É POSSÍVEL MENSURAR O AMOR? – Exercícios filosófico-sentimentais…

“Faça tudo para que, quando estiver prestes a morrer, não se arrependa por ter amado pouco.” (Chiara Lubich, 1920-2008)
Lendo essa frase numa destas folhinhas-calendário vêm-me uma série de questionamentos.
Assumo, de antemão, que apenas a li desta maneira, solta, sem conhecer se essa opinião faz parte de um texto maior, de qual texto, de que momento ou circunstância o mesmo foi escrito ou verbalizado.
E mesmo conhecendo um pouco da autora, se é que foi ela mesma que o disse (tantas palavras/pensamentos são atribuídos a tanta gente sem citação de fonte ou comprovação…) e sabendo de sua confissão e prática religiosa cristã/católica, mesmo assim isso daria motivos para não me atrever a dar uma opinião, pois correria o risco de, desconhecendo o contexto, fazer juízo de valor sobre o dito e sobre quem o diz.
No entanto, vou me arriscar…
E começo por perguntas tais como:
O que seria o amor? O que seria o desamor? De que tipo de amor se fala? Quem ama? Quem é amado? O que se ama? De que forma se ama? Quais as formas do amor? O que é arrepender-se? O que é não arrepender-se? Arrepender-se do que? O que é a morte? O que é estar prestes a morrer? Se for o caso de arrependimento, por que só fazê-lo quando se está prestes a morrer? O que é ter amado pouco? O que é ter amado muito? É possível mensurar o amor? Assim como qualquer outro sentimento?
Tendo essas questões em mim é que me atrevo a discorrer um pouco sobre assunto. Isso porque, como ser questionante e, como diria Clarice Lispector, “eu sou uma pergunta”, não posso e não consigo ficar quieto comigo mesmo diante de tais “frases de efeito”, como tantas que vejo proliferar por aí, especialmente hoje com as redes sociais (facebook, instagram, watsapp etc…) nas quais, a todo momento, hora, dia, semana, mês se deseja a felicidade (feliz segunda, terça, quarta… feliz isso ou aquilo…) e te amo daqui e de acolá… e por aí vai… Isso tudo me incomoda bastante e dá-me a impressão de que, por fazermos uso exagerado de tais “mecanismos”, o fazemos justamente porque nos falta aquilo que exacerbadamente desejamos uns aos outros. Aliás, isso já é “comprovado” pelas teorias psi: amamos aquilo que nos falta.
E, principalmente em tempos sombrios como os que vivemos, onde os valores são invertidos especialmente por aqueles que determinam a ordem estabelecida, ou seja, os políticos e governos de plantão, sempre a serviço das elites financeiras que os mantém, onde as oportunidades parecem cada vez mais escapar da história da grande maioria dos mortais, parece crescer vertiginosamente esse tipo de comportamento, reflexo de um sentir e de um pensar que, na realidade, são pseudo pensamentos, pois buscam numa realidade “ilógica” argumentos para “racionalizar” e mensurar, nesse caso, a capacidade de sentir e os sentimentos das pessoas. Aliás, controlar os corpos e os sentimentos é fundamental para manter o status quo, a (dês)ordem dominante. “Sorria, você está sendo filmado”, quer dizer, “sorria, você está sendo vigiado”. Em Vigiar e Punir, Foucault já apontava para isso. E seria arriscado dizer que hoje, além dos mecanismos tradicionais de vigilância, as redes sociais são os panópticos modernos e estaríamos nós confinados em grandes zoológicos, mesmo quando dentro de nossas casas? Disso tudo é desafiante libertar-se. Isso se se quiser a liberdade como valor maior. Quando se ama a liberdade, podemos assim dizer.
O amor, o desamor, que tipo de amor, quem ama, quem é amado, como se ama, de que forma se ama, o arrependimento, o arrepender-se ou não, a morte, o estar prestes a morrer, o pouco, o muito… tudo depende de cada experiência de vida, da singularidade de cada pessoa, da história que se viveu e se vive, das relações que estabelece ou não, daquilo que é ou não importante em sua vida, da liberdade que se busca e se conquista. Não dá para enquadrar toda e qualquer pessoa num dito como o mencionado acima e daí concluir que tal pessoa, estando prestes a morrer, que é o corte pelo qual passaremos, tenha amado muito ou pouco. As histórias de cada humano ser são muito mais complexas do que podemos supor ou imaginar. Nada na vida é simples, principalmente em se tratando de formas de sentir.
Nosso sentimento para conosco mesmos, para com o mundo, para com tudo o que nele existe, para com as pessoas em particular, suponho, é “algo” de muito profundo e multifacetado, a depender, sempre, dos “estados” em que nos encontramos e das diversas relações estabelecidas ou não, das circunstâncias, dos lugares, dos tempos, dos diversos assuntos, das diversas questões com as quais nos deparamos. Somos um constante processo, no qual vamos aprendendo amores e dasamores.
Como diria Octávio Paz (1914-1998), em seu texto Máscaras Mexicanas: “O amor é uma tentativa de penetrar em outro ser, mas só pode ser realizado sob a condição de que a entrega seja mútua” (O Labirinto da Solidão, 1984, p. 41). E isso, penso eu, deve valer para toda forma de amor. Como canta o poeta, “toda forma de amor vale a pena, toda forma de amor vale amar”.
E caberá a cada pessoa dispor-se a essa entrega. Na vida, e no amor, quase sempre saltamos no escuro. Estando ou não prestes a morrer. E não há medidas…
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Paulo Roberto Grandisolli

Filosofia e Política

A dúvida, a inquietação, a contestação e a busca são próprias da investigação filosófica. As filosofias nasceram dessas atitudes diante das questões que instigam e inquietam mulheres e homens ao longo da história, desde os “mistérios” da natureza, passando pelas questões cruciais da existência humana, como o sofrimento, a morte, as angústias, até as questões éticas, políticas, sociais e culturais. No filosofar tudo cabia e tudo cabe, desde que o exercício do pensamento não permaneça no mero senso-comum ou apenas no bom senso, que não se reduza a mera especulação e teorização, mas traga contribuições e transformações concretas e necessárias para a vida cotidiana, em termos do que se chama filosofia da práxis.
Práxis, aqui entendida como um pensamento, uma reflexão que estimula a prática; mas uma prática que instigue o constante pensar, repensar e refazer conceitos, teorias etc, objetivando a transformação da realidade. Práxis não é mera prática; mas, ação, conduta. Ação e conduta que se identificam com o próprio modo de pensar, ser a agir no mundo, não só enquanto ação de indivíduos, mas principalmente enquanto ação coletiva. Um pensar e agir coletivos que levem a uma transformação social. Rosa Luxemburgo (Polônia/Alemanha, 1871-1919), Antonio Gramsci (Itália, 1891-1937), Adolfo Sánchez Vázquez (Espanha/México, 1915-2011), Paulo Freire (Brasil, 1921-1997), Carlos Nelson Coutinho (Brasil, 1943-2012), são alguns desses filósofos que contribuem para nosso entendimento acerca da práxis. Vale lembrar, principalmente, Karl Marx (Alemanha/Londres, 1818-1883), ao afirmar que os filósofos, até então, haviam interpretado o mundo; a questão mais importante é transformá-lo.
Atualmente, em várias partes do mundo, particularmente no Brasil, vivemos num chamado estado de exceção, que no dizer do filósofo italiano Giorgio Agamben (1942-), é aquele que “apresenta-se como forma legal daquilo que não pode ter forma legal”*; uma frágil democracia se mescla ao autoritarismo. Em nosso país, após um golpe midiático-político, instalou-se um governo declaradamente submisso às oligarquias econômico-financeiras nacionais e internacionais cujo propósito é consolidar o neoliberalismo, em que o mercado tem absoluta liberdade para ditar e implantar as regras da política, restringindo a ação do Estado sobre a economia. Daí os chamados direitos civis e sociais passarem a ser gerenciados pelas grandes corporações como mercadoria, imperando a suposta “livre” negociação, sobretudo nas relações de trabalho. Sabe-se daí, como diz o ditado, a corda sempre arrebenta do lado mais fraco. E toda essa forma de pensar e gerir a política estende-se como uma “práxis perversa” para todos os aspectos da vida humana, como a educação, a saúde, a cultura. Sejam observados projetos como o escola sem partido, o escanteio de matérias como Filosofia e Sociologia nos currículos escolares, a privatização de serviços básicos como energia e saneamento, a expropriação de territórios de populações indígenas e quilombolas, as intervenções em exposições e performances artísticas, entre outras, que temos presenciado ultimamente.
Enfim, o estado de exceção expõe um obscurantismo nas áreas do direito e da democracia, instaurando-se um estado policialesco, no qual o judiciário age como mandatário supremo, à guisa dos outros poderes, todos mancomunados, espetacularizando ações, inquéritos, conduções coercitivas, prisões… E os grandes meios de comunicação, especialmente a TV, corroboram e contribuem para levar ao delírio uma grande parcela da população que não foi e não é estimulada a pensar por si mesma, repetindo o pensamento único veiculado e tido como verdadeiro. Daí, pensamentos e comportamentos preconceituosos e discriminatórios (xenofobia, LGBTfobia, misoginia, linchamentos, intolerância religiosa etc) afloram e se sentem legitimados por boa parte dos que ocupam e usurpam cargos no Congresso, nos Supremos Tribunais e demais instâncias governamentais.
Mas, e daí? Para que serve afinal a filosofia? M. Gadotti, filósofo brasileiro, em artigo publicado no periódico Reflexão (PUCCAMP)**, já tematizava essas questões aliadas ao ensino e estudo da Filosofia. Naquela época, então sob uma ditadura militar, constatava que “na ordem do sistema capitalista, a única filosofia tolerada é a filosofia da alienação. O capital precisa cada vez mais de homens alienados. (…) As discussões sobre a opressão e a ditadura certamente não terão lugar numa classe de física ou de matemática”. Afirmava também que “a filosofia deixou de ser o lugar do debate dos grandes (e graves) problemas do homem contemporâneo. (…) Pretensiosamente, a filosofia dos especialistas, dos filósofos por profissão, recusa-se a tratar dos problemas concretos e urgentes dos homens, para servir às organizações políticas e econômicas do capitalismo”. Vivemos uma situação análoga. Daí a urgência de nos reapropriarmos da filosofia, entendermos a necessidade de um filosofar, como “exercício do livre debate, ensinar e aprender a problematizar o que parece evidente, necessário, correto; ensinar e aprender a contestar (…). Nesse sentido, cada vez mais o filósofo me parece como o homem da suspeita, o homem que não duvida apenas, mas vai além da dúvida, suspeita sistematicamente e sobretudo das evidências, das coisas que se apresentam de forma definitiva, das coisas claras, que há sempre algo que não se mostra, que está escondido atrás das aparências, suspeita da parcialidade daquilo que vê”.
Consideramos parte essencial do pensamento filosófico ver para além das aparências e debruçar-se sobre as questões do cotidiano, de um sistema que submete homens e mulheres como meros componentes de uma pretensa “máquina pensante” e lhes incute a ideologia de se tornarem, como diz o filósofo chileno V. Safatle***, empreendedores de si mesmos, cujos pensamentos, corpos e desejos são controlados pelos grandes “centros de tecnologia-entretenimento-informação” formadores de “um tripé basilar da economia mundial”, reduzindo-os a objetos e negando-lhes as individualidades e o primordial direito ao pensamento e ao agir autônomos. Defendemos um filosofar que colabore para o restabelecimento e a consolidação da democracia brasileira, inclusive pensando noutros modelos, que não apenas o modelo democrático representativo, como as democracias comunitárias e participativas, em que as pessoas, o povo possa se pronunciar em sua soberania e como origem do poder político.
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*Giorgio Agamben, Estado de Exceção, 2004.
**Moacir Gadotti, Para que serve afinal a Filosofia? Reflexão, PUCCAMP, 4/13, jan-abr/79.
***Vladimir Safatle, O Cirucuito dos afetos – Corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo, 2015.
Marcelo Bezerra Oliveira / Paulo Roberto Grandisolli

