A escuta das palavras

A palavra, em deslocamento por seus muitos territórios, também busca uma legibilidade para sua escuta escutando-se. Aptidão rara em meio as ditaduras da semiose verbal. Ao conviver sempre no mesmo lugar, ainda que em línguas diferentes, é excepcional vivenciar as dialéticas da aventura.
 
Em um mundo apropriadamente imperfeito, pode ser indizível, ao dicionário conhecido, encontrar o melhor para si. Essa suspeita se insinua nas possibilidades do instante perfeito nas entrelinhas da imperfeição. Essa transgressão da zona areia movediça de conforto existencial, se aproxima de um mundo razoável e suas contradições. Assim pode acolher e dialogar com a mutante medida de todas as coisas em cada um.
Ao destacar o viés dessas poéticas da irreflexão, se esboça uma negação de que tudo já foi dito, pensado, tentado. Nele um espaço desconhecido se abre como proposta.
Talvez a escola, ao ensinar a ler e escrever, também pudesse incluir aprendizados na arte de ouvir, sonhar, flutuar, experienciar essa matéria-prima diante do olhar, muitas vezes refugiada nas impróprias paredes. Quiçá emancipar-se além do tumulto silencioso das palavras.
Nesse sentido, a convivência aprendiz, a decifração desses códigos da não-menção, presentes nela mesma, pode conceber a crise precursora, o desajuste social, a incompreensão, como rascunho de uma obra acontecendo. Em um chão de incompletudes, os subúrbios da expressividade acolhe o devir dos recomeços.
Ao Filósofo dos casos perdidos, acostumado a ter um não saber como ponto de partida, vislumbra-se essa dialética como um redirecionamento do olhar. Lógica principiante a conjugar o recém chegando vocabulário diante de si. Uma estética a reivindicar o cuidador singular para acolher e contribuir com a nova condição. Ao cogitar dos eventos inesperados o espelho da realidade também se move.
 
por Hélio Strassburger -Filósofo Clínico na Casa da Filosofia Clínica

O que é a filosofia clínica

A Filosofia Clínica, em uma nova abordagem terapêutica, é a filosofia acadêmica adaptada à prática clínica, à terapia. Não trabalha com critérios médicos, com remédios ou com tipologias na construção de uma proposta terapêutica cujo objeto é buscar o bem-estar do ser humano.
O instrumental da Filosofia Clínica divide-se em três partes: os Exames Categoriais, a Estrutura de Pensamento e os Submodos. Nos Exames Categoriais, primeiro momento da clínica, através da historicidade, o filósofo clínico situa existencialmente a pessoa colhendo todas as informações de sua vida, desde as suas recordações mais remotas, até as informações de suas vivências mais atuais.
O material colhido, na história da pessoa atendida – que em Filosofia Clínica é chamada de partilhante, justamente pela condição de ser alguém com quem o filósofo compartilha momentos da existência -, é a base para o desenvolvimento do processo terapêutico.
A partir desses dados, num segundo momento, são verificados os tópicos da Estrutura de Pensamento da pessoa, as relações e os choques entre eles. Posteriormente, no processo terapêutico, entram os Submodos, que são a forma como o conteúdo da estrutura de pensamento é expresso. Os Submodos são utilizados pelo filósofo clínico para trabalhar as questões principais da pessoa. Nesse trabalho terapêutico o filosofo clínico é, antes de tudo, um amigo disposto a ouvir e a dialogar, comprometido eticamente com a busca do bem-estar subjetivo de quem o procura.
“O funcionamento interno de cada pessoa que se processa num centro identificado como Estrutura de Pensamento é singular e único. Por isso, a Filosofia Clínica considera cada pessoa um mundo único no seu ambiente existencial.”
por Lúcio Packter

Como falar de produtividade em tempos de alucinada produtividade?

