Sonhar os meus sonhos (singularidade)



“Será que um sonho, depois de sonhado, acomodará mudanças no sonhador?”, essa é uma pergunta intrigante que o protagonista do livro “Quando Nietzsche Chorou” elabora.

Neste primeiro momento trato especificamente do sonho que temos quando dormimos, quando desligamos do mundo visível e estamos em um outro lugar, não definido, não territorializado, em um mundo de sensações, no sonhar. Estou usando como referência a Filosofia Clínica, uma prática terapêutica que privilegia a singularidade, segundo este método, a maneira como cada um se expressa, é única, mais ainda, a depender das experiências de vida que estamos tendo, do que olhamos e o que o nosso olhar é atraído durante o estar acordado, nossos sonhos, nossas reações, também serão diferentes.

Longe de responder ou concluir o tema, gostaria sim de perguntar mais, de esquadrinhar uma série de dúvidas destinadas aos sonhadores que estão lendo essas linhas, a quem os sonhos são mais que um gosto doce ou amargo ao despertar, mas um alento na dureza dos dias. Isso não configura uma crítica a quem sonha e não percebe, tudo na vida são tempos, e lidamos de acordo com o que as circunstâncias nos permitem, somos muitos, sendo um só.

Percebo que existem muitos tipos de sonhadores em nós mesmos, singularidades diversas, que lidam de muitas maneiras com o sonhar, podemos estar em um momento de vida dedicado ao mundo onírico, escrevendo nossos sonhos e reaprendendo com eles como se mover no mundo, e em outro momento, talvez no mesmo mês, completamente alheios ao que ocorre quando estamos desligados do mundo visível. Esse tema suscita muitas questões, somos sós mesmos quando sonhamos? Ou visitamos outras realidades com outras características pessoais, com outras reações? Mais ainda, o que somos quando não somos nós mesmos?

Há quem não lembre dos seus sonhos, será? Ou será que essas pessoas estão sendo chamadas pelas demandas da vida concreta de tal maneira, que não é possível pensar para além do cotidiano, do que nos é dado como material?

Há também quem busque a certeza da ciência, dissertando sobre estágios do sono e em que camada ocorre o sonhar, para explicar o porquê do lembrar ou do não lembrar, ou se refugie em fragmentos de lembranças, somente os fragmentos que lhe convém, como quem conta uma história pela metade, omitindo a parte que desagrada, como se o próprio falar já materializasse uma experiência negativa.

Penso que o próprio sonho, para alguns e em determinados momentos, pode ser um submodo, ou seja, uma maneira da pessoa lidar com suas questões íntimas. O submodo, em Filosofia Clínica, é a maneira própria que cada pessoa encontra para se expressar, para dizer quem é. Por exemplo, há quem fique feliz e saia para caminhar por um parque, e há quem, por estar triste tenha a mesma atitude, são submodos, um de expressar sua alegria, e outro de elaborar a tristeza, mesmo sendo a mesma ação. Um submodo que usamos em clínica é o roteirizar, ou ainda, quando o terapeuta idealiza cenários, e transporta o partilhante (quem faz a terapia com o filósofo clinico) para realidades alternativas da sua situação atual de vida. O sonhar pode ser também uma maneira de roteirizar, de experimentar outras vidas, sem a condução do terapeuta, ou ainda, experimentar outras sensações, outras maneiras de pensar.

Ao lembrar e reviver o que foi sonhado, em alguns casos, se encerram questões existenciais, significados são atribuídos, para que a vida tome outros rumos. Mas ainda assim, o que é lembrado e o que é esquecido? Qual o sentimento que cada um traz de um sonho? O que acalenta ou o que atormenta? Como saber o universo de possibilidades em tantos infinitos particulares de quem sonha?

A teoria clássica da psicanálise, que data de 1900, em uma de suas leituras, trata dos sonhos como a maneira de se deparar com o que realmente incomoda, e durante o dia foi descartado no pensar, soterrado entre afazeres cotidianos. O que com certeza acontece, em determinadas singularidades, em determinados tempos, já em outras vai ser de maneira diversa.

Pois se estamos em constante modificação, porquê não podem ser os sonhos, o dispositivo que denuncia o que não estamos vendo, o ponto cego, ou o que não temos a sustentação para perceber acordados? Essa é uma leitura possível, mas existem tantas outras quanto existem pessoas diferentes, a pessoa pode, a partir de um sonho aparentemente sem sentido para quem convive com ela, atribuir um significado, e a partir deste significado, estabelecer mudanças ou permanências na sua vida.