A razão cínica*

Previamente quero esclarecer que o termo razão cínica não tem aqui a conotação ética da escola grega dos tempos pré-socráticos.
Denomino razão cínica ao procedimento que pretende justificar ou pelo menos querer legitimar aquilo que pelas vias do raciocínio lógico rigoroso é injustificável e inaceitável.
Trata-se de uma postura cínica no sentido antiético e vulgar.
O movimento filosófico denominado Escola Cínica, atribuído aos pensadores ditos cínicos, caraterizava-se pelo desprezo das convenções e preconceitos relativos ao comportamento do senso comum. Objetivava uma vida de simplicidade radical e renúncia à posse de bens. A provocação de um choque mediante a quebra de tabus e convencionalismos rígidos. Uma postura de cepticismo e questionamento.
Atualmente, o discurso pautado pela razão cínica, longe desta tendência, consiste numa posição superficial, autoritária e afirmativa do conformismo subserviente à estabilidade do sistema dominante. Trata-se de uma razão cega, porque vê, mas finge não ver. Sabe, mas não reconhece; por ser politicamente conveniente e submissa aos interesses ideológicos dos que fazem a negação das evidências. Enquanto a filosofia cínica dos gregos antigos tinha uma posição cognitiva de contestação aos padrões dominantes, a razão cínica atual, sendo conformista, sequer se assume como tal, porque pretende se camuflar enquanto discurso que defende exatamente a manutenção desses padrões, pelo discurso falacioso sem nenhuma força de argumento que mereça o nome de racionalidade lógica. O próprio termo razão, neste caso, está impróprio, já que se trata mais de uma negação da própria racionalidade. Seria uma espécie de desrazão ou anti-razão. Relacionadas de tal modo que racionalidade e cinismo se confundem, sem que um anule o outro. Nesse contexto só é possível ser racional sendo cínico.
Um dado estatístico evidente a todos, por exemplo, passa a ser evitado, negado ou simplesmente invertido, sem que se apresente uma razão suficiente para tal, afora o interesse do interlocutor que o nega. Trata-se mais de um discurso falacioso que pretende dissimular certo autoritarismo, mediante dados verdadeiros, porém invertidos; pelo avesso, digamos. Uma negação de dados verdadeiros, exceto para quem os rejeita, por invertê-los em razão de malignidade e má fé.
A razão cínica em sua postura poderá até usar o que chamamos má fé e malignidade. Embora, diga-se, não se confundem. Pelo fato de que se funda no saber e em sua negação.
No momento atual esse tipo de irracionalidade inconseqüente e irresponsável é usado para disfarçar o absurdo inocultável nomeado como crise econômica, crise de paradigmas, crise da razão. Contanto que não se nomeie como crise do sistema capitalista.
As “razões” da razão cínica são geralmente as chamadas “razões ocultas”, os interesses inconfessados, o que está escondido por preferências, negociatas, desvios, conveniências pessoais, corporativas, de classe social etc. Seriam os resquícios da famosa mão “invisível” de Adam Smith. Aquilo que está camuflado, que não aparece nem é nomeado, porém transparece nas decisões e escolhas dos sujeitos falantes. E assim já não é tão oculto. Em síntese, é o tipo de discurso em que o sujeito falante, fazendo uso de falácias, atinge um nível acentuado de inescrupulosidade. Paralogismo? Não. Pelo fato de que o simples paralogismo possui apenas uma falha de natureza lógico-formal no argumento, sem necessariamente usar de malignidade; enquanto o discurso da razão cínica sabe que é inverídico e perverso. Usa o que denomino perversão ideológica. Embora não se reduza a mera questão de ideologia enquanto falsa consciência.
Alguns exemplos de falácias freqüentes no discurso sociológico reacionário podem nos esclarecer. Quando se afirma que o encontro entre europeus e indígenas foi pacífico. Que os nativos foram bem tratados e presenteados. Afirmar que a escravidão dos africanos não foi uma questão racial, mas apenas econômica. Que os negros conviviam pacificamente com os brancos portugueses no território brasileiro. Afirmar que todo brasileiro pode ser candidato a presidente da república. Que todos são iguais perante a lei. Que os Estados Unidos querem implantar a democracia nos países do oriente. Que nos últimos quatro anos cerca de quinze milhões de brasileiros saíram da classe baixa para a classe média. Que o crescimento econômico de percentuais do PIB de um país traz melhoria de vida para o povo. Enfim, tais discursos fazem uso da perversão estatística, pela inversão de dados. Trata-se de uma forma de legitimação e justificação do injustificável e ilegitimável. Um discurso que recusa enxergar os fatos visíveis e a perversão interna de sua falácia. Não se trata de uma falácia que leva à perversão, mas é a própria perversão em palavras inócuas que se pretendem consistentes.
Além desses exemplos, outro tipo emblemático de máximo cinismo acontece quando o próprio arcabouço jurídico permite que parlamentares ou empresários criminosos de alta periculosidade, tendo comprovadamente desviado milhões dos cofres públicos, como membros de quadrilhas, sejam defendidos por advogados particulares filiados à própria ordem dos advogados. Em nome do “direito”!
Sempre um discurso vindo do poder que pretende justificar a própria necessidade de transgressão ou ilegalidade pelas brechas da legalidade. Pior ainda por se tratar de uma perversão ideológica produzida pelas elites dentro das universidades. Que não teve origem aqui, mas nas universidades dos Estados Unidos e dos países europeus. Países onde, segundo o discurso dessas mesmas elites cínicas, “tudo funciona”. Entenda-se: a alta criminalidade. A exemplo da Suíça, com seus paraísos bancários; a França e a Itália racistas; todos com seus esconderijos para a bandidagem internacionalmente organizada em torno do dinheiro.
Não seria difícil reconhecer que este tipo de postura também se faz presente no comportamento das massas, que geralmente tendem a repetir o senso comum e o banditismo das elites. Neste sentido ambas não se diferenciam tanto. As elites possuem poder para impor o absurdo. O comportamento inescrupuloso das elites, o seu banditismo, a sua delinqüência, incentiva a delinqüência assassina e mortífera das massas; como analisou e previu o pensador Jurandir Freire Costa, há vinte anos, em entrevista sobre a razão cínica das elites brasileiras de fins da década de oitenta; e que nos dias atuais só tem piorado (cf. A ética e o espelho da cultura).
As massas não dispõem de poder, mas consentem, aplaudem, apoiam e imitam a prática das elites no que há de mais sórdido. Por isso são tão horrorosas. A meu ver um dos obstáculos mais difíceis para uma prática pedagógica conscientizadora está justamente nesse cinismo generalizado que funciona como corruptor das populações.
Penso ser possível também identificar a presença da razão cínica no comportamento das massas. Claro, de maneira irrefletida. O que me deixa mais estarrecido e perplexo é a sua cegueira e conivência com os opressores. Gostam de aplaudir e cultuar os tiranos. Sofrem fome, discriminação, marginalidade; entretanto, ao menor convite para inaugurações de monumentos, comícios e pseudo-festas, lá estão em multidões, para aplaudir os chefes. Pior ainda, estão sempre dispostas para apoiar as ditaduras e todo tipo de autoritarismo. Sua dispersão adere à ordem do mais forte. Em momentos especiais da história da humanidade as massas sempre consentiram o assassinato de grandes lideranças potencialmente libertadoras, como Jesus Cristo, Gandhi etc. E ainda hoje continuam dispostas para o mesmo tipo de crime. São adeptas do coitadismo e ao mesmo tempo dispostas a apoiar os interesses dos tiranos. Dissimuladas e violentas. Isto esconde o reflexo da razão cínica inerente ao poder autoritário.
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*In Filosofia Popular, 2009, p. 126-130, de Marcelo B. Oliveira

