Quem? O sentido da Autogenia

Autogenia. Uma aproximação da questão: “quem é esta pessoa”

Autogenia  não é uma palavra corrente, na filosofia, na clínica e, pouco usada nas ciências,  daí ser prudente defini-la  para os propósitos deste texto.

A palavra grega “auto” traz o sentido daquilo que é próprio e, “genos”- também do grego – o de origem ou nascimento. De maneira simples, autogenia pode ser entendida como a qualidade daquilo originado por si mesmo, independente de força ou recurso externo a si.

E como essa palavra autogenia participa no mundo  da filosofia clínica?

Autogenia pode ser considerado como um retrato existencial desta pessoa à frente do clínico. Como ela se constituiu, se tornou o que é.  Ela se vincula a uma idéia de totalidade da pessoa, próxima de certa forma da noção de personalidade ou de caráter usado pelas psicologias e por algumas psicanálises. Na filosofia clínica ela deve ser resultado de um minucioso processo de construção, sempre vivo e reconstruído. Autogenia se aproxima de uma questão muito esquecida e fundamental da clínica: quem é essa pessoa que está aí? Questão filosófica vivida na clínica.  

Heidegger ao tomar como tema o quem, escreveu: “é cada vez um eu e não algo distinto” (Ser eTempo pg 333). “Cada vez um eu”, portanto, um “eu”, um alguém que muda a cada vez que é observado e simultaneamente “não algo distinto”, isto é, um algo ou alguém que não é diferente de si, que é o mesmo. Nessa tensão entre mudança (Heráclito) e permanência (Parmênides) estaria o lugar para alguma consideração da questão quem é essa pessoa, esse ser-aí, à frente .

Quem? “Cada vez um eu e não algo distinto”.

Mas o que é“eu”? É uma palavra que se refere a quem fala, designa a pessoa que enuncia. Mas não a descreve, não dá qualquer predicado dela.  Na gramática da língua, “eu” é um pronome, por definição, algo que vai em direção a um nome, mas não nomeia uma coisa. Pronome pessoal “eu” só indica a pessoa que fala, portanto, é (só?) um fenômeno de linguagem. “Eu” se funda, se re-inaugura em cada fala. Em cada uma, na sua, na minha, na dele. “Eu” existe através da fala da pessoa que a profere. E, algo – o “eu”- fala por intermédio da pessoa. Esse “algo-eu” que fala é alguémAlguém fala: um “eu”. Quem?

 No âmbito existencial o “eu”, na vivência de uma pessoa, é sempre presente para si.   E também um observador eterno de si, afinal  sou sempre eu que vejo, penso, percebo, sinto   “a mim”, “a mim mesmo”. Então há algo na base do “eu”. O “eu”, entretanto, não é uma coisa no mundo, um ente. E ao mesmo tempo há um fenômeno “eu” que existe para mim enquanto eu sou consciente de mim. Então “eu” serve para eu me referir a mim. O que é  alguém e não se refere a mim não é “eu”, é “outro”. Eu” é a palavra que  indica aquele q designa a si na fala.

Quando alguém usa “eu” já traz também pressuposto alguém diante de si, um tu ou um você.  E pressupõe também um “eu” desse interlocutor. Eu compreendo quando uma outra pessoa fala “eu”, eu sei  que ela se refere ao “eu” dela, o “eu” do “outro” que é ela, para mim. Isso, essa compreensão, é condição para a clínica. Ela e eu, cada um a partir de si, sabe que há um “eu” meu e um ”eu” dela. Curioso: sabe-se, mas é um saber de natureza frágil, meio por aproximação. Não há um saber certo, firme, fundado, nisto que é tão comum, corriqueiro, vivido por qualquer um. Um saber-sabido-desconhecido.

Quem? Essa pessoa que fala cria um mundo a partir de si. Cada “eu” pode ser definido razoavelmente  como um centro de experiências de mundos vividos por uma pessoa e, um centro de perspectivas de mundos seus a viver. O clínico – este “eu” que escuta – deixa este mundo do outro “eu” se estabelecer próximo a si. Talvez o lugar propriamente em que esse mundo do outro “eu” se estabelece é na interseção  entre estes dois “eus”. A clínica se dá entre.

A pessoa não é um conteúdo do mundo que cria, ela é a referência, a base, o ponto de apoio. Mesmo frágil.  Esse “eu” fala algo, aqui e agora para um outro “eu” aqui e agora, que escuta, cada qual numa posição insubstituível. A pessoa que traz o seu mundo é um limite desse seu mundo, não está dentro nem fora desse mundo. Não está dentro porque está aqui “fora” falando e não está fora porque fala de “dentro” de si, a partir de seu “eu”. Como um “eu – criador” está no limiar, entre o dentro e o fora [como notou  Wittgenstein]. No mundo existencial, não há  sujeito, nem objeto. Não há objetivação possível do sujeito.

Quem?  A pessoa não é somente esse “eu” que fala: ela se compõe de uma corporeidade. Ela também é um corpo. Ela existe também num âmbito material. E cada pessoa tem um corpo diferente da outra.  Se ela e só ela pode se identificar com o corpo que ela habita, então este corpo é seu, só seu: este corpo é o lugar do seu “eu”. Compõe o “eu”. E, alem disso, o meu corpo, desse outro que sou para ela, pode ser entendido por ela como “eu”.  Em outras palavras, do ponto de vista espacial, o corpo como critério de identidade do “eu” parece dar uma resposta mais firme. Ao menos para um universo cultural tomado predominantemente  por critérios materiais A pessoa parece poder ser identificada pelo seu corpo. E assim se faz socialmente. A sua identidade é atestada pelo reconhecimento do desenho de seus dedos. A convicção inquestionável da singularidade dos traços corporais está aqui pressuposta.