A Filosofia Clínica, ao ter como fundamento o conceito da singularidade, do respeito à escuta singular de cada pessoa, respeita também todas as possibilidades de manifestações, sejam de comportamentos, pensamentos ou sonhos. A cada sonhar é acordada também outra singularidade, que só encontra a maneira de se manifestar no devaneio, e se a pessoa, em seu mundo visível vai se apropriar disto, é um conjunto de circunstâncias que vai dizer, com aspectos tão sutis, que se torna uma tarefa hercúlea enumerar e tentar controlar, pois o sonhar não respeita regras matemáticas, fórmulas passíveis de serem mensuradas.
Em outros momentos, o sonhar seja somente uma vaga lembrança, que não ecoa ao longo do dia, não ressoa os passos de quem acordado, não atribui importância ao seu próprio sonhador, ou não percebe o sonhador que lateja em si.

Hanna Harendt, em “A Vida do Espírito”, disse que “nada do que vemos, ouvimos ou tocamos pode ser expresso em palavras que equiparem ao que é dado aos sentidos”. Esse ser sonhador que se revela a cada sono, é mais abstrato ainda, mais etéreo pois se esvai a cada despertar, deixando um rastro fugidio, que cada um, à sua maneira, persegue acordado.

Ainda temos o sonhar como ação que realizamos acordados, como o que nos encanta, o que nos move, ou no sentido da realização, da busca, ou que permanence como idealização, em alguns casos. A pessoa pode, por exemplo, sonhar em ser poeta, mas se contentar com a ideia, sem necessariamente escrever ou publicar algo, e isto ser suficiente na sua trajetória de vida. Mas também pode chegar o tempo, a circunstância, em que somente a ideia de ser um poeta não é suficiente, em que que vai se fazer necessária a escrita, e o texto que estava acumulado ao longo de uma vida surja de maneira quase espontânea.

O sonhar acordado é talvez tão complexo e cheio de dobras como o sonhar dormindo, Gaston Bachelard diz que toda ciência inicia com um sonho, para depois se desdobrar em conhecimento. É possível que, também na vida particular de alguns, funcione desta maneira, quando os caminhos que realmente importam, sejam os papéis que cada um assume na vida, como mãe/pai, profissional, filho (papéis existenciais), sejam afetivos (emoções), sejam de valores de vida (axiologia), iniciem como uma ideia, um sonho, para depois se concretizarem, ou ainda, irem em direção ao desfecho.

Ao tratar cada pessoa na sua singularidade, não é possível usar regras, métricas, tipologias. Pois o sonhar acordado, que pode ser fundamental para uma pessoa, que tenha os tópicos emoções e significado como centrais, para outra pessoa, com o tópico epistemologia predominante, pode ser totalmente insignificante. Mais ainda, a lógica sonhar, planejar e realizar pode fazer todo sentido para uma pessoa, já para outra ser totalmente diferente, para quem o sonhar pode estar acomodado em um local de idealização, de refúgio, que não tem relação alguma com a vida prática. E que tenha sim, na sua vida, a linha sonhar, planejar e realizar, porém desconectada entre si, onde o sonho é importante, mas o planejamento seja referente à outro aspecto da vida, assim como a realização.
Pensar nas diferentes manifestações de singularidade faz da Filosofia Clínica um estudo complexo por um lado, e extramamente rico por outro, já que na clínica filosófica o terapeuta vai apreender o mundo do outro, o que faz sentido na sua história de vida, qual a relevância do sonhar e concretizar esses sonhos, ou se o que vai mover a pessoa em terapia vão ser outros aspectos.

A história de vida de cada um já é um sonho que se sonha acordado, um conjunto de coisas vividas, vistas, ouvidas, sentidas, ditas e não ditas, e a terapia vai possibilitar outros olhares para essa bagagem de vida. Mais ainda, a lembrança de aspectos esquecidos e outras possibilidades de leituras, de atribuição de significado. Uma experiência de vida que é guardada como uma dor, como uma mágoa, pode ser olhada de outros ângulos, e vista como uma possibilidade de resgate pessoal, a partir da clínica. O que é isso senão acomodar mudanças no sonhador, no que o partilhante (que faz a clínica com o filosofo) traz como história de vida?

Nesta caminhada de duas vias, ao mesmo tempo em que o filósofo vai apreender o mundo do partilhante, sua linguagem, seus gestos, também o partilhante, este que partilha, vai aprender a se escutar, vai apreender novamente sua história, seus sonhos, atribuindo talvez uma outra importância, tanto ao sonho que se sonha dormindo como o que se sonha acordado.

Como diria Drummond:
“Sempre no meu amor a noite rompe.
Sempre dentro de mim meu inimigo.
E sempre no meu sempre a mesma ausência.”

 

por Luz Maria Guimarães – Empresária e Terapeuta

Saiba mais sobre a autora em www.luzmariaguimarães.com
Gestão Pessoal e o Ciclo SPR (Sonhar, Planejar, Realizar)
Editora Pragmatha
Porto Alegre, 2017