A filosofia e o filosofar

O filósofo espanhol Adolfo Sánchez Vázquez (1915-2011), que viveu exilado no México devido à perseguição política da ditadura do General Francisco Franco Bahamonde na Espanha (1939-1975), similar à ditadura militar brasileira (1962-1985), guardadas as devidas proporções, defende uma filosofia engajada, isto é, se a produção e a prática da filosofia, pautada na concepção de Karl Marx, filósofo alemão (1818-1883) não contribuir para transformar o mundo, pode tornar-se, a Filosofia, ela mesma, mera interpretação.
Em sua obra Filosofia e Circunstâncias*, no Epílogo, Que significa filosofar?, Vázquez ressalta a necessidade e importância de distinguir a produção filosófica e a prática do filósofo, sendo esta última efeito da primeira, pois todo filósofo filosofa desde um lugar referenciado, contextualizado, embora, muitas vezes, sua produção ganhe “corpo em determinados textos que em sua trama abstrata, conceitual e objetiva parecem apagar as marcas do homem que o produziu.”
O autor aponta a clássica distinção feita por outro filósofo alemão, Immanuel Kant (1724-1804), “que pressupõe a distinção entre filosofar como atividade e filosofia como seu produto ou resultado”, sendo a filosofia “as doutrinas, teorias, categorias ou conceitos” e o filosofar o modo como esse conhecimento insere-se “na própria vida do filósofo, seja como prática especializada, profissional ou acadêmica (…), seja fora da universidade ou da sala de aula, como acontece com o filosofar rueiro de Sócrates, o prático-político de Marx ou o mundano de Sartre” (Jean-Paul Sartre, filósofo francês, 1905-1980).
É pertinente, segundo Vázquez, ainda citando Kant, fazer a distinção “com a qual o acento se coloca, sobretudo, não na filosofia, mas no filosofar. O que, por sua vez implica pôr o acento na aspiração, finalidade ou intenção com que o sujeito – o filósofo – produz certo objeto ou exerce sua atividade”.
Nesse texto, o próprio Vázquez coloca-se como filósofo produtor de um conhecimento próprio, perguntando-se e assinalando “qual é a finalidade prática, vital, à qual ele pretendeu servir: transformar o mundo humano que, por injusto, não podemos nem devemos fazer nosso. (…) Por isso, diante das recentes lições da história e as incertas perspectivas que alimentam, cabe também perguntar por que empenhar-se nessa transformação e não deixar as coisas como estão? A pergunta provoca uma resposta que ultrapassa a dimensão política, a saber: porque esse mundo é injusto, e não se deve aceitar a injustiça. Trata-se de transformar o que é não só porque ainda não é, mas também porque deve ser. A política tem que impregnar-se de um conteúdo moral que impeça seja ela reduzida a uma ação instrumental.”
(Não fosse outra a intenção, caberia aqui fazer uma analogia com a realidade brasileira atual, quando vivemos sob os desmandos de um governo que pratica uma política “reduzida a uma ação instrumental” voltada para os interesses das elites e oligarquias financeiras nacionais e internacionais. Mas esta seria uma outra história, embora tudo esteja relacionado, de alguma forma.)
Nota-se que Adolfo Vázquez, como dito no início, produziu e praticou filosofia também desde sua experiência de perseguido e exilado político, engajando-se na luta pela transformação da realidade sócio-política-econômica em que viveu, tanto na Espanha/Europa como no México/América Latina-Caribe** estando essa última, à época, sob o jugo do imperialismo e da exploração das grandes potências mundiais, especialmente os EUA.
Como consideração final do texto, o referido autor diz que: “Na verdade, toda filosofia tem efeitos práticos, ainda que sua finalidade, ao produzi-la, tenha sido meramente teórica”, citando novamente Marx, cujo distintivo “é por em primeiro plano essa atividade prática, vital, que, como temos salientado, suporta o imperativo moral de transformar o mundo que, para o filósofo, converte-se no próprio imperativo de pôr seu filosofar em concordância com essa finalidade”.
Queremos aqui ressaltar, em nossa mundivisão e em nosso modo de ver a filosofia, a importância de estudarmos, relermos, reinterpretarmos toda a produção filosófica realizada até então, como também a de produzirmos outras filosofias, que nasçam desde uma determinada realidade e que provoquem posturas filosóficas, filosofares que contribuam para as necessárias transformações do mundo em que vivemos, a começar, e paralelamente, pelas próprias transformações que, porventura, cada pessoa busca para sua vida, para o seu cotidiano.
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*Edição da Civilização Brasileira, 2002, p. 541-549.
**À época, a América Latina vivia sob o jugo do imperialismo e da exploração das grandes potências mundiais, especialmente os EUA. Passado o tempo e destarte todas as lutas pela independência e autonomia enquanto Pátria Grande e bloco de importância geo-político-econômico estratégico mundialmente, podemos dizer que a exploração e a dominação continuam, interna e externamente. Por isso, em nosso entendimento, faz-se necessário um filosofar que pense e atue na direção de um pensamento e de uma prática autônomos e que contribuam para firmarmos modos próprios de ser e estar no mundo enquanto povo latino-americano e caribenho.
Paulo Roberto Grandisolli

Poetofilosofia*

Da antiguidade até o presente, a história das filosofias e das literaturas em geral estão cheias de pensadores-poetas. Desde os pré-socráticos gregos, que eram filósofos-poetas, até Frederico Nietzsche e Gaston Bachelard, em cujas obras se mesclam voos filosóficos plenos de uma literatura acenando claramente para a poesia. Foram autores de uma prosa poética extraordinária.
A mundivisão filosófica não admite fronteiras rígidas e separadas nas áreas do conhecimento. Razão por que está sempre apontando para um “não-se-sabe-o-quê”, que poderá ser atingido poeticamente.
Como saber dialogante, em todos os povos que a cultivam, desde os primórdios de sua tomada de consciência como razão, a Filosofia se encontra tangencialmente com a Poese. Está em constante diálogo com a literatura. Enquanto atividades culturais podemos afirmar que, embora distintas, são inseparáveis. Consequentemente, Filosofia e poesia, que não se confundem nem são complementares, sempre se reencontram na história do pensamento. Diversas, mas dialogantes; enquanto participam da literatura, surgem nas literaturas das diversas culturas. A Poesia, por ter sido cronologicamente a primeira forma de pensamento, nos mitos e cosmogonias; a Filosofia, mais tardiamente, como logos, discurso conceitual e explicativo, surge como interpretação e crítica das mitologias, mas sem tomar o lugar da Poese. E é precisamente no campo da literatura dos povos cultivadores da escrita que elas dialogam, através dos seus pensadores, sobretudo aqueles que se dedicam à ficção literária, no romance, através da prosa. Inclusive, como dado literário inegável, torna-se difícil separar, na maioria dos autores, prosa e poesia. São escritores que escrevem fazendo uso de uma prosa poética.
Quanto à tematização da relação entre Filosofia, Literatura e Poesia podemos rastrear e vislumbrar isto desde o pensamento dos gregos, em Platão e Aristóteles, passando pelos renascentistas, pós-renascentistas, como Giambattista Vico, até os escritores modernos de meados do século XX, a exemplo de Bachelard, Michel Foucault, Blanchot, Heidegger, Sartre, Deleuze; sem esquecer György Lukács, grande especialista em Literatura e Filosofia da Arte. De modo que, mesmo não tendo escrito poemas, todos tiveram a literatura como temática de suas reflexões.
Enfim, na grande maioria dos melhores escritores, principalmente romancistas, torna-se impossível separar prosa e poesia. Alguns que não se dizem poetas, entretanto, escrevem como poetas. Fazem uso de uma prosa poética, pela forma e o recurso das metáforas e imagens com que se instrumentalizam para expressar a sua relação com o mundo da vida. Tais escritores, evidentemente, pensam o mundo mediante a sua produção literária.
Para mim os melhores escritores são especialmente aqueles que possuem esta característica de escritores-poetas; mesmo que não recorram às formas específicas do gênero poético tradicionalmente conhecido, como sonetos, paralelismos, estrofes e rimas. Aqueles que mais atingem e expressam a humanidade. Certamente porque compreendem e intuem que a vida é muito complexa e enigmática para ser comunicada e pensada apenas mediante conceitos. Mais ainda, por outra razão que considero princípio epistemológico: por perceberem que o sujeito humano, em sua condição existencial de sujeito cognoscente, não o faz de modo compartimentado. Pois é um sujeito que indaga, pergunta, busca, duvida, investiga, percebe, não somente através do raciocínio técnico, lógico-dedutivo, mas movido pelo desejo, como corpo que se apercebe em contínua tomada de consciência; como totalidade de sentimentos e sensações. Como sujeito que sofre, alegra-se, projeta, se entristece, imagina, cria e toma consciência de sua finitude enquanto parte de um cosmos virtualmente infinito que não se deixa apreender em sua totalidade inacabada. Sujeito que faz a experiência da complexidade da vida enquanto exprimível/inexprimível, enquanto dialética de sentido/não sentido; mediante a atitude poético-filosófica enquanto fronteiras intercomunicantes que detectam a própria experiência da incomunicabilidade: a perplexidade face ao desconhecido e imprevisível que é a vida.
Pensadores que dialogam com as diversas fronteiras do conhecimento filosófico-literário são produtores de uma poetofilosofia; uma poesia pensante. Sem a pretensão de eliminar a necessária distinção entre o filosófico e o poético, Filosofia e Poesia.Saberes diferentes, sim, mas dialogantes, enquanto formas de literatura.
É no campo da literatura que elas dialogam, porque toda forma de saber sempre supõe fronteiras, ao se deparar com seus limites. Ao mesmo tempo, é necessário que tais fronteiras não se fechem. Isto não é uma mera questão de metodologia, mas uma necessidade que brota do desejo humano de indagação e busca de respostas que possibilitem melhor fruição dos momentos da vida. A Filosofia enquanto esforço explicativo, conceitual, como sapiência “onisciente”, argumentativo; a Poesia como “omnissentiencia”, (uma forma de sentir tudo); admiração contemplativa, indeterminabilidade. O poema é canto, por ser ritmo e rima; convoca-nos ao silêncio; mas também nos move à ação-reflexão. Enfim, ambas são saberes. Poesia não é puro sentimento, imaginação ou delírio; pois encerra uma forma de percepção, ao pretender pronunciar o mundo numa outra perspectiva de saber – a perspectiva estética.Por isso se torna pensante. A poesia é memória; um tipo de memória que pode recuperar até mesmo aquilo que a nossa mente julgava perdido. Isto encontra-se na raiz da história do pensamento. E a ponte entre ambos se efetua pelo diálogo. Um diálogo entre pensador e poeta, filósofo e poeta, dirigido pelo pensamento, originando um pensar poético.Num mesmo pensador ou entre vários, naturalmente.
*Marcelo B. Oliveira – in Poetofilosofia/2015