Capa Gestão e Produtividade_siteHoje encontrar alguém que não tenha os três turnos ocupados é raridade, seja em função de trabalho, estudo, especializações e super especializações. É como se o mercado exigisse muito mais de nós, já tão exigidos como indivíduos. Não basta trabalhar, chegar em casa e assistir Netflix com nossas pantufas.
Existe uma imposição de ter resultados excelentes como profissionais, estar em constante processo de atualização, ir na academia, no cinema, fazer viagens, falar outra língua, ler muito, entre outras tantas demandas pessoais, ufa, que cansaço. Até o nosso momento de lazer se tornou uma tarefa a ser cumprida. Lembro de um colega de trabalho, anos atrás, que tratava as atividades rotineiras como um check list, tomar banho – ✓ok, estudar – ✓ok, trabalhar – ✓ok, asssitir tv – ✓ok.
É como se a sociedade tivesse transformado tudo em um produto passível de ser consumido. Assim, um curso de graduação deixou de ser uma escolha por aptidões, mas uma necessidade, o mestrado, o MBA, o inglês fluente, a viagem para a Europa… todos eles itens em uma grande prateleira de um wallmart qualquer, ao alcance do desejo de todos. E a corrida não pára, conquistado, ou ainda, riscado um item da lista, já temos outros a cumprir, e ai de quem não conseguir alcançar um destes itens.
Qualquer curso feito há mais de dois anos está defasado, e lá vamos nós atrás de mais estudo para engordar o currículo lattes, de EADs porque não queremos sair de casa, de uma lareira, porque afinal vamos ficar em casa mesmo, assim como uma máquina de café expresso e uma adega climatizada, entre tantas outras facilidades modernas.
Talvez, o que não é percebido, é que esse “mercado” que impõe tamanhas exigências, não existe como um ser em si, mas é sim reflexo de nossas próprias ansiedades. Em um mundo onde nada é o bastante, a atividade alucinada surje como uma válvula de escape contra a reflexão, e o resultado acaba sendo justamente o oposto, como quem enxuga o gelo, fazendo as atividades por fazer. Quanto menos refletimos sobre o que realmente faz diferença nas nossas vidas, menos resultados temos.
Quem trabalha muito, gasta muito, como uma cobra que engole a si própria, sem refletir sobre as decisões e os caminhos que estão (não) sendo escolhidos, somente seguidos com a coletividade. Claro que esse processo circular faz parte da própria estrutura econômica que estamos inseridos, valorizando o “ter” em detrimento do “ser”, onde o consumo é priorizado, e para consumer mais, devemos produzir mais.
E se, por acaso, alguém não se encaixa na dita “normalidade” da busca alucinada por mais, é apontado como louco, como acomodado, ou qualquer outro comportamento desviante. Em tempos de aparente aceitação das diversidades, não se engane, uma fina casca de tolerância esconde camadas profundas de ódio contra o outro, contra o diferente. É o discurso polido que inicia da seguinte maneira “não tenho nada contra, mas…”, e o que vem após este mas é a fala da normatização, seja ela profissional, sexual, ideológica, entre tantas outras.
Em função de uma formação como terapeuta em Filosofia Clínica, e um certo trânsito pelos ambientes terapêuticos, que no meu entender não diferem muito dos ambientes empresariais, somente o cenário é outro, tenho por hábito a escuta como instrumento de trabalho. E esta escuta acaba justamente por me fazer perceber o discurso por trás de alguns discursos da produtividade.
De um lado temos um aumento da ideologia americanizada de winners x losers, invadindo o imaginário brasileiro, pautanto os relacionamentos sejam comerciais, sejam afetivos, pelo acúmulo de vitórias, de conquistas, de itens no currículo. Nós, brasileiros, o povo “cordial” do qual falava Sérgio Buarque de Hollanda, não no sentido da cordialidade, mas sim um povo afeto à emoções radicais, vindas do coração. Grandes amores, mas também grandes ódios, aplicados agora na dicotomia bom x mau, vencedor x perdedor, feliz x depressivo, num sincretismo às avessas, onde todos saem perdendo, numa estafa física e mental pela corrida que se impõe.
Em outra oportunidade escrevi sobre criatividade e a importância, para alguns, do tempo e do silêncio para que brotem soluções e insights relevantes. Mais que isso, sobre a importância de cada um descobrir o seu tempo, o que ativa o processo criativo individual. O que para determinadas pessoas pode ser a atividade física, para outras pessoas pode ser permanecer em silêncio, entre tantos outros caminhos possíveis. O que não é possível, penso eu, é engessar esses caminhos, estabelecendo por decreto que somente a busca incessante por resultados desta ou daquela maneira é a solução, ou ainda que o oposto disto, o “nadismo”, o não fazer nada, como querem alguns publicitários, é a resposta. Talvez, para quem pregue essas soluções, isso seja a solução, o filósofo Leandro Karnal costuma dizer que o livro de auto-ajuda ajuda o escritor, e não os leitores.
