo daquilo que havia ocorrido com Euclides, ante a destruição de Canudos.

 

Cecília havia chegado àquela cidade com o objetivo de fazer uma reportagem jornalística sobre os atos litúrgicos e comemorativos das celebrações da semana santa. Simples tarefa de jornalista. Contudo, não sei se de súbito ou progressivamente, o ímpeto poético arrebatou-a e a fez redescobrir outra forma de cognoscibilidade sobre aquilo que contemplava. Seu olhar foi mais longe. Como ela mesma escreveu, certa vez: “eu bebo o horizonte”!

 

Eloquente e belíssima a conferência que escreveu e pronunciou naquela cidade, em 1955, sobre como escreveu o seu Romanceiro da Inconfidência, e que hoje serve como leitura-prefácio indispensável para quem deseja mergulhar na compreensão de seu texto. A poeta narra como aconteceu a sua mudança de percepção para a elaboração deste poema épico cujo tema filosófico central é a liberdade. Somente as palavras da própria Cecília nos podem encher os olhos da inteligência para adentrarmos melhor na sua perspectiva. Por isso quero deixá-la falar.

 

“Quando, há cerca de 15 anos, cheguei pela primeira vez a Ouro Preto, o Gênio que a protege descerrou, como num teatro, o véu das recordações que, mais do que a sua bruma, envolve estas montanhas e estas casas; e todo o presente emudeceu, como plateia humilde, e os antigos atores tomaram suas posições no palco. Vim com o modesto propósito jornalístico de escrever as comemorações de uma Semana Santa; porém os homens de outrora misturaram-se às figuras eternas dos andores; nas vozes dos cânticos e nas palavras sacras insinuaram-se conversas do Vigário Toledo e do Cônego Luiz Vieira; diante dos nichos e dos Passos brilhou o olhar de donas e donzelas, vestidas de roupas arcaicas, com seus perfis inatuais e seus nomes de outras eras. Na procissão dos vivos caminhava uma procissão de fantasmas: pelas esquinas estavam rostos obscuros de furriéis, carapinas, boticários, sacristães, costureiras, escravos, e pelas sacadas  debruçavam-se aias, crianças, como povo aéreo a levitar sobre o peso e a densidade do cortejo que serpenteava pelas ladeiras. Então, dos grandes edifícios um apelo irresistível me atraía: as pedras e as grades da Cadeia contavam sua construção – o suor e os castigos incorporados aos seus alicerces; o palácio dos governadores  ressoava com as irreverências de Critillo; a Casa da Ouvidoria mostrava o desembargador-poeta, louro, amoroso, suave, com um pré-romantismo inglês a amadurecer nos olhos azuis; o sobrado de Francisco de Paula Freire de Andrada insistia em mostrar suas cortinas de damasco (…); a casa de Cláudio ressoava de suspiros a Nise, de epístolas, de sonetos em português e  em italiano… A Casa dos Contos, esta casa onde o destino me faria falar, centralizava tudo isso (…) E assim a minha Semana Santa era aquela que eu estava acompanhando ao longo destas ruas e era muito mais antiga. Era, na verdade, a última Semana Santa dos Inconfidentes: a do ano de 1789.”

 

Assim descreve simbolicamente como foi tomada pelo ímpeto criativo para recontar poeticamente o drama histórico de Ouro Preto, como parte do drama maior que vivia toda a colônia brasileira.

 

Dirige-se aos montes, aos rios, ruas, pedras, estátuas, templos, casas, vendo-os transportados para o acontecido passado. Como sempre faz em toda a sua poesia, Cecília privilegia o pretérito, apelando à memória poética, para melhor compreender o presente. E continua a sua impressionante descrição, como se abrisse as cortinas de um grande teatro em que passam todos os personagens e acontecimentos já quase perdidos num tempo distante, somente recuperáveis pela memória e a imaginação poética. Para Cecília tudo fala.

 

“Tudo me fala e entendo: escuto as rosas /e os girassóis destes jardins que um dia /foram terras e areias dolorosas,/ por onde o passo da ambição rugia /por onde se arrastava, esquartejado,/o mártir sem direito de agonia. /Escuto os alicerces que o passado/ tingiu de incêndio: a voz dessas ruínas/ de muros de ouro em fogo evaporado”.