Filosofia Clínica, Auto-ajuda* e cuidado de si

Tem-me incomodado as constantes referências que ouço fazerem ou que eu mesmo faço à expressão auto-ajuda por aí afora. Por isso fui ao dicionário** buscar referência aos termos “autoajuda” (nos dicionários pós-acordo ortográfico já é grafado assim) e “ajuda”.
Autoajuda
substantivo feminino
1 prática que consiste em fazer uso dos próprios recursos mentais e morais para alcançar objetivos de ordem prática ou resolver dificuldades de âmbito psicológico
2 conjunto de informações, orientações, conselhos que visam possibilitar essa prática
Exs.: curso de a.
livro de a.
Ajuda
substantivo feminino
ação de auxiliar, de socorrer; assistência
Desse modo, se ajuda é essa tal de “ação de auxiliar, de socorrer; assistência” e autoajuda é “fazer uso dos próprios recursos mentais e morais para alcançar objetivos ou resolver dificuldades”, por que, então, as psicoterapias e a Filosofia Clínica não poderiam fazer uso desse termo, sendo que têm por objetivo ajudar as pessoas que procuram a terapia a auto-ajudarem-se elas mesmas, no enfrentamento das questões que trazem para a clínica?
Está certo que, talvez principalmente após a explosão e a exploração de inúmeras publicações, bem como a proliferação de cursos e “terapias” que vendem auto-ajuda, o termo passou a ser visto, por muitos, pejorativamente. E até concordo que determinadas ofertas do que se apresenta como tal devam ser questionadas, mesmo porque o mercado capitalista usa de toda e qualquer artimanha para lucrar, mesmo diante da dor e do sofrimento, da angústia e da tristeza das pessoas, da sociedade como um todo. E daí aquela derivação que muitos também usamos de “autor-ajuda”, dado o lucro que o mercado editorial e certos autores têm com esse tipo de produto.
Bem, mas meu incômodo, como disse no início, não é de nos apropriarmos do termo auto-ajuda, mas sim de o ressignificarmos, dando-lhe a direção apontada pelo dicionário. Através de nosso trabalho como terapeutas, como Filósofos Clínicos, deveríamos enfatizar que a terapia objetiva levar as pessoas a auto-ajudarem-se, a serem elas mesmas condutoras de suas vidas naquilo que o pensador francês, Michel Foulcault***, em sua obra Hermenêutica do Sujeito, ressaltou como o cuidado de si.
Nessa obra, o autor busca resgatar das tradições e das escolas filosóficas da Grécia antiga, como a epicurista, a estoica, a cínica****, por exemplo, o cuidado de si, que, para ele, ficou subjugado ao conhecimento de si. O conhece-te a si mesmo não pode sobrepor-se ao cuide-se de si mesmo. O cuidado de si é caminho para o auto-conhecimento e este auto-conhecimento só faz sentido se levar ao cuidado de si.
Faço uso aqui das palavras do Psicólogo Clínico Rafael Trindade: “a intenção de quem cuida de si é fazer emergir uma outra natureza, própria, não dada, e, portanto, originariamente ainda não conhecida”; “o cuidado de si conduz a um novo eu, uma nova relação consigo mesmo. Passamos da verticalidade para a horizontalidade”; “Cuida de ti mesmo, para ser capaz de enunciar de ti mesmo a verdade”.*****
Ao menos para mim, entendo que ninguém consegue ajudar-se sozinho: é na relação com os outros e através da intermediação dos outros que vamos nos auto-ajudando, nos auto-cuidando e nos auto-conhecendo. E, sempre em meu entendimento, a terapia filosófica tem essa grande responsabilidade como intermediadora, aquela que vai oferecer meios, sempre de acordo com a história de vida e o modo de pensar e ser da pessoa, para que ela mesma se auto-ajude, se auto-cuide, se auto-conheça e construa seus caminhos, busque e teça as suas verdades e as coloque diante de tantas outras verdades, com autonomia e abertura para a necessária relação e convivência consigo mesmo e com a coletividade.
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*Embora o novo acordo ortográfico estabeleça que a grafia correta, de então em diante, seja “autoajuda”, quis aplicar o uso anterior ao tal acordo, “auto-ajuda”, nesse caso, tão somente por uma razão estética de minha parte, por achar que fica mais bonito esse modo de grafar o termo no português brasileiro usado até então. Nem sempre precisamos nos submeter aos estrangeirismos, seja de Portugal, seja de onde for…
** Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa 2009.3
***Filósofo francês (1926-1984)
****Epicurismo: doutrina do filósofo grego Epicuro (341-270 a.C.); Estoicismo: doutrina fundada por Zenão de Cício (Grécia – 335-264 a.C.); Cinismo, doutrina fundada por Antístenes, filósofo grego (Grécia – 445-365 a.C.): embora cada uma com doutrina própria, todas praticavam a filosofia como um “estilo de vida”, como uma ética, um modo de pensar e ser diante do mundo. OBS.: Escola Cínica – não confundir com o termo “cínico” e a prática “cínica” corrupta e fascista que sempre marcaram e marcam determinadas políticas, determinados governos e determinados comportamentos individuais/sociais de outrora e de nossos dias.
*****Artigo “Foulcault – Conhecimento e cuidado de si”, in https://razaoinadequada.com/2016/11/27/foucault-conhecimento-e-cuidado-de-si/
Paulo R.Grandisolli

Filosofia Clínica e Literatura

Uma das fontes de conhecimento daquilo que se convencionou chamar “condição humana” é a literatura. E a Filosofia, sendo também uma literatura, está, desde seu início, buscando “dizer” a condição humana de seu jeito próprio. Mas não existe “a” Filosofia. Ela, a Filosofia, é vária. Enquanto conceito, podemos dizer que “a” Filosofia é aquela que, buscando uma leitura e tendo um olhar totalizante do mundo, vai fundo, às raízes das questões que se lhe colocam e entende tudo como um processo constante de desconstrução/construção de saberes, de modos de ser e estar no mundo”, utilizando-se, para isso, de método próprio. Mas assim como são várias as filosofias, várias são as literaturas, as leituras, os olhares, os modos de ser e estar no mundo.
E a Filosofia Clínica-FC não foge desses caminhos, pois também ela tem se tornado uma literatura, uma leitura, um olhar, um modo de ser e estar no mundo, na medida em que se constrói, não se dá por acabada. Se assim fosse, não seria Filosofia, não seria Clínica. Tudo é um processo.
Mas, justamente por ser Filosofia, justamente por ser Clínica, é que a FC sabe-se parte de um conjunto onde, nesse caso, a Literatura, ou melhor, as Literaturas, têm muito a dizer da “condição humana” e, por isso, a aproximação é vital, pois pode nos levar a repensar, a entender e levar a entender que o “devir”* acaba por tornar-se a própria “condição humana”, i. é, o humano, individual e coletivamente falando, é uma constante construção, processo. “Navegar é preciso, viver não é preciso”, como já diziam os antigos navegadores nos idos tempos das “invasões e conquistas” de “novos mundos”, frase que celebrizou-se na voz e na literatura de Fernando Pessoa**.
E já que falamos de FC e Literatura, aqui fazemos uso de um texto, parte da literatura de Gilles Deleuze***, de sua obra Crítica e Clínica****, “A literatura e a vida”, onde ele discorre sobre a literatura enquanto devir, enquanto permanente vir-a-ser, porque o escritor e sua literatura, por mais capazes que sejam, nunca terão dito tudo, nunca serão o que pretendem, sempre estarão e serão inacabados, assim como a vida.
No referido texto, fazendo uma abordagem das doenças, das neuroses do existir, Deleuze aponta o escritor e sua literatura como aquele que “interrompe o processo da doença”: “Por isso o escritor, enquanto tal, não é doente, mas antes médico, médico de si próprio. O mundo é o conjunto dos sintomas cuja doença se confunde com o homem. A literatura aparece, então, como um empreendimento de saúde: não que o escritor tenha, forçosamente, uma saúde de ferro (…). Do que viu e ouviu o escritor regressa com os olhos vermelhos, com os tímpanos perfurados. Qual saúde bastaria para libertar a vida em toda parte onde esteja aprisionada pelo homem e no homem, pelos organismos e gêneros, e no interior dele?”
Embora em FC não façamos uso de termos como doença, cura – o que não significa que não devamos abordá-los e desconstruí-los no contexto maior das historicidades diante das quais nos colocamos como Filósofos Clínicos, pensamos que essa concepção do escritor e da literatura apresentada por Deleuze se aproxima muito da FC. Enquanto concepção e prática filosófica, essa abordagem terapêutica existencial, constrói-se como aquela que ouve a narrativa, “ouve o texto” do partilhante e, fazendo uso da literatura filosófica, bem como de outras literaturas, mas, principalmente com sensibilidade, com cuidado, com conhecimento, com método próprio, irá contribuir para que o indivíduo, o grupo, a organização, “reescrevam seus próprios textos”, i. é, reelaborem seus modos de sentir, de pensar, de posicionar-se, de ser e de estar no mundo.
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*Devir: verbo intransitivo :1vir a ser; tornar-se, transformar-se, devenir; substantivo masculino Rubrica: filosofia. 2 fluxo permanente, movimento ininterrupto, atuante como uma lei geral do universo, que dissolve, cria e transforma todas as realidades existentes; devenir, vir a ser. – Dicionário eletônico Houais 2009.3
**Escritor e poeta português, 1888-1935.
***Filósofo francês, 1925-1955
****Editora 34, 2011, p. 11-17
Paulo Roberto Grandisolli
[FClínica/Inst Packter; Filosofia/UCMG; GSS-FSP/USP] filósofo clínico, professor, administrador serv saúde, consultor

A condição do filósofo: uma paráfrase sobre Nicolaus Berdiaeff

Marcelo B. Oliveira **

I – Considerações Históricas

Em todas as épocas e civilizações em que se acentuou o cultivo específico do conhecimento, a condição do pensador apresentou-se um tanto trágica. Eis a observação do filósofo Berdiaeff, ao analisar o confronto entre a filosofia, a religião e as ciências, ao longo da história1.