O corpo ainda responde a um outro critério importante de identidade da pessoa que é a possibilidade de ser reconhecível pelos outros. Este corpo que contém um “eu” pode ser percebido em dois momentos diferentes  e ser considerado ainda como a mesma pessoa. Há uma permanência, ainda que provisória da fisionomia da pessoa, por exemplo. A pessoa passa a ser reconhecida por aquele rosto ou por aquele corpo que trans-porta esse “eu”. O curioso é q muitas vezes, encontra-se  alguém que se reconhece não por seus traços físicos, mas pelo seu jeitão, por uma expressão, por um sorriso, pela voz, pelo seus modos de se movimentar, um modo de olhar. Pela voz.  Mas de qualquer forma o corpo como critério de identidade parece funcionar razoavelmente, para as necessidades das relações sociais.  Mas…

Quem é essa pessoa? “Cada vez um eu, não algo distinto”.

 O mesmo algo, aquilo que não é diferente, que parece repetir um conhecimento que já se teve. Nesse lugar incomum, difícil de perceber, que é a cada vez de um modo e que permanece com alguma propriedade comum, parecida. Daqui não se pode falar que é o mesmo – já que de cada vez é um “eu” – e que ao mesmo tempo mantém alguma coisa que lhe é própria, e pela qual pode ser reconhecida,  o corpo.

Quando eu me refiro ao “meu” corpo eu tenho uma referência de um mundo em que há outros corpos.  Foi na minha relação com outro corpo q eu pude constituir a idéia de um corpo meu. Este movimento de me constituir como um corpo diferente, me possibilita e me exige ver a mim quase como um terceiro, isto é, de “eu” através da percepção de um “outro”. Mas como sou “eu” que indico a mim mesmo esse “eu”, há um movimento reflexivo, quer dizer, há um desvio da minha direção inicial – indo em direção ao outro – que me faz voltar para trás, me faz recair em mim [esse “mim” é um pronome obliquo reflexivo da 1ª pessoa do singular- refere-se a “eu”, mas não é “eu”]. Há quase um olhar em terceira pessoa para o meu “eu”, mas um olhar que também não se realiza plenamente, ou pelo menos que me dá pouca possibilidade de alteridade (externalidade?) desse “eu”, que me permitisse perceber esse “eu” como a um estranho.   Mas isso não se realiza porque o “eu” permanece em meu corpo e me percebo como uma única pessoa. E sou eu que digo “eu”.

A reflexão do parágrafo anterior está no campo do pensamento clínico, tem sua referência  no âmbito existencial e não epistemológico.

Quem? A noção de pessoa se constitui a partir dos predicados que se atribui a ela.  Na cultura ocidental contemporânea os predicados mais aceitos são os de que uma pessoa é composta de um aspecto físico e outro espiritual ou psíquico. Quando se está frente ao corpo de alguém morto, por exemplo,  há algo da pessoa presente e algo ausente. A pessoa não está mais ali, só seu corpo. O corpo, uma coisa no mundo, mas ainda como memória do ausente.  A pessoa na sua inteireza material-psíquica tem como sua natureza, portanto, o  estar presente, ser presença. Mas isso não a predica, não fala nada dela.

Quando se busca a identidade da pessoa –  ela como idêntica a ela mesma – surge de novo a dificuldade. Cada pessoa é um “eu” distinto num corpo distinto. O que distingue um corpo de outro é sua aparência física, seu volume, suas formas que se conhecem a partir da percepção. Mas como distinguir as características psíquicas de uma pessoa?

Na clínica a pessoa se encontra numa situação em que fala e escuta  e é ouvida por outra pessoa que também fala. Nessa circunstância ela usa a língua e vários recursos de linguagem para expor para alguém, de algum modo presente, as suas experiências. Uma situação de interlocução que tem valor de instituição de acontecimento. Está em cena, através de um discurso, corpo e psique frente a corpo e psique, alma, carne e osso, ainda que mediada por aparelhos (plataforma, internet, celular) trazendo a sua experiência do mundo, sua perspectiva, q não pode ser substituída.

Quando eu digo “eu estou feliz” não é a mesma coisa do que se eu dissesse “a pessoa q está falando está contente”. Há um ponto de referência diferente: quando eu digo “eu” estou dando o ponto de referência, tem um certo peso existencial,  no outro caso eu sou descrito como uma 3ª pessoa, quase não é uma pessoa.  Quem é essa pessoa? Como predicá-la? Como estabelecer suas propriedades, o que lhe é próprio?

Mas isso ainda está muito vago. O que é isso – o “eu” – que eu sei q existe porque vivo em mim e percebo viver no outro?  Eu sei que o que vivo em mim é diferente do que ele vive nele. Então há algo de próprio neste “eu” meu e no “eu” dele, do outro. Há uma diferença entre ele e eu.  Há um próprio a mim e um próprio a ele. Como se produz isso que é próprio a cada um? Como se deram essas Autogenias?

O recurso chamado EP

A Filosofia Clinica busca enfrentar esse desafio através de um artifício próprio, de um elemento simbólico, chamado de “estrutura de pensamento” – “EP”. Ela tem uma natureza operatória. A grosso modo ela pode ser vista como um modelo, um “artifício de montagem”, que facilita formar um quadro para o clínico dos modos constitutivos dessa pessoa, de forma explicitamente aproximada, com alguma estabilidade. O sentido é de um quem  utilitário e não tem nada a ver com um quem ontológico (que estabeleceria o ser dessa pessoa) .

Ao criar uma certa permanência artificial, a EP possibilita ao clínico um certo afastamento da experiencia imediata da escuta vivida na interseção com o partilhante. Dá-lhe a oportunidade de pensar, comparar momentos distintos, observar seus movimentos, fazer relações, formar hipóteses para procedimentos, planejar ações clínicas. Mesmo quando não está na presença física do “outro”, do partilhante, pode ainda pensar e refletir, respeitando seu próprio ritmo de pensamento, numa espécie de “re-escuta”, observando aspectos que talvez lhe escapariam sem isso. Além disso, permite-lhe, também, criar a possibilidade de um certo afastamento dos efeitos das suas próprias idiossincrasias, elaborar os seus preconceitos – específicos  desta relação ou não.  

Nessa estabilidade artificial impregnada na EP está uma série de apropriações de sentido produzidas através da escuta realizada pelo clínico das falas faladas do partilhante. Ela é um modo que possibilita um afastamento da memória  do vivido, numa tentativa de mantê-la  “presente” em seus sentidos. Isso não é pouco quando se trata de se aproximar do que é próprio a essa outra pessoa.