 

A Poese possibilitou-lhe, portanto, um novo olhar sobre aquele lócus histórico; de tal modo que, de uma perspectiva meramente jornalística que se pretendia, surgiu-lhe um novo horizonte. Qualquer leitor atento a este épico verá que se entrelaçam, nesta obra ceciliana, o saber e o sentir da poesia, o conhecimento histórico e o grande tema filosófico que perpassa seu conteúdo e o fundamenta, lançando-o definitivamente numa reflexão sobre o passado da nossa formação histórica e cultural: o tema da liberdade; que é também um tema universal integrante de toda a sua poesia. Por isto mesmo, atinge e abarca também o nosso tempo presente, pelo alcance da memória poética.

 

Inesquecível a estrofe que escreveu no romance XXIV, que não canso de repetir e repensar: “liberdade – essa palavra que o sonho humano alimenta: que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”. Essa exclamação de Cecília chegou aos meus olhos e em mim permaneceu latente durante muitos anos. Foi uma das portas da poesia que acenaram para mim, desde meus tempos de criança.

 

Como tudo se relaciona, com o passar dos tempos, num futuro não muito distante, o tema da liberdade se impôs cada vez mais a todos os meus trabalhos como filósofo da educação, revelando-se como elemento central das lutas históricas dos seres humanos, por ser também tema central em quase todas as filosofias, ao longo da história do pensamento humano. O espanto de Cecília me causou um certo alumbramento através desta sua poesia. Alumbramento este que continua até o presente.

 

Este espanto, esta perplexidade da poeta, reabriu uma das janelas do pensamento que acenava para mim quando criança, ao me defrontar com a beleza e a indiferença do mundo.

 

O horizonte da liberdade aparece como uma aspiração humana universal; com certeza, uma entre as mais importantes, na construção da história. Acredito, disto certamente surgiu a exclamação e constatação da poeta, cuja prática política se caracterizou como expressão desta busca, evidenciada em toda a sua obra  poético-pedagógica.

 

A temática da liberdade, presente em seu épico maior Romanceiro da Inconfidência, como tema filosófico, é conteúdo central em toda a história da Ética e da História das Filosofias. Cecília capta muito bem isto. Além do que, evidentemente, efetua uma evocação da época dos movimentos de rebelião dos brasileiros contra a dominação colonial, após a Revolução Francesa. Desde os movimentos rebeliativos no Maranhão, em Pernambuco, Bahia, ao de Filipe dos Santos e poetas mineiros, junto a Tiradentes. Uma época de sonhos e árduas lutas por libertação. Neste épico, a autora expõe sua narrativa poética fazendo uso de um estilo também popular, o romanceiro, que ela mesma explica como sendo uma composição literária narrativa em versos de natureza lírico-épica, vinda de antigas tradições que remontam à Idade Média; em que se procura preservar a verdade histórica sem desprezar as tradições populares, incluindo os contos, as crenças e até mesmo as lendas.

 

Entretanto, seja relembrado, a obra poético-romântica de Cecília ultrapassa o próprio movimento mineiro, apontando elementos de universalidade para uma reflexão em torno da compreensão da humanidade. Ela nos apresenta um relato com todas as tintas da riqueza do seu lirismo a que muitos denominam lirismo absoluto. Mas não deixa, por seu lirismo, de referir-se à concretude da história brasileira naquilo que a temática possui de regionalidade enquanto expressão da consciência nacional e, ao mesmo tempo, afirmação de valores que integram uma aspiração maior da humanidade.

 

A liberdade é desejo que alimenta e possibilita o pensamento filosófico. A atividade pensante se caracteriza precisamente pela vontade de afirmação e busca desta mesma liberdade. Condição inegociável, seja no exercício da busca de realização e afirmação, na sua efetividade, ou na frustração da sua falta, a liberdade se manifesta como força provocadora da ação humanizadora; seja na arte, na organização política, nas ciências e na Filosofia. Paradoxalmente, enquanto se manifesta como busca e falta. Pois a liberdade é também a constatação ativa da não liberdade que nos impulsiona à sua conquista, pela ação criadora ou reinvenção.