O filósofo, de modo geral, nunca foi bem aceito socialmente, ao menos que se tenha conformado ao sistema ideológico dominante, renunciando à sua condição de pensador. Sua condição essencial tem sido marcada por uma atmosfera bastante densa de ataques, ora vindos do poder político do Estado, ora das elites religiosas, uma vez que esses segmentos, invariavelmente, são os promotores das instâncias de controle social.

Nos primeiros tempos de estruturação das filosofias ocidentais, entre os gregos, por exemplo, a inimiga da filosofia fora principalmente a religião. Não esquecendo, evidentemente, o fato de que esta se encontrava aliada aos poderes políticos sustentadores das normas de comportamentos aceitas como ideais, naquele contexto.

Esse confronto se prolongou até nossos dias, lembrando que tem sido acirrado, num outro aspecto, pela corrida das ciências empíricas, ao reivindicarem seu status próprio, “desligando-se” daquela que lhes dera origem – a própria Filosofia.

Com bastante lógica este último evento se fez necessário. Disto nós somos conscientes, hoje; mesmo vendo como parecem interesseiros o distanciamento e a separação entre a Filosofia e as ciências particulares, em última instância.

Sabemos que o conhecimento filosófico foi, primordialmente, o saber que englobava em sua competência todas as áreas do conhecimento. Porém, a progressiva consciência da identidade de seus métodos e a delimitação desses campos cognitivos os tornaram independentes, possibilitando o surgimento das diversas ciências, que exigiram, por sua vez, sua relativa autonomia. A Filosofia, desde então, pressionada pelos estreitos e vigiados corredores das instituições religiosas, desde o período do teocentrismo medieval e inícios da modernidade, foi apelidada como a “serva da teologia”; embora, em parte, haja acontecido o contrário; pois a teologia é que se submeteu às categorias filosóficas, para se legitimar. De saber totalizador que havia sido, no edifício da sabedoria antiga, passou à posição de especulação de segundo plano. Oprimida, aparentemente inútil e sob acusação de atividade diletante, face aos avanços das ciências empíricas, o certo é que a Filosofia sempre esteve presente na própria lógica dos demais universos do saber, principalmente na pessoa do filósofo, que questiona os próprios valores e possibilidades da ciência e da cultura em geral.

No auge da cultura aristocrática da Grécia, a conduta do filósofo era vigiada, ameaçada, temível, por ser alguém capaz de expressar racionalmente a sua desconfiança relativamente às instituições político-religiosas e a colocar em xeque tudo que se apresentava com ar de certeza inabalável. Não é sem motivo que vemos a casa de Pitágoras incendiada, Sócrates condenado a beber cicuta; Aristóteles, Ockam, Leibniz, Hume, Locke e Marx, em apuros terríveis, por terem inquietado as oligarquias de seu tempo. Assim como contemporâneos nossos, ainda hoje exilados e ameaçados pelos anátemas da autossuficiência do Estado e das Igrejas, desde a “Santa Sé” ao “Santa Fé”2. Porque enxergaram outras nuances da verdade e não se limitaram à estreiteza dos horizontes das convenções políticas vigentes. Melhor dizendo, porque questionaram o poder. Enquanto isto, percebemos, por outro lado, pensadores muito bem instalados, como Comte, Hegel, apoiados pelas hierarquias do Estado, sem tanta perseguição, Por que? A resposta soa fácil. Eles não incomodaram muito as elites.

O filósofo sempre teve um caminho estreito e espinhoso a comprimir a largueza de sue passos. De um lado, comprimido pela ciência; de outro, pela religião e pelo Estado. Como constatou Berdiaeff, “a Filosofia é a parte menos defendida da cultura… Não goza, em nenhum grau, do que se chama o prestígio da popularidade”3. Até mesmo alguns pensadores a usaram como instrumento para a destruição do próprio filosofar, como foi o caso de August Comte, tendo contraditoriamente desembocado noutra filosofia e, o que foi muito pior, numa espécie de religião da ciência.

A maneira como as sociedades tratam os pensadores nos dá a sensação de que não temos nenhuma incumbência social. Sobram ao filósofo apenas os estreitos e vigiados corredores de algumas faculdades. E “a própria universidade não lhe dá asilo senão na condição de que divulgue o menos possível a sua própria filosofia, e de que se encerre geralmente na história da filosofia e nas doutrinas dos outros filósofos”4. Tal foi a crítica empreendida, há poucas décadas, aos filósofos do século XX, por Gabriel Marcel e Berdiaeff, e que ainda não perdeu totalmente a sua atualidade.

Este estreitamento de espaço geográfico-político, mais sombra que reflexo da ausência de espaço de liberdade, dificulta o cultivo da filosofia como atividade especificamente reconhecida.

A história nos mostra que o ataque mais violento suportado pela Filosofia adveio-lhe da religião, desde a antiguidade. O assassinato de Sócrates constituiu o símbolo de muitos similares e um exemplo terrível da crueldade que integra o poder das elites de todos os tempos. Não deve ser visto apenas como um fato isolado no mundo grego. Em “A Apologia de Sócrates”, encontramos a acusação de que o pensador ensinava a rejeição dos deuses. Na realidade, ele apontava as defasagens e o ocaso da cultura aristocrática em decadência; pois sabemos que, na Grécia antiga, política e religião estavam a serviço do poder, assim como no mundo romano dos primeiros séculos da era cristã.

Em fins da era medieval europeia, no contexto da cristandade ocidental, surgiu a incandescência das fogueiras da Inquisição (cujos resquícios duram até hoje) queimando filósofos e cientistas, só porque não pensavam como os prepotentes da hierarquia político-religiosa da época. Neste contexto ideológico, identificava-se uma estrutura histórica com a Verdade, por falta de consciência histórica e porque o ânimo dos primeiros cristãos havia arrefecido, desde as sutis manobras de Constantino e Teodósio, que fizeram o clero romano curvar-se diante de ofertas econômicas, quais adoradores de Baal. E o Cristianismo, de religião que trouxe a lume a consciência da dignidade dos seres humanos, fora transformado em “religião lícita”. Em lugar do aforismo “a fé busca a razão” passou a valer “a fé mata a razão”. Desde então, a humanidade passou a praticar uma verdadeira coivara de homens e mulheres inteligentes, como Hipácia de Alexandria, Giordano Bruno, Savonarola, Joana D’Arc, ardendo nas grelhas do “Santo Ofício” e sob tortura militar, pelo preço de suas descobertas e da liberdade de pensamento, frente aos dogmatismos morais erigidos nos palácios. À parte o contexto moderno que assassinou Rosa Luxemburgo, Trotski, Politzer e outros. Como não existe mais a prática da fogueira, os atuais inquisidores usam a tortura psicológica da punição com o desemprego e o silêncio forçado5.

II – Nossa Epocalidade

Nestes inícios do século XXI, não sejamos ingênuos em demasia para pensar ter havido evolução linear na história do pensamento humano, concebida vulgarmente em termos de “história universal”, como se fosse algo homogêneo. A violência atribuída ao mundo antigo perdura nas sociedades contemporâneas. Se não de modo idêntico, mas disfarçada ou em outras modalidades, dependendo da classe dominante que exerce o controle social máximo como classe dirigente; seja o clero, no caso das religiões, sejam os militares, ou ambos, em caso de teocracias ou concordância de interesses de ambas as facções. Por menos que pareça verdade, mas ainda vigora o imperialismo religioso e militar. Inclusive, muito semelhante ao de Roma antiga. Basta que observemos as nossas ruas invadidas pela cavalaria, em plena metrópole; o que é exatamente a herança da violência policial daquela babilônia. Vivemos em plena época de grito em defesa dos direitos humanos, que se acirrou desde 1970. Entretanto, assistimos a sanções e censuras ao pensamento científico-filosófico, da parte dos escombros das ditaduras militares, fazendo ressurgir práticas fascistas. O inacreditável é fato constatável: a humanidade ainda não se libertou do “index librorum prohibitorum”, apesar do acesso às tecnologias da internet! A censura midiática é usada pra dificultar o pensamento reflexivo. Atualmente, com ênfase na educação, pela censura ao ensino de filosofia e sociologia, como ocorre em todos os regimes políticos autoritários. As elites se acham no poder majestático de dizer o que o povo deve ou não deve saber. A produção cultural é tratada como caso de polícia. Pensar e agir além dos sistemas funcionalistas e dos padrões da ideologia capitalista ocidental é arriscar-se. Começar novas formas de relacionamento afetivo, além da monogamia jurídica ocidental, é considerado desvio, desequilíbrio ou patologia; apesar de todos os esforços e conquistas recentes no campo das lutas pela diversidade cultural. Misoginia e homofobia aparecem como integrantes ideológicos dos regimes e golpes juridicofascistas atuais, internacionalmente. No Brasil, em pleno 2017, vemos o MEC permitindo que parlamentares fundamentalistas autorizem arrancar dos livros didáticos as páginas referentes à discussão sobre questões de gênero e sexualidade, sob o pretexto ilegal e absurdo de uma “escola sem partido”, nomeado como neutralidade; uma versão vulgar do pior positivismo fascista, proposto por setores religiosos que rejeitam a laicidade do Estado.

Nesse contexto encontra-se comprimida a Filosofia. Banida, cassada e caçada (em ambos os sentidos), sob a acusação de subverter as pessoas em relação ao dogmatismo político e religioso. E o pretexto para tal é, de um lado, o refúgio religioso, a acusação de materialismo ou ateísmo; do outro, a “ameaça do comunismo”, velhos mecanismos de defesa das elites reacionárias para justificarem o seus status quo.

Em quase todos os países da América Latina, onde a miséria cresce, como resultado da secular exploração colonial e capitalista, os setores fascistas das Igrejas e do Estado, portanto, ainda apelam para o anticomunismo; principalmente as igrejas evangélicas originárias dos Estados Unidos, como método antigo para impedir a educação democrática das massas populares e sua organização. Impõem o medo e a proibição do livre pensar que desmitificaria a idolatria do capitalismo aqui instalado. Como a Filosofia pode questionar as bases do poderio dessas elites acostumadas no comando ideológico das populações, a solução é condenar, apelar para ao anátema e vedar os processos de libertação e independência dos grupos mais conscientes da insuficiência desses mecanismos fundamentalistas.