Quem? Talvez não seja conveniente pensar a EP como uma “representação da pessoa”. Representação  tem sentidos bastante vinculados a certas tradições filosóficas, não sendo recomendado, aqui, utilizá-la para evitar más interpretações. Será melhor caracterizar a EP de modo menos preciso, mais aberto e próximo de seu próprio sentido, como sendo “o jeito da pessoa”, ou “o modo como a pessoa está existencialmente no ambiente” .

O conhecimento de uma EP será sempre “trabalho realizado”, síntese organizada de observações feitas pelo clinico, a partir de sua relação com essa pessoa que vem partilhar as suas vivências. Como assinala Lúcio Packter,  ela só poderá ser determinada “após o exercício existencial da pessoa” [packter; caderno B pg 8] e deve ser tomada “como um preconceito e não como um a priori”. Não é um saber que venha constituído por uma razão transcendental ou metafísica. É um registro, em línguagem própria, do processo autogênico da pessoa. O quem em outra língua.

Um resumo do processo metodológico de formação da EP mostraria que o partilhante narra sua história, atualiza suas vivencias, enquanto o clínico busca, pela escuta, apreende-las, fazendo  uma coleta do que ouve a partir de categorias,  aprimorando essa colheita propondo “divisões” temporais na história narrada e buscando especificar, discriminar o que  lhe permanece obscuro, fazendo processos de “enraizamento”. Com esse material atualiza, “monta”, constrói, “preenche”,”encarna” a EP dessa pessoa. Das múltiplas vivencias narradas, de tudo o que ouve, busca recolher seus sentidos e traduz, canaliza, traz para dutos pertinentes, para colocá-lo em modos que facilitem a absorção  pela EP.

A EP só estará constituída quando já estiver estabelecida como uma totalidade. E, como qualquer totalidade, a EP é composta de elementos – os “tópicos” – que se relacionam e se articulam mutuamente. Cada EP será um arranjo singular de pesos e importâncias desses tópicos inter-relacionados e de suas possibilidades. Mas só será EP quando for uma totalidade constituída, ainda que transitória.

Sempre tomada como totalidade, uma EP tem momentos estruturais que podem ser muito diferentes entre si. São relações ou arranjos tópicos (autogenias) diferentes que, às vezes, podem até dar a impressão de se tratar de outra estrutura. Mas é isso que caracteriza essa própria EP: essas diferenças são apenas a expressão da variedade de seus modos próprios de existir, e que, precisamente,  a definem e a distinguem.

A um tempo a EP poderá ser tomada como uma totalidade unitária, como conjunto e,  de outro como uma série de totalidades momentâneas, circunstanciadas. Em outros termos, a EP pode ser tomada sincronicamente: o tópico Autogenia, procura dar conta disto. E pode ser vista diacronicamente e, então será a vez da Autogenia como submodo. Como tópico há uma espécie de “congelamento do tempo” enquanto como submodo é “posta no tempo”. Portanto, na dependência da perspectiva ou do momento de quem observa, a EP pode ser tomada como uma unidade a ser investigada em suas relações constitutivas  ou também como uma unidade a ser investigada em seus movimentos e suas relações com o mundo, com os outros.

 A EP é este modo muito próprio de exercício que contribui para a possibilidade de responder  temporariamente, quem é esta pessoa. Autogenia, são dois modos de descrever como se produz esse quem.  E através do tópico Matemática Simbólica possibilitar modos de mudanças dessa pessoa. Esse quem se tornar um quem adequado a si. Por seus critérios.

Há todo um modo próprio de  prática clínica  a partir da Autogenia. Aqui é pressuposto sempre não perder o sentido da própria idéia de Autogenia desenvolvida acima, e as reflexões sobre o “eu” e ainda a natureza da EP. Isso não foi feito por acaso. Em outras palavras, manter presente a idéia de que o que se está fazendo é co-laborar com o modo singular desta pessoa se mover, gerar a si própria, tornar-se o que está sendo, o que quer vir-a-ser. Esse movimento envolvendo seu ter-sido, seu vir-a-ser, sua presença.

A matemática simbólica

A EP  não é uma forma que o clínico possa  perceber por seus recursos perceptivos ou sensoriais,  e também não tem uma essência que seja possível  apreender por meio do entendimento. A sua natureza seria mais próxima do campo dos símbolos. Eis porque Matemática Sinbólica. Na descrição disponível,   “o conjunto simbólico que tem por função ir desfazendo a linguagem verbal…e [que] gradativamente associa e substitui o atendimento verbal por outro que utiliza equações e conceitos” [pg 9 do Caderno de Mat Simbólica].

Pelas dificuldades do autor, talvez isto fique melhor expresso dizendo que a Matemática Simbólica é um outro modo de exercer a Filosofia Clínica, tomando por base a Autogenia já realizada de uma EP, reduzindo a ênfase da linguagem verbal, aumentando a importancia de outros recursos simbólicos. Vale dizer, tomar a pessoa como um todo e, a partir desta perspectiva, acompanhar suas relações existenciais com os outros, com as coisas, com as suas circunstancias.  

 Este modo de clinicar permite pensar a EP de alguém como um modo mais qualificado de “eu” – porque ela é passível de predicações existenciais. Não se predica a pessoa, mas esta espécie de símbolo dela, com elementos (predicados) existenciais.  Observar a EP de alguém é acompanhar um modo  que tem uma boa dose de  verossimilhança com as suas – da pessoa –  próprias vivências  existenciais, sem contudo confundi-las – a pessoa e sua EP.   A EP tem seu movimento, é informada e constituída pelo que a pessoa  experimenta, mas não é ela, não se funde com ela. É apenas  um artifício, um símbolo generalizante dela.  Esta abordagem é um modo clínico possível na Filosofia Clínica, que nasce e se realiza precisamente a partir das possibilidades abertas pelas características do tópico Matemática Simbólica. E será avaliada, caso a caso, pelo clínico, a oportunidade de seu uso. Ela  pode ser uma via para trazer bons resultados, frente aos Assuntos trazidos pelo partilhante.

