UM ASPECTO DO FILOSOFAR DA FILOSOFIA CLINICA

Em sua obra Filosofia e Circunstâncias*, no Epílogo – O que significa filosofar, o filósofo espanhol Adolfo Sanchez Vázquez (1915 – 2011), ressalta a necessidade e importância de distinguir a produção filosófica e a prática do filósofo, sendo esta última efeito da primeira, supondo que todo filósofo produza filosofia e filosofe desde um lugar referenciado, contextualizado.
Citando o filósofo Immanuel Kant (Alemanha, 1724 – 1804), Vázquez ressalta que a filosofia é a produção de “objetos que são as doutrinas, teorias, categorias ou conceitos filosóficos” e o filosofar o modo como esse conhecimento insere-se “na própria vida do filósofo”.
É pertinente, segundo Vázquez, ainda citando Kant, fazer a distinção “com a qual o acento se coloca, sobretudo, não na filosofia, mas no filosofar. O que, por sua vez implica pôr o acento na aspiração, finalidade ou intenção com que o sujeito – o filósofo – produz certo objeto ou exerce sua atividade”.
Ele ainda faz referência a Karl Marx, outro filósofo alemão (1818 – 1883), cujo distintivo “é por em primeiro plano essa atividade prática, vital, que (…) suporta o imperativo moral de transformar o mundo que, para o filósofo, converte-se no próprio imperativo de pôr seu filosofar em concordância com essa finalidade”.
Sendo a Filosofia Clínica uma terapêutica existencial, podemos dizer que ela também é um exercício prático da filosofia, é um filosofar praticado pelo Filósofo Clínico junto ao partilhante, caminhando com ele, durante o processo clínico, no sentido de auxiliá-lo a buscar as transformações necessárias para o seu modo de ser, de estar e de agir no mundo, sempre de acordo com o que a pessoa almeja. E em se tratando, por exemplo, de alguém que tenha um envolvimento com as causas político-sócio-ambientais etc, e que traga essa questão/inquietação para a clínica, obviamente, o Filósofo Clínico colaborará para que o partilhante atue, como diz Vázquez, para “transformar o mundo humano que, por injusto, não podemos nem devemos fazer nosso, (…) e não se deve aceitar a injustiça. Trata-se de transformar o que é não só porque ainda não é, mas também porque deve ser”.
Vale observar que o Filósofo Clínico, como terapeuta, embora coloque sua ênfase no filosofar, não significa dizer que ele também não produza filosofia enquanto teoria, pois estuda e busca construir um conhecimento teórico que dê sustentação para sua prática filosófica e para seu agir na transformação de si e do mundo.
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*Ed. Civilização Brasileira, 2002, p. 541-549.
Paulo Roberto Grandisolli