Após tantas voltas e revoltas na história da filosofia, ainda se teme a crítica, o questionamento e a reflexão indagadora. Os grupos que pensam deter o controle das sociedades, o controle do curso da história, comportam-se, na maneira sábia da expressão filosófica popular, como quem quer “tapar o sol com uma peneira”. Isto porque, mais cedo ou mais tarde, alguma ruptura ideológico-política acontecerá. A linguagem da sabedoria popular expressa esta possibilidade dizendo: “um dia a casa cai”, “um dia macaco é gente”.

Fato curioso é que os teólogos sempre gozaram de certa segurança institucional. Exceto, evidentemente, quando questionaram o dogmatismo institucional de suas religiões. O filósofo, não. Jamais recebeu qualquer apoio, porque a filosofia nunca se institucionalizou de modo permanente. Encontra-se solto, entre os olhares da ciência, da religião e, atualmente, enfrentando o autoritarismo do Estado neoliberal militar. Caso não seja um pensador a serviço da ideologia das classes dominantes, do tipo que fica obediente, à sombra da árvore do poder, falando para ser admirado e encantando plateias. Em se tratando de um pensador crítico, que tem coragem suficiente para se distanciar das “proteções” oferecidas pelas elites, como bolsas, viagens, ou os chamados cargos de confiança, pelas chefias e espionagens.

Desse modo, o filósofo crítico é perseguido e marginalizado pelas elites no poder, quando busca cumprir a tarefa de construtor da história, ao catalisar as aspirações de sua contemporaneidade. Sua atividade é colocada “entre parêntesis”, em suspense, ou suspeita. Nem, ao menos, lhe conferem uma competência profissional, como constatou o pensador Berdiaeff: “filósofos e filosofia têm contra si os homens de religião, os teólogos, membros do clero e simples fiéis , os sábios e todos os especialista, os homens políticos e os organizadores, os homens de Estado, conservadores e revolucionários, os engenheiros e os técnicos, os artistas, enfim, a turba. Os filósofos devem ser, ao que parece, os que não têm nenhuma importância na vida política e econômica. No entanto, os homens que detêm ou brigam com o poder, os que desempenham ou querem desempenhar um papel no Estado e na economia social, parecem querer-lhe mal, não se sabe de que; não podem perdoar à filosofia parecer-lhes inútil (…). Ignora-se o aparelho técnico da filosofia, mas não se hesita empregar o termo filosofia como uma expressão de troça ou de censura. No uso corrente, a palavra metafísica é quase uma injúria (…). Que a insegurança seja a condição vulgar da filosofia é o que a experiência obriga a constatar… Em todo filósofo há sempre qualquer coisa de Spinoza e do seu destino. Por essa insegurança social, a personalidade de seu pensamento, a situação do filósofo aproxima-o da vocação profética. O profeta não está mais protegido do que ele; e está tanto mais sujeito à perseguição quando se preocupa principalmente com os destinos da sociedade e do povo. É por isso que, de todos os tipos de filosofia, é a do tipo profético a que está mais desarmada, a menos tolerada, a mais isolada”6. Apesar da sua tragicidade, e por causa dela, esse texto de Berdiaeff merece ter reconhecida a sua objetividade histórica e a sua beleza poética.

Em contraste, é inegável a função da filosofia como força propulsora de todos os movimentos culturais, uma vez que se constitui como o próprio impulso do agir humano na indissociável unidade vital entre teoria e prática. Desde o mais simples método de conhecimento até a mais complexa pesquisa científica, a comunicação se torna possível graças à reflexão filosófica subjacente ao trabalho de sistematização dos saberes. Se assim não fosse, por que seria tão vigiada e excluída?

Todo sistema político, todo posicionamento ante um desafio histórico, fundamenta-se numa mundivisão, numa filosofia, numa concepção de mundo e de homem. Toda organização humana, como projeto social e histórico, supõe uma manifestação racional e uma fundamentação por meio dos princípios da racionalidade. Subjacente a qualquer sistema social encontra-se uma ideologia, um conjunto de princípios e valores racionalizados e explicitadores de sua razão no existir humano. E a pessoa do filósofo faz-se necessária a fim de exercer uma ação crítico-judicativa, para mostrar a incoerência ou coerência desse projeto em relação ao próprio ser humano no seu irrenunciável face-a-face com outros, no mundo. Com o filósofo, nesta atitude de julgamento quase ninguém ousa solidarizar-se. Em geral, parece ficar sozinho, pouco reconhecido. Sua incumbência é a de pensar a existência, no mundo, com a única certeza de que é possível conhecer, julgar, detectar contradições e apontar horizontes de ultrapassagem em todos os domínios do saber aplicado, posto que o filosofar se põe a si mesmo como objeto de conhecimento, e nenhuma ciência o faz tão radicalmente como a própria Filosofia.

O filósofo que não se deixa confundir e não se torna cúmplice com a mesmidade sistêmica da ideologia dos segmentos sociais dominantes não é bem aceito, justamente porque sua atitude criticizadora não admite fronteiras nem entraves. Pela sua práxis, aponta as ambiguidades dos sistemas pretensamente acabados; localiza as contradições, desenterra os conflitos abafados, desmascara, desmistifica, quebra a aparente rigidez e vislumbra possíveis mudanças sociais. Conscientiza-se ajudando os outros a se conscientizarem. Nisto está a sua função histórico-pedagógica. Não existe autoridade externa para o filósofo crítico. Na filosofia a autoridade se constitui pela coerência do próprio pensar condizente com as exigências do presente histórico. Por isso, o pensador que não se torna obediente ao sistema opressor é sempre perseguido por aqueles que se beneficiam da segurança estrutural e material das oligarquias. Tal filósofo é o terror das doutrinas sectárias, dos sistemas e dos dogmatismos de quaisquer origens, desde o religioso ao especificamente político ou cientificista. O único limite para o seu campo de ação é o não poder nem dever pensar a serviço da opressão, se quiser ser fiel à humanidade. É não pretender possuir a verdade total. Não se deixar enquadrar num sistema. Não se curvar a censuras. Não silenciar. Não pretender a ingenuidade de querer afirmar-se ideologicamente neutro ou apolítico. Seu lema deverá ser a construção da verdade, pela construção da história. Utópico, procurará tornar “tópico” aquilo que pensa, com o testemunho da sua convivência, pela dialetização com outras consciências, na luta pela liberdade política, a começar pela própria liberdade individual. Sabendo que a filosofia é o saber do saber e do não saber; condição reveladora sem a qual o existir não seria humanamente possível.

III – Considerações finais

Os seres humanos não vivemos sem filosofia. O pronunciar-se com outros é incondicional ao nosso existir, no mundo. E a crítica, o filosofar, a atitude interrogativa, constituem os únicos caminhos a serem desbravados pela humanidade em busca de orientação para viver essa grandeza: a vida; náusea para uns, mistério para outros.

Cônscio desta possibilidade e dos limites que lhe são impostos, o pensador crítico sabe que deve continuar exigindo espaço para sua tarefa histórica específica. Ainda estamos a tempo de tentar libertar a Filosofia dos estreitos corredores e salas de aula em que está confinada, nas universidades, para apontá-la como atividade virtualmente possível a todas as pessoas como seres pensantes. Se já é fato que fizemos uma filosofia da libertação, não esqueçamos de lutar pela libertação da Filosofia, cuja ideia continua presa às escolas ou banida pela censura disfarçada.

A atividade filosófica deve ser explicitada e compreendida como tarefa de todos, embora em níveis diversos; não apenas de universitários. Como pensadores brasileiros temos que operacionalizar concretamente o modo e o espaço político para isto. Não esperemos o reconhecimento “oficial” desta atitude humana – o pensar crítico – pois nunca virá, uma vez que nossas instituições escolares, sob o poder majestático das elites, dos vulgares “políticos”, continuam como instrumentos da socialização repressiva a serviço do status das classes privilegiadas e da defesa da ordem da propriedade privada.

Afirmamos que o filosofar não deve permanecer apenas como atividade acadêmica, pois é preciso que leve em consideração o cotidiano popular. Assim como é necessário que a linguagem filosófico-científica dialogue com o linguajar comum, a fim de que, dialógica e dialeticamente, as camadas populares também se apropriem do conhecimento rigoroso. E ambos, filosofando, questionem suas práticas, conjuntamente, num esforço de superação do vanguardismo e do intelectualismo de gabinete.

O pensamento filosófico não pode se desligar das lutas históricas das populações. O filósofo ou filósofa deverá fazer o esforço para se comunicar cada dia mais intensamente com aqueles que estão impedidos de dizer sua palavra, com os movimentos culturais populares. Porque as classes populares também são potencialmente capazes de captar e expressar o espírito de sua época.

Temos de nos organizar culturalmente, saindo dos gabinetes e “chocadeiras” dos departamentos, para combater a censura neoliberal que atinge as escolas. Precisamos da força organizativa do pensamento filosófico para quebrar o autoritarismo e o fanatismo ideológico que consideram o exercício da filosofia como algo perigoso. Visto que, no momento, grande parte das nossas instituições ainda são demasiado débeis para suportar isto. Temos de acordá-las como o canto dos galos nas silenciosas madrugadas. Inclusive porque pensar filosoficamente também se constitui como um direito; já que diz respeito à educação e à liberdade de consciência como expressão fundamental da dignidade humana.

Se esta proposta chega tardia, não é ao cair da tarde que levanta voo o pássaro de Minerva, na poética expressão de Hegel? ***

* N. Berdiaeff: Filósofo russo, 18/03/1874, Kiev, Ucrânia – 24/03/1948, Clamart, França

** Autor: Mestre em Filosofia pela UFPE

*** Sobre o texto: Esse texto foi publicado, em primeira versão, no suplemento cultural do Jornal do Comércio de Recife, há quase vinte anos. Como, no Brasil, curiosamente, as circunstâncias não mudaram absolutamente nada em relação à Filosofia, pois vivemos época de crescente fundamentalismo, pouco foi alterado em seu conteúdo essencial.