Pressupor que existe uma solução mágica para questões, sejam pessoais, sejam profissionais, e que funciona da mesma maneira para todos, tema de inúmeros livros de auto-ajuda, se afasta totalmente de uma visão filosófica do mundo, onde a dúvida e o questionamento são privilegiados. Pensar não é uma tarefa simples, exige recolhimento, introspecção, leitura, e traz o incômodo de olhar para o mundo e duvidar das respostas prontas. Pensar nos tira do acomodamento, talvez por esta razão seja tão mais fácil aderir à produtividade, à atividade contínua como válvula de escape, como instrumento do não pensar.
Esse comportamento coletivo, da busca incessante por produtividade, pode sim, acelerar depressões. Pois à medida em que empurra pessoas para esse processo de normatização profissional, onde somente alguns têm o seu lugar ao sol, distancia outros tantos da sua própria essência, na ansiedade por seguir uma tendência social. É angustiante pensar na sociedade em que vivemos, onde todos procuram se capacitar o máximo possível, como uma competição, em que somente um receberá a glória do pódio, estamos falando de uma lógica que exclui quem pensa diferente, quem está fora da curva padrão e não tem espaço neste pódio.
Joseph Campbell, autor de “O Herói de Mil Faces”, costumava dizer aos seus alunos que deviam procurar o seu caminho pessoal, o que tornava cada um feliz, independente da formação acadêmica. Essa era uma aula diferente, imagine um aluno americano ouvir do seu professor que não era fundamental a conclusão do curso, mas sim a busca do que realizava cada um.
Não sei dizer se os alunos de Campbell foram se aventurar além dos muros da universidade, também na década de 70 essa fala era mais aceita, havia nos Estados Unidos uma cultura underground, uma ebulição com movimentos como os Panteras Negras, a luta contra a Guerra do Vietnã, e o movimento hippie pregando a trascendência através do uso de psicotrópicos. É provável que o discurso de ir atrás dos seus sonhos não tenha espaço na sociedade americana de hoje, onde a competitividade predomina.
Entendo que a própria palavra produtividade, está intimamente ligada ao conceito de uma sociedade de consumo normatizada, onde existe um plano a ser seguido por cada um, nascer, crescer, se graduar, casar, trabalhar, como tarefas automatizadas de que falava no início deste artigo. Assim, gosto de pensar em outras ideias para substituir isso, na ideia de diversidade de pensamento, e no quanto o convívio social cresce a partir da multiplicidade de caminhos diferentes.
Na Filosofia Clínica, temos o conceito de construção compartilhada, que na verdade nada mais é do que o diálogo aberto entre duas ou mais pessoas, onde, a partir da disponibilidade da escuta sem barreiras se constrói projetos, trabalhos, e mesmo na terapia, se encontra alternativas que levem ao bem-estar.
Deixando de lado a noção da produtividade alucinada, como barreira ao pensar, e adotando a ideia do diálogo, da construção compartilhada, acredito ser possível a busca de caminhos diversos, onde a inclusão seja priorizada.
Pois quando ouvimos o outro, ou melhor, ouvimos a nós mesmos, ante o turbilhão de tarefas, é possível romper com as pressões sociais, e passar a olhar de maneira diferente o que por hábito era igual. É uma mudança de paradigmas, que torna possível o aprendizado de novos olhares, novas possibilidades. Como já coloquei anteriormente, o pensar, em um momento é incômodo, porém à medida que vai sendo desconstruído e reconstruído os lugares das suas certezas, se abre alternativas antes impensadas.
Quem não ouviu relatos do executivo que foi plantar tomates no interior, ou do publicitário que mora há 30 anos numa caverna? Por mais estranho aos nossos ouvidos essas histórias, são relatos de pessoas que foram atrás do que faz sentido nas suas vidas.
Para eles, esse contato com a natureza, provavelmente, dá um significado às suas vidas. Assim como também são inúmeros os relatos de quem abandonou essa vida simples, e foi viver rem grandes cidades, se dedicando a atividades essencialmente urbanas, como saber quais os caminhos que cada um trilha em diferentes momentos da sua trajetória? Quantas vidas é possível viver em uma só?
Faço estes questionamentos como quem pensa a filosofia na vida, como quem pensa que a filosofia está diretamente ligada à meneira como fazemos nossas escolhas, sejam de caminhos, seja de trabalho e mesmo das palavras que usamos. Mesmo que não tenhamos essa clareza, a filosofia está ali, agindo nas nossas vidas. A capacidade de refletir sobre quais os conceitos que são caros a cada um, quais os valores que norteiam a nossa vida, o que queremos mudar, se é que queremos mudar, é a chance de pensar diferente, de poder escolher entre pensar como a maioria (por que não?) ou fazer um caminho diverso.
Prefiro não pensar no termo produtividade, mas para você leitor, talvez este termo faça sentido. Agora, para chegar neste ou naquele termo, ou conceito, o fundamental é a coragem de se repensar, se reinventar a cada dia, para que as ações cotidianas façam sentido na nossa história pessoal, e não sejam simplesmente um reproduzir uma ideologia que não nos pertence.
 