Esse alguém que vem à clínica tem a sua constituição, sua composição existencial própria, que faz ele ser  como  ele é. A composição dos tópicos na sua EP, como eles se interligam entre si, e quais são e quais não são importantes define sua Autogenia [como tópico]: aquilo é próprio a si e a origem dessa sua propriedade.  A EP busca trazer o que é o mais próprio dessa pessoa,  em uma dimensão diferente, virtual, em que se pode compreender as origens dessa composição existencial que é só sua, diferenciando ou aproximando de outros momentos estruturais de sua vida.  A EP dessa pessoa anos atrás pode ter tido uma configuração quase irreconhecível, frente ao que apresenta hoje. ´

Num exercício de imaginação seria possível notar como as circunstâncias vividas nesse período alteraram sua EP, sua Autogenia, compuseram suas muitas configurações autogênicas. Alguns tópicos perderam a importância relativa que tinham e deram espaço para a proeminência  de outros, de novas relações, variações, surgindo arranjos, inter-relações muito diferentes. Mas suas configurações sempre são próprias, sempre são suas, como modos de se relacionar com os assuntos que tratou e cuidou nesse período, o jeito que se relacionou  com o tempo, os lugares existenciais em que habitou, as coisas, as pessoas com que conviveu. E sempre foi ela quem gerou isso que ela foi sendo. Suas diversas autogenias, nestes anos. Com algum grau de independência de sua vontade, de sua consciência, de suas intenções. 

A pessoa deixa de ser propriamente ela mesma quando age de modo diverso daquilo que parece lhe ser próprio? Mas este modo que parece impróprio, inautêntico, não é propriamente aquilo mesmo que lhe é próprio? Há estado de inautenticidade, do ponto de vista estritamente existencial? Este é um aspecto que pede muita discussão. Não é, entretanto, o tema deste texto. Fica a provocação.

Um certo modo de exercício

Um exercício imaginário que se poderia fazer seria observar como a  EP de alguém  se relacionou com os infindáveis contextos em que a pessoa  esteve envolvida. Como foi que se comportou, se movimentou? Talvez tenha havido momentos de intenso constrangimento, em que a sua sobrevivência física ou de algum de seus próximos foi quase que a sua única preocupação. E outras em que numas férias naquela praia, caminhando plena de um vazio aconchegante  reencontra inesperadamente aquela que foi e virá novamente a ser sua grande companheira de trocas existenciais.

Nessas 2 circunstancias tão contrastantes como foi sua relação com sua consciência, com seus impulsos? Deixou sua EP, por si só procurar seu caminho ou havia intenção, vontade nisso? Confiou em seus recursos desconhecidos, não racionais, inconscientes?   E o clínico que a acompanhava, com o que podia contar?

A Autogenia oferece  um modo característico e diferente de  prática clínica. Para não perder  o seu sentido é importante o leitor ter em mente  as reflexões sobre o “eu”e , a natureza da EP, desenvolvidas anteriormente. Isso não foi feito por acaso. Em outras palavras, fique sempre conectado com a idéia que o que se está fazendo é tentar descrever um modo clínico que não deixa de lado a questão: quem é essa pessoa, autogenicamente. Como o clínico pode co-laborar com o modo próprio dessa pessoa se mover, fazer a si, tornar-se.

Este é um campo com poucas referências. Sem certezas. Com o que se pode contar talvez seja esse movimento que envolve seu ter-sido, seu vir-a-ser, sua presença. E será por isso que a atenção para os contextos vividos pela pessoa são tão importantes.  Perceber qual é o momento vivido, quais suas bases categoriais, quais são seus vizinhos, que papel exercem em sua vida. Hstoricidade, bases categoriais.

Esta pessoa talvez tenha se dado bem em algumas circunstancias  “ao se jogar” ao que lhe fazia sentido, mesmo com ampla resistência das pessoas com as quais convivia. Havia só umas poucas que apoiavam seu movimento.  Foi muito expressiva sua experiência de se lançar ao desconhecido, sua vida se modificou, passou a viver uma ampliação de horizontes com que nunca sonhara.

Para o clínico essa pode ser a tarefa. Pesquisar como ela fez em outros momentos de sua vida e quais elementos foi possível perceber no processo de historicidade que trouxe esses elementos. Às vezes  é  possível retomar algum momento, conversar um pouco, rememorar, desdobrar aspectos ainda pouco claros, trazer recursos para fortalecer seus vínculos com novos vizinhos, buscar composições com elementos que estejam no horizonte de possíveis. Reparar como foi para ela as experiências passadas, perceber se ela coloca mais atenção nos ganhos  possíveis ou nas possibilidades de fracasso.  Ao olhar para trás a pessoa vê os bons momentos ou o que não quer mais viver. Reparar o que lhe importa nessa experiência, o que lhe impulsiona, qual o peso de seu desejo, de sua intenção. Talvez aqui ela não esteja mais “solta”. Sua EP já não estará condicionada. Ao  ter uma intenção, já não tem uma espécie de pré-controle do futuro?

Ao imaginar  ir em direção a um ganho autogênico,  não é incomum  a pessoa já sentir falta de  pessoas, coisas, hábitos,  por antecipação.  E aqui, também, quando ela começa a pesar perdas e ganhos, já volta a uma predominância de referências estabilizadas, fazendo uma espécie de contabilidade existencial. Muito razoável, no mundo estabelecido, porém, talvez contraproducente no universo das Autogenias com movimento verticais. Esse é um  movimento característico de autogenia horizontal.

A  pessoa em movimento vertical ao conseguir atingir certos estágios  autogênicos [na Filosofia Clínica esses “estágios” são chamados de “patamares”, para evitar a idéia de sequencia]  e  passar a viver num ambiente bem diferente daquele que vivia,  pode  ser que  sofra pela falta da vizinhança com a qual tinha grande familiaridade. O surgimento de novos vizinhos, novos hábitos, novos lugares com que ainda não tem familiaridade pode ser temporariamente difícil.  Nesses movimentos alguns elementos de sua base original podem se refazer no novo ambiente, mas isso nem sempre é assim.  Pode se formar  uma nova turma, uma nova família, mas, pode ser que isso não aconteça  e a pessoa continue fixada no momento  existencial anterior.