1 BERDIAEFF, Nicolaus. Cinco meditações sobre a existência. Lisboa, Guimarães Editora, 1961, p. 13.

2 Referimo-nos aqui ao organismo político-militar criado durante o governo Reagan, nos EUA – o Instituto para Religião e a Democracia, chamado vulgarmente “projeto santa fé”, destinado a combater os movimentos de libertação popular dos países dependentes, especialmente os inspirados na Filosofia e Teologia da Libertação. Sobre isto ver: Um processo de ataque contra a Igreja que nasce do Povo. Publicação do CEDI e Revista Tempo e Presença, São Paulo, 1986, p. 6, (folheto).
3 BERDIAEFF, N. Op. cit., p. 13.
4 Idem, ibidem, p. 21.

5Continua atuante a repressão da censura policial às produções artístico-culturais. Durante as ditaduras das décadas de 1960-80, as punições aos pensadores críticos foram sistemáticas; a nível mundial, lembre-se a perseguição desencadeada contra os pensadores da Filosofia e da Teologia da Libertação da América Latina, o fechamento temporário do Centro Latino-Americano de Parapsicologia, em São Paulo; além da exclusão do ensino de Filosofia, repetida atualmente. Publicado esse texto em uma primeira versão, há vinte anos, resolvi reescrevê-lo, pouco acrescentando, face ao fascismo social que desponta com as mesmas práticas das ditaduras militares do século XX.

6 Idem, ibidem, p. 30;

Sonhar os meus sonhos (singularidade)




“Será que um sonho, depois de sonhado, acomodará mudanças no sonhador?”, essa é uma pergunta intrigante que o protagonista do livro “Quando Nietzsche Chorou” elabora.
Neste primeiro momento trato especificamente do sonho que temos quando dormimos, quando desligamos do mundo visível e estamos em um outro lugar, não definido, não territorializado, em um mundo de sensações, no sonhar. Estou usando como referência a Filosofia Clínica, uma prática terapêutica que privilegia a singularidade, segundo este método, a maneira como cada um se expressa, é única, mais ainda, a depender das experiências de vida que estamos tendo, do que olhamos e o que o nosso olhar é atraído durante o estar acordado, nossos sonhos, nossas reações, também serão diferentes.
Longe de responder ou concluir o tema, gostaria sim de perguntar mais, de esquadrinhar uma série de dúvidas destinadas aos sonhadores que estão lendo essas linhas, a quem os sonhos são mais que um gosto doce ou amargo ao despertar, mas um alento na dureza dos dias. Isso não configura uma crítica a quem sonha e não percebe, tudo na vida são tempos, e lidamos de acordo com o que as circunstâncias nos permitem, somos muitos, sendo um só.
Percebo que existem muitos tipos de sonhadores em nós mesmos, singularidades diversas, que lidam de muitas maneiras com o sonhar, podemos estar em um momento de vida dedicado ao mundo onírico, escrevendo nossos sonhos e reaprendendo com eles como se mover no mundo, e em outro momento, talvez no mesmo mês, completamente alheios ao que ocorre quando estamos desligados do mundo visível. Esse tema suscita muitas questões, somos sós mesmos quando sonhamos? Ou visitamos outras realidades com outras características pessoais, com outras reações? Mais ainda, o que somos quando não somos nós mesmos?
Há quem não lembre dos seus sonhos, será? Ou será que essas pessoas estão sendo chamadas pelas demandas da vida concreta de tal maneira, que não é possível pensar para além do cotidiano, do que nos é dado como material?
Há também quem busque a certeza da ciência, dissertando sobre estágios do sono e em que camada ocorre o sonhar, para explicar o porquê do lembrar ou do não lembrar, ou se refugie em fragmentos de lembranças, somente os fragmentos que lhe convém, como quem conta uma história pela metade, omitindo a parte que desagrada, como se o próprio falar já materializasse uma experiência negativa.
Penso que o próprio sonho, para alguns e em determinados momentos, pode ser um submodo, ou seja, uma maneira da pessoa lidar com suas questões íntimas. O submodo, em Filosofia Clínica, é a maneira própria que cada pessoa encontra para se expressar, para dizer quem é. Por exemplo, há quem fique feliz e saia para caminhar por um parque, e há quem, por estar triste tenha a mesma atitude, são submodos, um de expressar sua alegria, e outro de elaborar a tristeza, mesmo sendo a mesma ação. Um submodo que usamos em clínica é o roteirizar, ou ainda, quando o terapeuta idealiza cenários, e transporta o partilhante (quem faz a terapia com o filósofo clinico) para realidades alternativas da sua situação atual de vida. O sonhar pode ser também uma maneira de roteirizar, de experimentar outras vidas, sem a condução do terapeuta, ou ainda, experimentar outras sensações, outras maneiras de pensar.
Ao lembrar e reviver o que foi sonhado, em alguns casos, se encerram questões existenciais, significados são atribuídos, para que a vida tome outros rumos. Mas ainda assim, o que é lembrado e o que é esquecido? Qual o sentimento que cada um traz de um sonho? O que acalenta ou o que atormenta? Como saber o universo de possibilidades em tantos infinitos particulares de quem sonha?
A teoria clássica da psicanálise, que data de 1900, em uma de suas leituras, trata dos sonhos como a maneira de se deparar com o que realmente incomoda, e durante o dia foi descartado no pensar, soterrado entre afazeres cotidianos. O que com certeza acontece, em determinadas singularidades, em determinados tempos, já em outras vai ser de maneira diversa.
Pois se estamos em constante modificação, porquê não podem ser os sonhos, o dispositivo que denuncia o que não estamos vendo, o ponto cego, ou o que não temos a sustentação para perceber acordados? Essa é uma leitura possível, mas existem tantas outras quanto existem pessoas diferentes, a pessoa pode, a partir de um sonho aparentemente sem sentido para quem convive com ela, atribuir um significado, e a partir deste significado, estabelecer mudanças ou permanências na sua vida.
A Filosofia Clínica, ao ter como fundamento o conceito da singularidade, do respeito à escuta singular de cada pessoa, respeita também todas as possibilidades de manifestações, sejam de comportamentos, pensamentos ou sonhos. A cada sonhar é acordada também outra singularidade, que só encontra a maneira de se manifestar no devaneio, e se a pessoa, em seu mundo visível vai se apropriar disto, é um conjunto de circunstâncias que vai dizer, com aspectos tão sutis, que se torna uma tarefa hercúlea enumerar e tentar controlar, pois o sonhar não respeita regras matemáticas, fórmulas passíveis de serem mensuradas.
Em outros momentos, o sonhar seja somente uma vaga lembrança, que não ecoa ao longo do dia, não ressoa os passos de quem acordado, não atribui importância ao seu próprio sonhador, ou não percebe o sonhador que lateja em si.
Hanna Harendt, em “A Vida do Espírito”, disse que “nada do que vemos, ouvimos ou tocamos pode ser expresso em palavras que equiparem ao que é dado aos sentidos”. Esse ser sonhador que se revela a cada sono, é mais abstrato ainda, mais etéreo pois se esvai a cada despertar, deixando um rastro fugidio, que cada um, à sua maneira, persegue acordado.
Ainda temos o sonhar como ação que realizamos acordados, como o que nos encanta, o que nos move, ou no sentido da realização, da busca, ou que permanence como idealização, em alguns casos. A pessoa pode, por exemplo, sonhar em ser poeta, mas se contentar com a ideia, sem necessariamente escrever ou publicar algo, e isto ser suficiente na sua trajetória de vida. Mas também pode chegar o tempo, a circunstância, em que somente a ideia de ser um poeta não é suficiente, em que que vai se fazer necessária a escrita, e o texto que estava acumulado ao longo de uma vida surja de maneira quase espontânea.
O sonhar acordado é talvez tão complexo e cheio de dobras como o sonhar dormindo, Gaston Bachelard diz que toda ciência inicia com um sonho, para depois se desdobrar em conhecimento. É possível que, também na vida particular de alguns, funcione desta maneira, quando os caminhos que realmente importam, sejam os papéis que cada um assume na vida, como mãe/pai, profissional, filho (papéis existenciais), sejam afetivos (emoções), sejam de valores de vida (axiologia), iniciem como uma ideia, um sonho, para depois se concretizarem, ou ainda, irem em direção ao desfecho.
Ao tratar cada pessoa na sua singularidade, não é possível usar regras, métricas, tipologias. Pois o sonhar acordado, que pode ser fundamental para uma pessoa, que tenha os tópicos emoções e significado como centrais, para outra pessoa, com o tópico epistemologia predominante, pode ser totalmente insignificante. Mais ainda, a lógica sonhar, planejar e realizar pode fazer todo sentido para uma pessoa, já para outra ser totalmente diferente, para quem o sonhar pode estar acomodado em um local de idealização, de refúgio, que não tem relação alguma com a vida prática. E que tenha sim, na sua vida, a linha sonhar, planejar e realizar, porém desconectada entre si, onde o sonho é importante, mas o planejamento seja referente à outro aspecto da vida, assim como a realização.
Pensar nas diferentes manifestações de singularidade faz da Filosofia Clínica um estudo complexo por um lado, e extramamente rico por outro, já que na clínica filosófica o terapeuta vai apreender o mundo do outro, o que faz sentido na sua história de vida, qual a relevância do sonhar e concretizar esses sonhos, ou se o que vai mover a pessoa em terapia vão ser outros aspectos.
A história de vida de cada um já é um sonho que se sonha acordado, um conjunto de coisas vividas, vistas, ouvidas, sentidas, ditas e não ditas, e a terapia vai possibilitar outros olhares para essa bagagem de vida. Mais ainda, a lembrança de aspectos esquecidos e outras possibilidades de leituras, de atribuição de significado. Uma experiência de vida que é guardada como uma dor, como uma mágoa, pode ser olhada de outros ângulos, e vista como uma possibilidade de resgate pessoal, a partir da clínica. O que é isso senão acomodar mudanças no sonhador, no que o partilhante (que faz a clínica com o filosofo) traz como história de vida?
Nesta caminhada de duas vias, ao mesmo tempo em que o filósofo vai apreender o mundo do partilhante, sua linguagem, seus gestos, também o partilhante, este que partilha, vai aprender a se escutar, vai apreender novamente sua história, seus sonhos, atribuindo talvez uma outra importância, tanto ao sonho que se sonha dormindo como o que se sonha acordado.
Como diria Drummond:
“Sempre no meu amor a noite rompe.
Sempre dentro de mim meu inimigo.
E sempre no meu sempre a mesma ausência.”
 
por Luz Maria Guimarães – Empresária e Terapeuta
Saiba mais sobre a autora em www.luzmariaguimarães.com
Gestão Pessoal e o Ciclo SPR (Sonhar, Planejar, Realizar)
Editora Pragmatha
Porto Alegre, 2017

A colcha de retalhos na filosofia clínica e a teoria portátil na psicanálise

Cláudio Fernandes
[FClínica/Inst Packter; Filosofia/USP] terapeuta, filósofo clínico, psicanalista

A filosofia clínica traz para o campo semântico da clínica existencial algumas tradições importantes da filosofia ocidental. Traz consigo as suas linguagens.