por Luz Maria Guimarães – Empresária e Terapeuta
Gestão Pessoal para Produtividade
Editora Pragmatha
Porto Alegre, 2016

A partir e em direção ao singular

Convido o leitor a sentar na poltrona do clínico.

Frente a si estará sentada uma pessoa que vem partilhar uma parte de sua existência. Como apreender o que lhe é próprio, para que a clínica se faça para ela?  Como partir de sua singularidade? Isto é possível? A minha hipótese é que a Filosofia Clínica é um método que permite partir do singular e ir em direção ao singular.
 
Nos Seminários de Zolikon (nota 1) Heidegger nota que a  palavra método é composta pelas palavras gregas “meta” que significa “além, para lá” e, a palavra  “odos” que tem o sentido de “caminho”. Em suas palavras: “método é o caminho que leva a algo…não se pode estabelecer de antemão, de que maneira o assunto determina a espécie de caminho que a ele conduz… que permite alcançá-lo”[nota 2].
 
O “assunto” traz um aspecto ético importantíssimo. Na FC a pessoa que vem à clínica é que  deve dizer  o que pretende. O assunto  imediato, trazido muitas vezes como uma queixa inicial,  funcionará temporariamente  como uma bússola,  orientando os primeiros movimentos do percurso. Aos poucos poderá – ou não – ser substituído por outros assuntos, mais constantes, assuntos que pode se tornar – ou não – único, e que se nomeará como “último”. Pode se caracterizar como um telos, presente como uma meta, ou uma ideia orientadora, explícita, implícita, clara ou obscura, próxima ou à distância. E assim poderá influenciar os acontecimentos, a cada vez,  num modo com  intensidade variada ,  que pode aproximar do que se dá aqui e agora,  o que é projetado na distancia do espaço ou do tempo. A cura seria o pretendido em sua variância (pretender: pré/antes; tender/inclinar) pelo partilhante.  A clínica está a serviço das aptidões dessa pessoa,  inclinando-se aos seus “para-que”. “O caráter do ser-apto é o de ter possibilidades e fornecer possibilidades”(nota 3).
 
Cada pessoa tem o seu mundo, produz o seu mundo. Assumo aqui a hipótese de Heidegger:  “o homem é formador de mundo” [nota 4]. O que lhe é próprio, a sua singularidade é seu modo de engendrar e formar o seu mundo.  Mundo seu, que é composto por um si: si-mesmo ou si-próprio.  Mas si-mesmo não é si-proprio: “mesmo” se emprega “no contexto de uma comparação e tem como contrários: outro, distinto, diverso…” [nota: 5] E  “próprio” é o seu mundo, as suas propriedades,  o que lhe é singular.
 
Um clínico que trata das questões existenciais, também compartilha a mesma natureza humana de quem se dispõe a cuidar. Também é formador de mundo, também tem a sua singularidade (si-próprio), também constitui a si e aos outros. No seu trabalho assimila os horizontes do outro aos seus horizontes, porém, sem fusão. A clínica é um modo muito característico de viver-com, de inclinar-se a esse outro, mantendo contato, mas, sem se confundir com ele. “Acredito que o contato…e tudo aquilo que pertence ao vínculo [interseção] participa de um saber inerente à espécie humana….é aquilo que une o próprio (o singular) do analista ao próprio do analisando” [nota  6]. Une sem tornar uno: aproxima. Como clínico eu preciso constituir uma alteridade e manter contato sem me con-fundir.
 
Como me aproximar desse mundo, desse outro, de seus caracteres, seu mix, seu tempero, seu temperamento? Como chegar ao que lhe é próprio, ao que lhe é singular?
 
Singular é algo que é aquilo que é de um determinado modo: a essência deste algo é o que lhe é próprio,aquilo que o define. “Jamais podemos tomar em consideração diretamente o fenômeno do mundo” [nota 7]. O mundo, o outro,  não se dão imediatamente como fenômeno.
 
A  FC  traz essa possibilidade de aproximação ao outro, ao mundo do outro, em seu método,  através da Estrutura de Pensamento, a EP [nota 8]. Ela oferece ao clínico esse recurso precioso para apreender o mundo desse outro, para se aproximar do que lhe é específico sem  misturar-se a ele. A EP é uma estrutura plástica, próxima ao que seria um modelo formal, que é pré – um prejuízo – mas sempre em (re) constituição, em re-aproximação. Cria-se com ela a possibilidade de uma certa permanência à natureza  fugidia do que é próprio a esse outro, a essa pessoa partilhante.
 