Para poder lidar com isso o clínico ao acompanhar os movimentos da pessoa deverá estar especialmente atento à importância que vinha sendo dada às suas novas vizinhanças. Este é um modo em que é possível estar próximo das novas circunstancias vividas e poder perceber como as coisas estão andando, com quem ela está se relacionando, de que modo e assim por diante. Algumas vezes a pessoa ao mudar de patamar autogênico, mantém relações com seu ambiente anterior, porém, não é raro que a maneira como essa relação passa a se dar, se modifica. Se antes havia uma identificação de papéis existenciais, por exemplo, é possível que isto desapareça, mas que a relação de amizade, por conta de outros atributos da relação – como a memória de emoções vividas – se refaça. 

Certamente haverá muita incompreensão de parte a parte quando buscar argumentar ou decidir algo já a partir de seus novos modos de ver, e se defrontar com aquele ambiente, que continua a operar nos moldes anteriores. Querer permanecer obedecendo aos mesmos critérios e obter aquilo que só está disponível em outro ambiente que tem suas próprias regras é algo com pouca probabilidade de bons resultados. Não dá para mudar permanecendo onde se está, existencialmente.  Os livros de auto-ajuda, algumas linhas de terapia de base comportamental vendem essa ilusão:  seria possível mudar seu comportamento sem todo um movimento existencial complexo, que implica perdas, riscos etc. E é por isso que as mudanças provindas desses recursos são só temporárias. Quando chegam  as exigências dos novos lugares existenciais, não há força, critérios desenvolvidos, convicções amadurecidas, sentidos experimentados e conectados com os processos autogenicos .Não se alterou o modo de produzir a si próprio. 

Na Filosofia Clínica a aproximação feita pelo clínico aos mundos da pessoa é feito via EP, espécie de consolidação simbólica dos principais traços provindos da sua historicidade. E por ela que é possível acompanhar seus principais movimentos existenciais, seja de crescimento, de queda, de estagnação.  Ao trocar os vizinhos pode ser que esteja mudando seu patamar autogênico. Às vezes não é isso, mas é apenas  um movimento  pontual, de mudar certas contingências, certos hábitos, certas relações. Na clínica o caminhar do terapeuta deve ser sereno e atento.

A movimentação autogênica pode ser instável. A pessoa pode estar se sentindo bem, e no momento seguinte está no maior baixo astral, pode estar animadíssima ou entediada, deprimida ou motivada. O critério clínico será sempre a base categorial da pessoa, suas tonalidades afetivas predominantes e não  seus estados emocionais atuais. A avaliação deve ser pela escuta das circunstancias recentes vividas, vinculadas com sua EP, e não seus “estados”.

Nos pocessos clínicos exercidos via Matemática Simbólica, no ambiente autogênico da pessoa, a atenção do clinico deve estar também nos critérios usados pela pessoa. Não é raro a pessoa  chegar  numa determinada consulta, durante o processo,  com referencias, valores e opiniões muito diferentes de seu hábito. Isso pode ser observado comparando o que ela está vivendo com seus novos vizinhos. Estes são valores, referencias desse mundo q ela passou a freqüentar ou é parte de um mundo criado por ela. E o clínico deve reparar também se há uma certa estabilidade nessas novas referências  Quando a pessoa está em mudança pode ocorrer que  seus parâmetros mudem só temporariamente. É observando os vizinhos q é possível verificar se a pessoa está em movimento de criação de “novos mundos” (ascendente, de riscos, vertical) ou de estabilidade (tranquilidade, segurança, horizontal). Se for um momento de criação os vizinhos atuais provavelmente não conversam com os vizinhos anteriores, enquanto q se o movimento for de sossego as referencias dos vizinhos tendem a permanecer as mesmas. Em certos momentos criativos o rompimento com padrões anteriores pode ser muito forte a ponto da pessoa eliminar de sua vida certos elementos que até então eram os mais importantes,  determinantes: um namorado, a família, um emprego. Com fortes vínculos com seus novos vizinhos a pessoa pode não querer  mais voltar ao mundo em que vivia. É claro que há sempre risco. E é claro que deve ser observado o que é específico deste caso, singular a esta pessoa em atendimento. 

Ainda outros aspectos

Com o risco de se tornar monótono, o autor não pode deixar de ressaltar mais uma vez a  importância predominante da atenção para as bases categorias, para o mundo de onde a pessoa vem, para onde se dirige, onde está. Secundariamente, durante os momentos de reflexão e planejamento, o clínico pode fazer, para si,  certas aproximações, levantar  hipóteses, para observar as movimentações nas relações e pesos tópicos, que estejam ocorrendo.  Certas coisas podem estar se modificando ou deixando de ter validade (“não acredito mais que a virgindade é sinal de integridade pessoal”). Nunca é demais lembrar: aquilo q constitui a EP está vivo, em conversação permanente, com as coisas do mundo, as pessoas, consigo etc.

Ao filósofo clínico compete acompanhar esses movimentos existenciais, conversar sobre as novas vizinhanças,  sempre garantindo proximidade com a pessoa. Caminhar com ela onde e como ela estiver. Respeitar seus modos de expressão, de ódio, de amor, de indiferença. Certos modos da pessoa podem estar muito distantes daqueles já vistos pelo clínico, porém, fazem parte de seu ofício procurar compreender  os modos diversos, diferentes de viver e de se expressar que a  pessoa experimenta.  Se o clínico não tem referências em suas experiências pessoais pode explorar um pouco a historicidade da pessoa para ir se aproximando desses mundos de referências.

 Como diferenciar quando se deve interromper uma clínica que está se fazendo por esses movimentos  autogênicos e buscar uma intervenção tópica? Talvez quando o clínico começar a perceber que os movimentos da EP nos seus mundos circundantes, nos contextos de convivências, começam a não fluir como de hábito. São indicações que surgem nos seus relatos, nas suas expressões corporais, faciais, em gestos incomuns, o surgimento de fatores existenciais novos. O modo de lidar com isso pode ser retomar vínculos com momentos da historicidade, procurar indicações de intervenções clínicas já feitas e provocar situações que pelas reações possam dar alguma indicação do que está ocorrendo.