 

Liberdade é sonho, diz a poeta-pensadora. Mas, sonho que se traduz na efetividade diária de práticas reveladoras de consciência histórica; como o demonstrou em seu trabalho de jornalista, escritora e educadora. Em muitos dos seus poemas o tema liberdade surge explicitamente; retomado várias vezes no seu grande épico, aparecendo como “céu da liberdade” em sua obra Canções; por ser tema e lema da bandeira dos chamados inconfidentes. Escreve a poeta: “amanhã, como ontem, é amarga a liberdade” (romances XXIV-XXVI). Liberdade, ainda que tarde. Ouve-se em redor da mesa. E a bandeira já está viva. E sobe, na noite imensa. E os seus tristes inventores / já são réus – pois se atreveram/ a falar em Liberdade (que ninguém sabe o que seja).

 

O pensar filosófico, a Filosofia, assim como a arte, surgem e ressurgem em instantes de lucidez por esta procura de liberdade que gera mais liberdade, como busca de ser mais. Assim reflete Cecília, fazendo encontrarem-se o passado, o presente e o futuro históricos numa só temporalidade, que é o tempo da liberdade. Em uma das suas crônicas intitulada “Ouro Preto” ela já havia escrito, em 1949, que aí o Brasil esteve, pela primeira vez, em dia com a literatura, a ciência, a filosofia e a política.

 

Portanto, como separar poesia e filosofia nesses seres humanos que nos legaram tais pérolas de conhecimento literário? A começar pelos próprios poetas do movimento mineiro; iniciadores de um movimento de consciência histórica nacional, pela sua atividade político-poética de contestação.

 

Como negar a presença de uma mundivisão filosófica subjacente na poese de Cecília? São inúmeros os poemas em que tematiza a aprendizagem, a questão metafísica da busca de sentido para a existência; o não sentido da vida, da dor, o tema da angústia, a estética, o conhecimento, a multiplicidade de eus, o enfrentamento da facticidade da morte. Em mais de trinta volumes que compõem sua obra poética, afora sua obra em prosa, esses temas sobressaem a cada verso. Principalmente a questão da temporalidade. O tempo, a memória, são recorrentes e muitíssimo repetidos em suas poesias. Todos são temas filosóficos, embora apareçam sob a perspectiva estética. Por isto mesmo suscitam a reflexão, enquanto refletem a nossa historicidade e humanidade.

 

Como não reconhecer que tais escritores são também pensadores?  Euclides, Cecília, Castro Alves, Machado de Assis, Lima Barreto e tantos outros, poetas e romancistas, nos fazem pensar filosoficamente. E sobre os quais muito ainda teremos a descobrir, em termos de antropologia filosófica e filosofia da literatura.

 

Como deixar de enxergar o diálogo poesia-filosofia nesses escritores? Impossível não reconhecer tal contribuição. Principalmente em se tratando de uma prosa poética de interrogação metafísica, como a obra de Clarice Lispector, por exemplo.

 

A poesia de Cecília chegou até mim exatamente através daqueles versos sobre a liberdade, num livro escolar dos meus tempos de estudante do ensino médio; época em que eu ainda desconhecia essa estrela da literatura brasileira e universal. Em mim ficou, até que nos reencontrássemos pelos mesmos caminhos do desencanto, da dor, da soledade, do encantamento e da busca por liberdade; tão presentes na sua poesia plena daquilo que experimentamos como sensibilidade humana.

 

Gosto de afirmar que Cecília é a poetisa da dor, do tempo, da solidão e da liberdade. Sem pretender, com isto, simplificar a multiplicidade temática presente nos seus escritos. Pois ela mesma repete que é vária, inúmera e múltipla. “Se me contemplo / tantas me vejo / que não entendo / quem sou, no tempo / do pensamento”. “Esta sou eu – a inúmera. / Que tem de ser pagã como as árvores” (in compromisso e auto-retrato).