Isto é muito importante porque o homem não é apreensível  como um objeto completo. A plenitude de determinações é própria da ciência, porém, inadequada para a filosofia e com maior razão, para a clínica. O mundo humano não é lugar de completudes, de certezas. E não é por outra razão que, a despeito de suas pretensões de verdades definitivas,  são tão precários os resultados dos métodos clínicos científicos no trato com as questões existenciais.
 
Do ponto de vista do clinico, a EP é esse trabalho realizado de assimilação dos modos singulares da pessoa, em constante reelaboração,  sempre provisória,  por sua natureza humana transitória.  A EP é uma representação do outro para o clínico, tornando possível criar e manter uma alteridade, que permite constituir e observar o que  é singular nessa pessoa e ensaiar modos de intervenção, através da linguagem. E assim, exercer uma clínica a partir do singular. O “com” que se dá na clínica, é um elemento facilitador de exposição e de abertura de si, sem ser um gerador de fusão e de indistinção. Em seu modo de intervenção o clínico exerce uma ação com intenção em direção a alterações nos modos de viver da pessoa. Ele dá uma “dica”,  oriunda de um cuidadoso planejamento. E não é mais do que isso, porque sabe as limitações de seu saber, que a assimilação do que é singular é resultado de um fazer permanente e inacabado, partindo do frágil encontro com o outro.
 
Do ponto de vista do partilhante, na clínica,  cria-se um espaço existencial de exercício diferente para seu pensamento, para suas vivências íntimas. Lá, como formador de seu mundo, pode encontrar  para si modos de viver melhor. A clínica é para a pessoa um lugar inusual de acolhimento de seus próprios horizontes,  seus sofrimentos,  suas expectativas,  suas alegrias, suas vergonhas, seu tédio, sua angustia,  seus abismos, suas esperanças, suas frustrações, seus medos, suas fobias, seus sonhos, suas memórias, de seus assuntos, de seu mundo. E este caminho, só seu,  só se perfaz no que se poderia chamar de um pensamento clínico singular para si, singular a seu caso.
 
O pensamento clínico se refaz nesta relação singular que permanentemente se reposiciona, se reinventa;  não se totaliza num plural, desfazendo qualquer  unidade teórica ou conceitual. É preciso pensá-lo a partir da energia radical de sua singularidade, afastando o pensar técnico,  suspender mesmo as  teorizações universalizantes.  Aquilo que é criado  a partir desta relação singular dá  sentido  ao que é uma construção compartilhada. Deste compartilhamento parte uma dica/uma indicação que serve só a esta existência, em seu incessante formar mundo. Jung, um terapeuta experimentadíssimo não disse à toa que “cada relação clínica tem a sua própria teoria” [nota 9]. O que é realizado a partir de sua experiência, nesta relação clínica é criação de mundo para si, partilhante e, experiência para o clínico. Experiência que ele faz a partir de um movimento para fora – “ex” – em que contorna o mundo que se lhe apresenta – “peri” – e se volta ao que lhe é próprio – “encia”.
 
Ao clínico o que lhe incumbe é não falar para si e para o outro em nome da realidade ou do “em geral”. Não há uma realidade que se poderia colocar à disposição do partilhante, como uma espécie de referente ao qual as coisas poderiam estar ligadas, ou  a ele submetidas.Criar mundo, observar mundo está longe da noção de realidade. O real é uma ficção muito precária, porque quem a usa muitas vezes nem percebe que ela – realidade – é ficção. Os mandatários da realidade, entretanto, são poderosos: usam com inteligência e intransigência um modo de alteridade rígido, pelo qual esses outros criados a partir de si, devem obedecer aos seus mandatos em nome do geral, do comum, do que não admite os modos singulares de viver diferentes. No dia a dia do atendimento, o clinico precisa ser rígido na sua disposição metodológica de não recorrer ao “real”, ou ao geral, ou a qualquer  totalizador que se oponha ou dificulte as invenções de mundo, de singularidades.  Se o homem é formador de mundo, o singular é vigência e está sempre por ser feito, por ser retraçado. Pode surgir desta postura clínica  atenta ao singular,uma profunda transformação, vinda  desse convívio confiado. O singular, entretanto,  é descontínuo, precisa ser reinventado a cada vez,  vez por vez.
 
Formar mundo é labor próprio, criação e vivência em terreno singular. Clinicar é se curvar a esses mundos sempre em formação,  à sua  alteridade, ao que lhe é totalmente outro. E por isto não pode haver intencionalidade na escuta clínica. E por isso a importância aos modos dessa colheita pela escuta, em que a  atenção para o que é dito precisa estar flutuante, não dirigida. Admitir o q se oculta, as vigências que não se compreendem de imediato: o que é importante volta por meio dos infinitos recursos das linguagens. Um bom começo para o clínico é ir até o fim sem  admitir os “em-si”, em si mesmo,  podendo sustentar uma escuta ao incondicionado.
 