Uma maneira que pode ser útil, em alguns casos, é atentar para os modos como essa pessoa trabalha a si própria. Como é sua autogenia, até aqui?  Quando algo novo surge na sua vida, como ela age? Se for um problema de difícil solução, ela se desespera ou age no modo “Rita Lee” (“tire isso da cabeça, põe o resto no lugar..”). Há casos em q a pessoa permite que sua EP como um todo, dê um jeito de se reorganizar. O modo de clínica via Autogenia, através da Matemática Simbólica, abre espaço para eventual legitimidade de “conhecimentos-desconhecidos”, de base não racionalista, apoiados em saberes intuitivos. E isso não implica irresponsabilidade, antes, reconhece os limites do conhecimento no campo humano.  Este modo de trabalhar, entretanto, é para algumas pessoas, alguns modos de organização estrutural.

Com uma  EP com bom funcionamento nas relações tópicas – sem grandes conflitos e choques  – essa própria configuração inclina a EP para lugares  existenciais adequados. Uma EP assim pode se encontrar, circunstancialmente isolada em um ambiente desconhecido, mas tende a encontrar rapidamente modos de ajustes e formas de comunicação com os vizinhos que vão se apresentando. Não há como a priori saber se um novo elemento vai permanecer e se incorporar à sua vida ou se é um elemento apenas de passagem. 

Num momento de grandes mudanças, sempre se diz que há riscos e oportunidades, ameaças e possibilidade de ganhos e reconhecimento. Uma EP com boa fluidez,  pode assimilar uma série de recursos que não se dão a observar, a perceber, na vida corrente. Estando livre das principais contingências existenciais, pode aproveitar modos de apreensão que podem lhe facilitar decisões de vida, impensáveis em seu modo cotidiano habitual.

Não é raro nestes momentos em que a pessoa tem que tomar alguma decisão importante, que ela crie uma porção de limites imaginários e barreiras psíquicas que se tornam insuperáveis.  Fazendo isso abre mão de possibilidades que, talvez,  a sua força estrutural poderia lhe trazer.  Esse caminho de soltar-se à sua força “estrutural”, deixar que “sua EP” (esse modo de fazer-se a si, do tornar-se- si-próprio, que levou toda a vida construindo) faça o papel que já é dela. Como se observa em certas pessoas que parecem portadora de uma força excepcional nesses momentos, ou ainda aquelas pessoas das quais se diz “puxa, como ela é auto confiante …como é que consegue fazer isso, nessas circunstancias!”. Mas ao clínico resta a questão de como proceder, como saber se a “EP”  desta pessoa não vai encaminhá-la  para um caminho perigoso? Aqui se volta ao começo e ao sentido deste trabalho. Quem é esta pessoa? O que é próprio a ela? Como ela produz e se torna o que é?

 Uma pessoa “solta”, auto-confiante, possivelmente (mas, não obrigatoriamente) tem sua organização estrutural para direcioná-la, algo como o “submodo Zéca Pagodinho”: “deixa a vida me levar, vida, leva eu…” E isso pode não ser  uma “loucura” mas, algo sensato. Afinal,  esses  caminhos já podem estar como que  previamente estabelecidos, pela fluência com que a pessoa se relaciona com suas  vizinhanças conhecidas ou próximas.

Vizinho é um nome que se usa nestes procedimentos de clínica autogênica para os chamados  fatores  de similitude,  que são elementos que podem interferir, reparar, encaminhar para as coisas e lugares, próximos, familiares. Vivências anteriores podem se propagar e conversar, se relacionar com vivências atuais, surgentes, sem que a pessoa se dê conta. O curioso é que isso é quase uma circunstancia comum, ordinária da vida, um recurso do ser humano, que é desprezado, deslegitimado pelo modo de conhecimento predominante. Na clínica quando é possível um direcionamento com esta base, é dos melhores destinos existenciais possíveis à pessoa.

Uma caso inventado de procedimento baseado na autogenia

Dá pra imaginar q Hanna deixou sua EP vagar livremente, a ponto de lhe trazer uma perspectiva absolutamente diferente daquelas que suas vizinhanças habituais lhe trariam.  Se não for assim, como compreender o surgimento dessa nova perspectiva de seu olhar, tão distante dos critérios, das referências culturais, epistemológicas, sociais, axiológicas de seu ambiente intelectual e existencial, predominante naquela Nova York, de então.

Mas como isso foi possível?  Tudo indicava um desdobramento completamente diferente. No seu mundo circundante este modo de enxergar as coisas era algo simplesmente inconcebível, inaceitável.  Mas algo lhe passara na mente e ela teve a sorte da proximidade de Malcolm, seu filósofo clínico. Mesmo este, acostumado ao flutuar dos movimentos da EP de Hanna, ficou muito espantado. Percebeu que se tratava de uma poderosa intuição que lhe visitara. Uma forte transversalidade, na sua linguagem da Matemática Simbólica. Não era um movimento existencial vertical /ascendente, nem horizontal/ estabilizado.

Mas uma coisa é reconhecer o fenômeno, na clínica e outra é como lidar, acompanhar e ajudar sua partilhante a lidar com ele.   Ela sabia que havia alguma coisa naquela situação que fazia um sentido completamente diferente do habitual para ela. Como é que ela pôde passar a ver naquele homem que admitia com a maior naturalidade, sem qualquer culpa ou constrangimento, ter sido o agente das maiores atrocidades frente a um numero enorme de pessoas? Como ver um homem atrás disso? Como prestar atenção e ponderar suas “razões”? Razões?

Neste texto não importa a questão propriamente, mas como foi possível a Hanna lidar com ela e como Malcolm procedeu como clínico.  Isto é só um exemplo, inventado.