 

A liberdade em Cecília é tematizada em diversos poemas nos quais fala da vida como reinvenção, imaginação, aprendizagem e memória. Estes termos são insistentemente repetidos. Seu poema “reinvenção” é um exemplo basilar desta repetição.

 

Não apenas sua poesia, mas todo o conjunto de sua obra é expressão de uma multiplicidade de sentimentos, de olhares, de canto, de perplexidade, teatralidade, indignações e indagações filosóficas.

 

Não se pode resumir, enquadrar ou tipificar a sua poesia somente como melancólica, lírica, simbolista, intimista, modernista ou qualquer outro “ista” que anda saltando nas páginas da crítica literária oficial. Sobretudo porque grande parte da população universitária desconhece a Cecília pensadora e crítica aos poderes políticos arrogantes da época da ditadura Vargas, por exemplo. Ignora Cecília como mística que não se enquadra nos padrões da religiosidade oficial; a pensadora interrogante, universalista, epigramática irônica, sem deixar de ser suave, sensível e lírica.

 

Repito: difícil tipificar em poucas palavras o estilo da poese ceciliana.

 

Em estatura intelectual, não temo afirmar, ela ultrapassa Castro Alves. Ambos se equiparam pela força da expressão verbal. Contudo, a produção literária ceciliana é mais ampla que a do poeta dos escravos. Proporcionalmente à sua idade cronológica, este poeta é insuperável, no seu tempo. Cecília vai além, sem nenhuma dúvida, por sua universalidade e produção intelectual. A maior expressão da poesia em língua portuguesa escrita por mulheres; em nada inferior a Fernando Pessoa, Guerra Junqueiro, Camões e outros idolatrados do academicismo. Mesmo assim, pouco conhecida no Brasil.

 

Uma das razões desse desconhecimento da grandeza poética de Cecília Meireles está no fato de que a intelectualidade brasileira sempre foi predominantemente masculina; melhor dizendo: machista. Muito tardiamente as escritoras mulheres se afirmaram. Além das questões ideológicas das elites contra a postura desta poetisa lúcida e corajosa; que não era tão evanescente como disseram alguns críticos da oficialidade.

 

Além disso, no Brasil, as massas acadêmicas conhecem somente alguns versinhos de antologias repetidas sem a necessária contextualização desta escritora. Nesses tempos de modismo virtual, repetem frases soltas via internet. Desconsideram e desconhecem esta mulher que esteve à frente da pedagogia de sua época, trabalhando com pensadores da envergadura de Fernando de Azevedo, Mário de Andrade, o filósofo da educação Anísio Teixeira, Heitor Villa-Lobos; combatendo o autoritarismo religioso imposto à sociedade brasileira pelas elites varguistas. Uma mulher que não hesitou em combater a imposição do ensino religioso católico às escolas e, em suas crônicas, chegou a nomear Vargas como o ditador; esse caudilho que, até hoje, em pleno ano de 2015, ainda é incensado por alguns setores das elites reacionárias e carentes de reciclagem intelectual.

 

Mesmo atualmente, com um número crescente de mulheres escritoras, duvido que as próprias mulheres da intelectualidade oficial gostem de ler Cecília. Principalmente nestes tempos de fundamentalismo religioso crescente; que em nada se afina com a perspectiva crítica desta poeta, primeiro reconhecida mundialmente, antes que em seu país.

 

Este aspecto crítico e independente da práxis ceciliana ainda é bastante ignorado. Consequentemente, pretendem colocá-la na gaiola do simbolismo e antimodernismo. Na verdade, não há classificá-la com apenas um esquema estilístico e interpretativo.

 

Nada melhor para nos fazer mergulhar no seu universo do que reler seus poemas. Principalmente “Mar Absoluto e outros poemas, Retrato Natural”, e o monumental “Romanceiro da Inconfidência”, esse épico praticamente desconhecido pelas maiorias que apenas ouviram  falar ou leram alguns versos de Cecília, isoladamente.

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por Marcelo Bezerra Oliveira

*Poetofilosofia, pag. 81-91, Ed. do Autor