A clinica filosófica, respeitado o método,  é invenção, é um gesto. Não obedece a nada fora de sua própria circunscrição. Se dá neste viver-com, nesta vigência,  re-inventa  a cada passo.  Um gesto passivo: acolhimento ao outro em sua singularidade.  Ético em sua eticidade.
 
por Cláudio Fernandes


 
Notas
[1] – Heidegger, Martim; Seminários de Zolikon, ed Medard Boss; Ed Vozes, 2001, Petropolis, RJ, Brasil. Os seminários realizados por Heidegger, na cidade suíça de Zolikon, na casa do psiquiatra e psicanalista Medard Boss de 1959 até 1970, para um público, entre 50 a 70 participantes,  predominantemente de psiquiatras.
[2] – Heidegger, M; Sem Zolikon, pg 128
[3] –  Heidegger, M; Os Conceitos Fundamentais da Metafísica ; Editora Forense Universitária, 2006, Rio de Janeiro, RJ, Brasil; pg 269
[4] – Heidegger, M; Conceitos Fundamentais, pg 12
[5] – Ricoeur, Paul; Si Mismo Como Outro;  Siglo XXI Editores, 2011, Cidad Del Mexico, Mexico; pg XIII; Ricoeur faz uma interessate distinção entre “idem”, como igual, idêntico, o mesmo, e “ipse”, que não implica nenhuma afirmação sobre um pretendido núcleo não cambiante da personalidade, como modalidades próprias de identidade
[6] – Zigoutis, Radmila; Vínculo Inédito; Ed Escuta,   , São Paulo, SP, Brasil; pg 37 e 38
[7] – Heidegger, M; Conceitos Fundamentais , pg 341
[8] – deixo de especificar o que é a EP, por me dirigir, predominantemente a um público de filósofos clínicos, que tem o domínio dessa noção central do método da FC
[9] – Junj, Carl Gustav; Memórias, Sonhos, Reflexões; Ed……Brasil; pg

O que é isso que se expressa?

Essa  pergunta  surgiu a partir do tema “expressividade” do 5º. Colóquio Nacional de Filosofia Clínica, realizado em Porto Alegre, maio de 2016. Apesar de  um pouco deslocado  do que certamente seria mais apropriado a  ser discutido – os modos de expressividade – pensei que  poderia ser proveitoso conversar um pouco  sobre “isso” que se expressa.

A noção de expressividade no ambiente da FC, é um tópico da EP- Estrutura de Pensamento –  e também um tópico do Quadro de Submodos, vale dizer, algo que faz parte da constituição e do modo de agir de uma pessoa.
Expressividade de um lado tem um aspecto mental, de outro se liga a  um âmbito material, corpóreo.
Na palavra expressividade o prefixo  “ex” indica um movimento para fora – neste caso do corpo material –  e, “pressividade”, que seria a atividade de pressionar, de fazer pressão. Pressionar, portanto, para fora. E pressionar é por definição “transmitir estímulos”. Talvez mais propriamente, empurrar estímulos; pressão é a força que faz com que os estímulos sejam movidos, transportados, transferidos de um lugar a outro. Os estímulos têm sua origem no próprio corpo material, no organismo ou fora dele. No mundo material são os impulsos nervosos, fenômenos ao mesmo tempo químicos e elétricos. Em outros jogos de linguagem – na medicina chinesa, por exemplo – os impulsos nervosos são nomeados como energia.
E será esse campo entre o mental e o corpóreo que me possibilitará trazer algumas ideias que venho desenvolvendo e que talvez tenham algum interesse para quem lida com o pensamento ou com a prática clínica.
 
Começo pela pergunta: O que é “isso”, a palavra “isso”?
Um pronome. “Pro” – o que vai em direção a; “nome”, linguagem.
 
“Isso” é uma palavra que indica – que dá a dica – sem dizer o que é.  Um pronome demonstrativo, que neste caso, diz, sem mostrar . Quando eu falo “isso”,  já estou na linguagem. Digo mas não mostro,  não estou mostrando um objeto sem nome , mas dando um lugar a ele no que eu falo. Para dar uma dica sobre “isso” eu  preciso antes falar a palavra  “isso” para, então,  poder começar a mostrar o que é que eu quero dizer com “isso”. É como se eu desse um grande privilégio à linguagem: ela passa a ser o lugar a partir do qual algo se mostra e passa a existir.
 