 Ali havia um fenômeno que ela vislumbrou e que a sua vizinhança atual não lhe dava permissão nem de considerar. Malcolm lembrou-se do relato que ela lhe havia feito, muito tempo atrás, de sua experiência de sair da casa de seus pais, com menos de 20 anos para seguir uma intuição poderosa, de estudar filosofia, nos confins da Alemanha, com um jovem professor que vinha impressionando o mundo intelectual por suas teses revolucionárias, na fenomenologia, vinculando existência e ontologia.

Aquelas circunstâncias, vividas quase 50 anos antes, mudaram por completo o sentido de sua vida. E de tal forma que direcionou praticamente todos os aspectos de sua existência. Esse modo de confiar e seguir as intuições que lhe visitavam foi seu modo pela vida afora, nos momentos das grandes decisões. Nela, uma exímia intelectual.  É claro que isso aconteceu, com intensidade menor, com menores repercussões, mas, sempre com resultados favoráveis.

Desta vez, entretanto, a dimensão era incomensurável: a sua própria identidade estava ameaçada; tinha o risco de perder o trabalho na universidade – que adorava – seu prestígio na imprensa e na intelectualidade, seu reconhecimento público, social, seus amigos etc. Mas talvez fosse mais uma vez uma oportunidade de ampliar os sentidos de sua vida própria, de si mesma. De des-mesmificar o seu si próprio. Bem no cerne de sua Autogenia, de suas relações tópicas, do peso de cada uma neste re-arranjo.

É claro que essas reflexões foram feitas por Malcolm. Que pouco a pouco foi pesquisando modos de apoiar os passos de Hanna na direção que ela vinha traçando.  E não deu outra: com o apoio aos movimentos com vistas a reforçar seus vínculos com os novos vizinhos que se apresentavam, ajudou-a a criar um bom afastamento das vizinhanças que lhe pareciam perniciosas e dificultantes para o desdobrar dos desafios que a nova configuração exigiria dela. Não é preciso dizer, leitor, como, depois da situação passar, Hanna, consigo mesma, com Mary, e com outros poucos, pôde viver uma ampliação de seu ambiente existencial inimaginável, a princípio, para uma pessoa de sua idade e já tão consolidada.

Ainda algumas considerações

Como compreender que uma EP pode oferecer para a pessoa uma maneira de observação sobre si, tão diferente? É quase certo que por raciocínios e relações habituais a pessoa não chegaria a tantas possibilidades. Os caminhos podem ocorrer por transversalidades, mas também podem ser traçados pela pessoa  por horizontalidades ou  verticalidades. Um modo é construir novas vizinhanças.  Os elementos horizontais são os que estão na mesma base existencial, na mesma “realidade”, no mesmo campo.  Quando a pessoa quer sair dessa “realidade” é uma indicação de movimento com vetor para verticalidade.

O elemento que mais dificulta qualquer movimento autogênico é  a intenção e controle. Se a pessoa quer mudar mas quer garantia, certeza etc, tende a não mudar. Esse é o grande freio para o movimento autogênico, vale dizer, para criar condições para q o próprio se engendre de uma nova maneira para si.

Há muitos aspectos da vida que são incompreensíveis para a base categorial em que se vive. Uma das mais constantes é expressa pela idéia de “coincidência”, como se a “incidência” de algo comum não pudesse ter sido produzida, gerada com alguma relação com alguma outra coisa. Não é preciso entrar no mundo racional de causa-efeito, para poder observar certas relações – de natureza ainda não referenciada e admitida como corrente – que relacionam elementos que incidem juntos.

Em todo o ambiente da Autogenia, da aproximação da origem e modificações daquilo que é próprio a alguém, do modo como se pode ter certos vislumbres de quem é essa pessoa  será sempre imprescindível a historicidade da pessoa, os exames das categorias e a formulação da  EP. Sem isso não há Filosofia Clínica. O âmbito aberto pela Autogenia traz possibilidades e recursos importantes para o desenvolvimento da clínica. Mas há que se ir com prudência e serenidade, porque sendo campo de pesquisa e envolvendo muito de perto destinos humanos, a possibilidade de interpretações esquisitas é muito grande. Não é raro observar colegas – aderindo ou rechaçando –  que entendem o trafegar neste campo delicado de conhecimento-desconhecido, em que se dá boa parte de nossa experiência humana, como justificação de  compreensões esotéricas, religiosas ou delirantes. Nada mais longe do que se propõe como Autogenia.  Leitor, faça o seu percurso. A caminhada, só ela, já vale a pena.

Afinal, permanece a questão:  quem é esta pessoa?  

Walter Benjamin O colecionador de insignificâncias

A alcunha lhe cabia tanto pelo hábito de recolher aquilo que o mundo julgava irrelevante (borboletas, pedaços de papel, bonecos velhos, relógios antigos) quanto pela maneira como ele próprio se percebia: um insignificante, um estrangeiro diante de um mundo em guerra.

Para o pensador alemão, o colecionador é o mediador da circulação dos objetos, aquele que movimenta seus ciclos de vida e morte, de exibição e apagamento. Não se limita a recolher coisas: deposita nelas suas memórias, afetos e vestígios, fazendo de cada objeto um corpo externo onde parte de sua própria existência se prolonga. Colecionar, assim, seria menos um gesto de posse do que uma tentativa de inscrever-se no mundo através daquilo que se preserva. Os objetos contam histórias e criam narrativas.

Trago para esse texto o conceito benjaminiano de história. Para Benjamin, as memórias não se organizam linearmente; elas surgem como reminiscências, relâmpagos que irrompem e se conectam, encontrando repouso e inscrição no único instante que existe: o presente. Não há uma história continua, planificada, objetiva, manipulável ao bel-prazer da razão. Todas as memorias não passam de representações e percepções que acontecem agora, neste instante e em nenhum outro.

Ao citar episódio do passado, retira-os de seus contextos originais e, de certo modo, os destrói. Mas talvez essa destruição seja também uma aproximação da origem, entendida não como começo cronológico, mas como redenção. Para o filosofo, felicidade seria precisamente isso: uma vida redimida, uma vida capaz de absorver o passado no presente.

