Poetofilosofia*

Da antiguidade até o presente, a história das filosofias e das literaturas em geral estão cheias de pensadores-poetas. Desde os pré-socráticos gregos, que eram filósofos-poetas, até Frederico Nietzsche e Gaston Bachelard, em cujas obras se mesclam voos filosóficos plenos de uma literatura acenando claramente para a poesia. Foram autores de uma prosa poética extraordinária.

A mundivisão filosófica não admite fronteiras rígidas e separadas nas áreas do conhecimento. Razão por que está sempre apontando para um “não-se-sabe-o-quê”, que poderá ser atingido poeticamente.

Como saber dialogante, em todos os povos que a cultivam, desde os primórdios de sua tomada de consciência como razão, a Filosofia se encontra tangencialmente com a Poese. Está em constante diálogo com a literatura. Enquanto atividades culturais podemos afirmar que, embora distintas, são inseparáveis. Consequentemente, Filosofia e poesia, que não se confundem nem são complementares, sempre se reencontram na história do pensamento. Diversas, mas dialogantes; enquanto participam da literatura, surgem nas literaturas das diversas culturas. A Poesia, por ter sido cronologicamente a primeira forma de pensamento, nos mitos e cosmogonias; a Filosofia, mais tardiamente, como logos, discurso conceitual e explicativo, surge como interpretação e crítica das mitologias, mas sem tomar o lugar da Poese. E é precisamente no campo da literatura dos povos cultivadores da escrita que elas dialogam, através dos seus pensadores, sobretudo aqueles que se dedicam à ficção literária, no romance, através da prosa. Inclusive, como dado literário inegável, torna-se difícil separar, na maioria dos autores, prosa e poesia. São escritores que escrevem fazendo uso de uma prosa poética.

Quanto à tematização da relação entre Filosofia, Literatura e Poesia podemos rastrear e vislumbrar isto desde o pensamento dos gregos, em Platão e Aristóteles, passando pelos renascentistas, pós-renascentistas, como Giambattista Vico, até os escritores modernos de meados do século XX, a exemplo de Bachelard, Michel Foucault, Blanchot, Heidegger, Sartre, Deleuze; sem esquecer György Lukács, grande especialista em Literatura e Filosofia da Arte. De modo que, mesmo não tendo escrito poemas, todos tiveram a literatura como temática de suas reflexões.
Enfim, na grande maioria dos melhores escritores, principalmente romancistas, torna-se impossível separar prosa e poesia. Alguns que não se dizem poetas, entretanto, escrevem como poetas. Fazem uso de uma prosa poética, pela forma e o recurso das metáforas e imagens com que se instrumentalizam para expressar a sua relação com o mundo da vida. Tais escritores, evidentemente, pensam o mundo mediante a sua produção literária.
Para mim os melhores escritores são especialmente aqueles que possuem esta característica de escritores-poetas; mesmo que não recorram às formas específicas do gênero poético tradicionalmente conhecido, como sonetos, paralelismos, estrofes e rimas. Aqueles que mais atingem e expressam a humanidade. Certamente porque compreendem e intuem que a vida é muito complexa e enigmática para ser comunicada e pensada apenas mediante conceitos. Mais ainda, por outra razão que considero princípio epistemológico: por perceberem que o sujeito humano, em sua condição existencial de sujeito cognoscente, não o faz de modo compartimentado. Pois é um sujeito que indaga, pergunta, busca, duvida, investiga, percebe, não somente através do raciocínio técnico, lógico-dedutivo, mas movido pelo desejo, como corpo que se apercebe em contínua tomada de consciência; como totalidade de sentimentos e sensações. Como sujeito que sofre, alegra-se, projeta, se entristece, imagina, cria e toma consciência de sua finitude enquanto parte de um cosmos virtualmente infinito que não se deixa apreender em sua totalidade inacabada. Sujeito que faz a experiência da complexidade da vida enquanto exprimível/inexprimível, enquanto dialética de sentido/não sentido; mediante a atitude poético-filosófica enquanto fronteiras intercomunicantes que detectam a própria experiência da incomunicabilidade: a perplexidade face ao desconhecido e imprevisível que é a vida.
Pensadores que dialogam com as diversas fronteiras do conhecimento filosófico-literário são produtores de uma poetofilosofia; uma poesia pensante. Sem a pretensão de eliminar a necessária distinção entre o filosófico e o poético, Filosofia e Poesia.Saberes diferentes, sim, mas dialogantes, enquanto formas de literatura.
É no campo da literatura que elas dialogam, porque toda forma de saber sempre supõe fronteiras, ao se deparar com seus limites. Ao mesmo tempo, é necessário que tais fronteiras não se fechem. Isto não é uma mera questão de metodologia, mas uma necessidade que brota do desejo humano de indagação e busca de respostas que possibilitem melhor fruição dos momentos da vida. A Filosofia enquanto esforço explicativo, conceitual, como sapiência “onisciente”, argumentativo; a Poesia como “omnissentiencia”, (uma forma de sentir tudo); admiração contemplativa, indeterminabilidade. O poema é canto, por ser ritmo e rima; convoca-nos ao silêncio; mas também nos move à ação-reflexão. Enfim, ambas são saberes. Poesia não é puro sentimento, imaginação ou delírio; pois encerra uma forma de percepção, ao pretender pronunciar o mundo numa outra perspectiva de saber – a perspectiva estética.Por isso se torna pensante. A poesia é memória; um tipo de memória que pode recuperar até mesmo aquilo que a nossa mente julgava perdido. Isto encontra-se na raiz da história do pensamento. E a ponte entre ambos se efetua pelo diálogo. Um diálogo entre pensador e poeta, filósofo e poeta, dirigido pelo pensamento, originando um pensar poético.Num mesmo pensador ou entre vários, naturalmente.

*Marcelo B. Oliveira – in Poetofilosofia/2015