Com o uso do pronome “isso”, eu me refiro ao acontecimento da linguagem, sem entrar no mundo  dos significados.  Quem me lê ou me ouve não sabe o que é isso a que eu estou me referindo – a linguagem, de certo modo,  ainda não aconteceu, não se deu como acontecimento, significando. Será só no interior desse acontecimento que algo será significado e, ao mesmo tempo se dirá o que “isso” é.  Se entrará, então,  na dimensão do “ser”.  Nesse gesto, nesse ato de fala,  o signo passa a significar (passa a ser propriamente signo), aquilo que está indicado diz, passa a dizer. No interior desse acontecimento da linguagem, ao falar eu digo o que “isso” é.
 
Algo foi incorporado, apropriado, num acontecimento de linguagem como uma verdade íntima por mim, a partir de um contato com o mundo, mundo ao qual saindo de mim , acorri, percorri  e que deixei voltando a mim. Experiência realizada: “ex”, para fora; “peri”, o contornar o mundo; “encia”, a volta a si.
 
Verdade íntima apropriada,  que não se refere agora mais aos sentidos  nem ao intelecto, mas que se dá numa instância própria. Um saber próprio, que sabe sabendo, que toma a linguagem naquilo de onde a linguagem surge. A “surgência” da linguagem [nota 1]. A fonte da expressão. Isso.
Mas se “isso” quer dizer essa verdade íntima, o que é “isso” que  contém essa verdade íntima. O íntimo, no seu limite, só se pode dizer a si, numa espécie de flexão de si a si. “Eu” seria o lugar dessa verdade intima?  Mas, o que é  “eu”?
 
De novo um pronome. Desta vez um pronome pessoal.
 
“Eu” designa a pessoa que enuncia. Quando eu digo “eu” é ao mesmo tempo eu que digo “eu”. Eu sou sempre no mesmo tempo de “eu”. “Eu” é um fenômeno de linguagem, de vivência , de percepção instantânea. “Eu” é sempre presente para si. E para si,  um observador eterno; sou sempre eu que vejo, penso, percebo, sinto etc.  Um “centro de experiências”[nota 2], sempre em atividade. Mas “ eu”  não pode ser apreendido nem visto. “Eu” , assim, não pertenceria ao mundo, seria  “um limite do mundo”como observou Wittgenstein.
 
O “eu” não é uma coisa no mundo, não é uma substancia:  não se pode mostrar. Não é um ente zoo-psico-biológico. E ao mesmo tempo eu sempre existo. Não há “eu” sem eu.  “Eu” se funda, se re-inaugura na fala, em cada fala. Existe através da fala que a profere.  Algo fala. Algo que fala é alguém. Alguém fala, um eu.
 
Quem é esse alguém – eu – que fala?  Se eu existo, eu sou um ser vivo. Vivo  num corpo. Eu, como alguém num corpo, talvez seja a minha primeira característica. Como diz Ricoeur um corpo é um “critério de localização num único esquema espaço-temporal” [nota 3]. A partir de um corpo contingencia-se num lugar e num momento qualquer  alguém, um “eu”. Um “eu-corpo”.
 
Esse “eu-corpo”  trafega entre outros “eus-corpos”, trama percepções e sensações para si,  e  através dos impulsos, busca respostas fisiológicas tendo seu próprio organismo como universo. Esses fenômenos elétrico-quimicos preenchem e percorrem os nervos num fluxo energético contínuo. A cessação desse fluxo é o fim desse alguém, desse “eu-corpo”, desse organismo.  Cessa o organismo, cessa a possibilidade de ex-pressão do “eu”. O tempo de existência do “eu” corresponde ao do corpo.
 
Essa imbricação constitutiva nessa noção de  “eu-corpo” possibilita que o “eu”  se represente no reino das coisas, vale dizer, no mundo: é no corpo, no organismo  que o “eu” existe.  E é no transacionar através do organismo  com o mundo que, aquilo que representa o “eu”, se modifica, mais ainda, se constitui. Como “eu”, q não é um ente, não é uma coisa, e que é mental, se modifica no transacionar com o mundo, como organismo?
 
Difícil responder a essa questão mantendo o rigor de pensamento que é próprio da filosofia. Nunca é demais lembrar, que, neste âmbito, o critério é sempre a verdade, isto é , aquilo que é evidente por si.
 
A ciência encontrou alguns modos, talvez menos rigorosos, porém mais práticos. Seu critério principal é o da verificação. Com isso criou uma série de modos de medição, que quando não são possíveis, são substituídos por outros modos de aproximação, como os cálculos probabilísticos. Com isso foi possível criar uma série de protocolos que foram e são úteis, inclusive nos cuidados dos corpos humanos. Mas a relação e a caracterização entre o corpo e a mente ou dito de outro modo, entre o organismo e o espírito, continua sendo um mistério.
 