Ela não é e não faz propriamente filosofia, assim como não faz metafísica, ontologia, fenomenologia ou hermenêutica. Não é uma clínica provinda de protocolos estatísticos, “indistinta”. Institui-se como filosofia clínica, como um modo próprio em que a separação de seus termos – filosofia e clínica – desfaz a possibilidade de sua compreensão. Mas não será por isso que se absterá de lidar com fenômenos, teorias, ou linguagens diferentes. E nessa lida, por diferenças, se dá a perceber, faz afirmações. Certamente, tem modos pressupostos de ver o mundo, mas não se institui como modo de ver o mundo. Ela não é ciência, não é filosofia. Não é e não se pretende uma teoria do conhecimento. O que lhe é próprio surge, vive, se transforma e se destina em campo semântico próprio, campo dessa relação humana peculiar – a clínica.

Lúcio Packter, que inicialmente a concebeu, usa a bonita imagem da colcha de retalhos para descrever a diversidade de influências epistemológicas da filosofia clínica: “…é extremamente eclética, é uma grande colcha de retalhos na qual as escolas estão em conversação…e o critério para dizer qual irá se destacar e qual irá deixar a desejar é simplesmente o que nós encontramos lá na história da pessoa”. A colocação é precisa: há na filosofia clínica uma conversa entre diversas tradições da filosofia. “Conversar” é trazer as falas das pessoas, as suas versões de observação do mundo, para um lugar em comum. E, além disso, tem também o curioso sentido de “conviver, morar, residir”. Diferentes tradições e pensamentos podem conviver em um método, oferecendo ao clínico a opção de iluminar o caminho, com a luz mais adequada a cada passo.

Karl Jaspers, o pai da psicopatologia, ao elaborar as suas teorias sobre as doenças psíquicas e suas possibilidades de tratamento, defendia que no plano “científico” há de haver a “liberdade para todas as possibilidades da investigação empírica,[para a] defesa contra o desvio de querer por a humanidade sob um só denominador. No lugar de discutir um esboço do todo, deve-se preferir aqueles horizontes em que a nossa realidade psíquica se apresenta” . Ainda que não se acompanhe as suas escolhas, esse pedido de princípio à diversidade de “horizontes” é importante, significativo.

No campo clínico, a influência da diversidade de horizontes permite apreender a experiência por diferentes ângulos, estabelecendo o foco ou a ênfase, hora num aspecto, hora noutro. Cada tradição filosófica tem uma maneira de olhar, de captar as experiências, dando oportunidade de organizar modos distintos de escuta. A conexão entre as partes dessas tradições é feita a partir da utilidade prática nos modos de apreensão do relato da pessoa. Não há razão para se buscar uma unidade ou uma coerência entre os elementos do método fora das exigências da clínica, apenas para atender aos deuses do âmbito metafísico ou do mundo universitário. Um método é um “caminho para” – “odos” e “meta”- e sua organização se dá no enfrentamento das exigências do próprio caminhar: se tiver bons instrumentos, companheiros de viagem experientes e boas indicações no percurso, melhor será para o caminhante.

Por que não trazer, como faz a filosofia clínica, aspectos do pensamento de Protágoras, Sócrates, Platão, Aristóteles, Kant, Hume, Schopenhauer, Marx, Dilthey, Husserl, Whitehead, Peirce, Wittgenstein, Heidegger, Foucault, Merleau-Ponty, Ricoeur, Agamben e…? Para fazê-los presentes, através dos modos de leitura do clínico e de suas formas de ver o mundo, o ser humano, esta pessoa em sua contingência?

A psicanálise, uma clínica consequente e experimentada, fez e faz o seu percurso de modo diferente, desde que foi “criada” por Freud. Nos últimos 100 anos, a partir da prática clínica, da reflexão sobre ela e, da incorporação de outras tradições, muitos psicanalistas criaram “escolas”, “linhas”, “tendências”, numa diversidade enorme de modos de compreensão do que é a psicanálise. A Adler, Abraham, Anna Freud, E Jones, Ferenczi, Hartmann, Jung, W. Reich, O Fenichel, Kohut, Karen Horney, Melanie Klein, Bion, Kris, Lowenstein, Lacan, Winicott, para ficar nos principais. E todos esses modos de compreensão não desfiguram aquilo que lhes é essencial: “A psicanálise é o que se passa em análise. Num divã, alguém fala, em princípio, sem qualquer retenção. Numa poltrona, alguém escuta, em princípio sem qualquer idéia preconcebida. Daí é que se precisa partir, é aí que é preciso permanecer”, como tão claramente define o psicanalista frances Jean-Bertrand Pontalis. Há muita diversidade de referências mas o pensamento inaugural continua lá: Freud.

O filósofo clínico Will Goya observa com perspicácia que “o psicanalista é alguém que verdadeiramente sabe ouvir… mas com os ouvidos da psicanálise”. E isto é muito importante de se notar, uma vez que o psicanalista em sua prática clínica não pode prescindir daquilo que o teórico da psicanálise, Renato Mezan, nomeia como uma “teoria portátil”. Cada uma das “escolas” psicanalíticas é resultado da explicitação de diferenças teóricas surgidas em confrontações que em algum momento surgiram a seus protagonistas como inconciliáveis. “Mas ainda assim o analista continua analista, embora fazendo semblante de saberes muito diferentes dos que Freud fazia”, como nos lembra o psicanalista paulista Marcio Peter. Ele continua a exercer seu ofício ainda que tratando com linguagens, teorias e uma infinidade de questões trazidas pelo exercício clínico. O psicanalista ouve com os ouvidos dessas psicanálises que se fazem e se refazem a partir de sua própria prática, mas sempre com algum grau de reverência à “teoria portátil”.

Mesmo adotando uma “atenção flutuante”, o psicanalista faz a sua experiência clínica com a sua “teoria portátil”. Ela é um amálgama de vivências próprias com as teorias e as interpretações de outras experiências, em busca de uma universalidade que não se realiza. A prática as devora, tira-lhe o sentido, exige e não consegue oferecer uma resposta unívoca. “Cada caso exige uma terapia diferente… a psicoterapia é tão diversa como os indivíduos…não é possível estabelecer regras gerais…cada doente exige o emprego de uma linguagem diversa”, como tão bem escreveu Gustav Jung, um psicanalista de primeira hora e de tantos talentos.

Na filosofia clínica o terapeuta não se utiliza de uma “teoria portátil” no exercício da escuta. Ele simplesmente escuta, numa “despreocupação atenta”, como ensina o filósofo clínico Hélio Strassburger, no desafio constante de silenciar seus sabidos e inevitáveis preconceitos.

Estes modos de proceder dos filósofos clínicos e dos psicanalistas, têm uma natureza próximos dos da arte e muito distantes dos da técnica. São mais convivências com sentidos pré-estabelecidos, caminhos partilhados, do que “técnicas de ajuda”. Os saberes das experiências humanas estão entranhadas e são produzidas em plena con-vivência, não sendo algo estranho a elas, vindos de fora – como a técnica – que os organiza, como um a priori. Os princípios são éticos e não de resultados ou de objetivos genéricos, como “curar”, apaziguar angústias, prover bem estar e outros. Sensibilidade e tolerância à incerteza no lugar de “perícia” e “pressuposições”.

A filosofia clínica em sua prática de cuidado se aproxima mais dos movimentos do fazer artístico. Próxima daquilo que o artista plástico paulista Sérgio Fingermann traz em um momento de sua reflexão sobre um quadro familiar: “..será a luz (da tarde) o acontecimento daquela pintura? Será que o acontecimento ali é o silencio que habita aquela cena ensombreada? Aquela luz da tarde precede a noite que chegará com suas sombras e encobrirá tudo. Falta alguma coisa ali, alguma coisa antecede a imagem se fazer como compreensão. Aquela pintura não comunica o conteúdo de um pensamento, ela nos faz prisioneiros de uma “voz” que é portadora de uma tonalidade afetiva. É poesia subentendida. O tema da pintura é passagem, caminho lugar destinado ao transito de um para outro ponto. É um convite para irmos aonde? Aquela pintura é passagem…”. Ela não é em sua natureza uma técnica, é um modo de escuta.

A filosofia clinica é plástica, de saída. Conjunto de hipóteses articuladas entre si com a finalidade de oferecer perspectivas diferentes para facilitar a apreensão dos sentidos emitidos pela pessoa, por mais contraditórios que se apresentem ao olhar de quem observa. Com isto se forma um campo semântico próprio, peculiar e abrangente. Cada clínico aprende à sua maneira: por leituras, estudos em comum, aulas, trocas com outros profissionais, práticas supervisionadas, assimilando noções, hipóteses, de modo mais ou menos sistemático, meditado, refletido.As inumeráveis possibilidades de combinação oferecidas ao clínico, a partir dessas tradições da filosofia são um traço importante da filosofia clínica. Privilegiar, a priori uma tradição, talvez seja útil para evitar a dispersão especulativa nos trabalhos, predominantemente abstratos, filosóficos ou das teorias científicas, mas, de modo algum a um caminho clínico, que em sua constituição e natureza lida com as pessoas em seus infinitos modos singulares.

A colcha de retalhos das tradições filosóficas mobilizadas pela filosofia clínica dá condições para surgir o inédito: uma clínica da experiência singular. Que já parte do singular. Tateado e firme, incerto e rigoroso. Quem está na lida clínica sabe como isto é precioso.