Se é possível observar como a energia vital – os fenômenos eletro-químicos – circula pelo organismo, nada se sabe em como ela se transforma em ideia, em pensamento, em sentimento, em representação. Como uma energia se transforma numa representação de si, nesse alguém, esse “eu-corpo”.
 
Para  quem  lida no mundo da clínica existencial, que se  inclina para cuidar de pessoas com dificuldades e sofrimentos no viver, essa questão é fundamental. Não se trabalha com uma matéria, não há propriamente um objeto para lidar, ainda que a pessoa venha também como um corpo.  Esse corpo que traz em sua constituição essa parte eu, e que vive uma série de influências corpóreas  a partir dessa parte eu – as somatizações, ou reações psicossomáticas .    É em sua inteireza de ”corpo-eu” que a pessoa  transaciona com aspectos do mundo, através da linguagem.  Esta pessoa que vem à clínica tem como sua natureza essa de ser um organismo capaz de linguagem.  O clínico – também um corpo capaz de linguagem – testemunha diariamente  esse mistério.
 
O  “eu-corpo” existe.  Há algo nele que se ex-pressa. Põe para fora um “isso” que está nele. Nesse “eu-corpo”, há isso que o caracteriza. Isso, esse caráter íntimo do “eu-corpo”,  isso que lhe é próprio – singular, só dele. Esse próprio construído a partir de sua relação consigo, com os outros,  num movimento de natureza reflexiva, em que sai de si para regressar a si. Resultado momentâneo de infinitas ex-peri-ências, que sai de si, é tocado, matizado pelo mundo, para voltar a si transformado. Como essas experiências são compostas de suas relações com o mundo, compreende-se a natureza singular, desse “isso”, próprio a si .
 
Outro pronome. Agora reflexivo.
 
Esse si, próprio, não se dá ao pensamento, não é representável. Si próprio não é si mesmo. Ao buscar pensar em si já se cai numa cisão, numa divisão: esse que olha precisa de um afastamento, criar uma alteridade de si, que modifica sua condição inicial de si. Para ser mesmo – si mesmo –  tem q ser os 2 ao mesmo tempo, um e outro que se identificam, dando a condição de mesmidade. Não há mesmidade onde se supõe unidade. O “si” , ainda que uno, não é algo simples. Contém a relação q une e a relação q separa. Não tende a formar identidade. Forma propriedade.
 
O si, o fato de si, o si em sua facticidade não é original. É produzido, é artifício. O si produz a si na experiência de si. O outro de si é si em que o seu outro é este si e, talvez por esse movimento incessante de mútua constituição, sempre inconclusa e precária, sempre em construção, contingenciado e contingenciador, criador de si e do mundo. O seu aí está sempre em ser, sendo. Não é uma situação de fato, imóvel, como em Husserl e Sartre [nota 4].
 
Agamben traz o conceito heideggeriano de  facticidade para argumentar que o fato de si é produzido, é forjado pela  e-moção. Tome-se  o sentido que a palavra emoção  traz : “e”, para fora, como “ex”; e “moção”, deslocamento. E se compreenderá, como  se desenvolve “isso”, o si.  O si, o fato de si, é o que foi produzido pela e-moção, pelo seu deslocamento para fora. Não há um si original. O si é esse “isso”, em constante produção do início ao fim da vida pelas suas próprias e-moções. Daí porque o si, sendo artifício, é sempre si-próprio.
 
A expressividade acontece quando a linguagem traz ao que é próprio. Ou leva o próprio ao que é dito. É como quando se fala, se gesticula, se dança com uma verdade própria. Isso que se sabe que existe, está presente e que é difícil de nomear. A expressividade é essa ação de linguagem q faz a experiência  do “isso”, que faz com que esteja impregnado  à palavra, ao gesto, à pincelada, à ginga, à voz. Mas ele mesmo, “isso”, não vai, “permanece intransmitido”, como diz Agamben, “sem nome”, pronome.
 
O homem, o animal falante, é o infundado, q se funda indo ao fundo em seu sem fundo e, como in-fundado, repete sem cessar sua ausência de fundamento, abandona-se a si.  E é só assim, desse modo negativo, fundado em si . O “si” é o mistério das origens q a humanidade transmite como fundamento próprio. E que é veiculado na expressividade.
por Cláudio Fernandes


[nota1 : “surgência”, essa bela palavra criada pelo colega Arthur Tufolo]
[nota 2: como sintetizado recentemente por Paula Perroni, colega psicanalista]
[nota 3 Paul Ricoeur “Si Mismo Como Otro” pg 9]
[nota 4:Giorgio Agamben “A Potência do Pensamento” pg 260 e seguintes]