Para Walter Benjamin, as memórias que já não são podem ser salvas; já se cristalizaram como memória e já se inscreveram em nossos corpos. Tornaram-se imagem, vestígio, ruína. O que pode ainda ser salvo são as memórias que ainda não são, aquelas que permanecem em suspensão, aguardando inscrição. Mas essa salvação exige uma espécie de redenção diante do passado já constituído. É preciso reconciliar-se com as ruínas, atravessar os escombros daquilo que fomos, para que presente não continue apenas repetindo a catástrofe. Só então a memória deixa de ser prisão e se torna possibilidade.

“a existência caminha em direção à origem. E no último dia, origem e destruição finalmente se encontram; o tempo se encerra, os espaços desaparecem. Esse intervalo é tudo o que nos resta”

O passado nada mais é do que a atmosfera do narrador. A essência da vida é o presente, e apenas de maneira mítica podemos habitar passado e futuro. Talvez passado e futuro sejam apenas modos populares de nomear a vida.

A história de uma pessoa, além de poder se inscrever nos objetos, está inscrita nela mesma: em cada ruga, em cada vinco, em cada lágrima. Toda expressão do corpo é expressão de uma história. E tudo aquilo que atravessa o nosso tempo é também expressão trágica da própria história humana. “

a girafinha de plástico

Essa história traz em si os dois germes encobertos pela casca dura e encrespada da existência: tragédia e poesia. Uma mãe e uma criança; entre elas restou um signo de luz, uma girafinha de plástico.

A família já era grande: pai, mãe, dois meninos e duas meninas. Mas chegaria mais um filho. Não lembro, pelo relato de minha paciente, uma das meninas da família, se a quinta criança seria menino ou uma menina. A criança nasceu e foi se acomodando ao tempo e ao espaço, no seio de uma família que vivia bem, em boas condições materiais sob os afetos expressos do pai e os afetos escondidos da mãe.

O pai era o tempo parado, inspiração dos dias; era o ar. A mãe era o tempo corrido, pura expiração; era a terra. Nesse equilíbrio, harmonizavam-se na rotina dos dias úteis, esperando o fim de semana como se o fim fosse capaz de iluminar e acalentar a semana de escola e trabalho, de vozerio, cadeiras arrastando, aromas de pão e café.

A praia, no litoral de São Paulo, era o destino. Sempre que o tempo fazia sua parte e o sol dava o ar da graça, a vida se tornava mais leve e feliz. E lá iam os sete. Eram sete.

 

No final do domingo, com cansaço e sorrisos de meia satisfação no rosto – satisfeitos pelo bom uso do tempo, insatisfeitos com a segunda-feira q os aguardava- – voltaram a para São Paulo. Mas o sétimo da trupe, o quinto filho, ainda com dois anos incompletos, apresentou uma febre insistente: subia, baixava, voltava a subir. Tentaram contato com o pediatra, mas não conseguiram. Amanhã seria segunda-feira, dia útil por excelência. Utilidade é isso: resolver os espinhos da existência. Levariam a criança ao médico.

Lá pelas tantas da madrugada, com a febre mais calma, a mãe gentilmente o acomodou no bercinho que já havia aconchegado quatro crianças. Naquele instante, não imaginava estar se despedindo do filho. Mas é assim: todo instante traz em si a potência do não, do não mais, do nunca mais.

Ela acomodou a girafinha sob os bracinhos delicados da criança, adormecida exausta pelos processos metabólicos da febre e pela luta desleal e covarde que se travava no interior de seu frágil organismo diante de uma bactéria que rapidamente venceria a batalha. A girafinha permaneceu com os olhos abertos e assistiu ao menino e à morte do menino, que amanheceu, ou melhor, não amanheceu.

Essa história aconteceu há muitos anos. A mãe, com  ar de dignidade ofendida, sempre resolutiva e pragmática, deixou o quarto com o bebe enrolado em um lençol branco; o pai vinha logo atrás, aos prantos, afetado pelo trágico da existência. Saíram de casa, deixando para trás a escada de crianças, umas após as outras, do mais velho ao mais novo, enquanto seguiam em direção ao “hospital”, para tratar a doença do bebê.

Minha paciente, autora verbal do presente relato, tinha cinco anos, mas guarda de modo irreversível a cena do irmão envolto em um lençol branco sendo levado de casa para todo o sempre.

Segundo ela, o pai jamais superou o episodio e nunca mais voltou a ser o homem de antes. Carregou consigo, até o dia da própria morte, o cadáver simbólico do filho e uma culpa plasmada a partir da inação daquela noite quando talvez pudesse ter agido e mudado o destino da vida da criança. São tantos os “se” que nos penetram. E, em situações-limite como essa, o “se” pode ser devastador e levar consigo outra vida.

Essa é a vileza da existência: um tempo que não volta, irremediável, inescapável. O que acontece não se “desacontece” jamais. Por mais q tentemos fugir, permanecerá sempre presente, de um modo ou de outro.

O pai morreu cedo.

A mãe , mulher enérgica, pragmática, resolutiva, professora respeitadíssima na Universidade de São Paulo, não se permitiu entregar os pontos. E seguiu. Faleceu há poucos anos, quase centenária.

Alguns anos atrás, mais de cinquenta anos após a morte da criança, minha paciente encontrou por acaso, em uma caixa no guarda-roupa da mãe, em meio a roupas  e mais roupas, como que ocultando certa forma de vergonha ou fraqueza, a girafinha de plástico que sobrevivera à criança que morrera abraçada a ela. A girafa tornou-se depositária do afeto difícil daquela mulher  que, na beleza silenciosa de um gesto, preservou a pequena peça de plástico à qual recorria sempre que a saudade insuportável da criança retornava.

E aquele objeto, destinado talvez à doação ou a algum lixão, tornou-se vivo para essa mulher cuja casca grossa era apenas um modo de sobreviver, mas que continha dentro de si um amor poderoso e q precisava justamente dessa casca para continuar existindo.

Não apenas nós, seres humanos, somos carregados de história e somos a partir de nossas histórias. Também os objetos são históricos e podem trazer em si, como que imantados em sua forma, um tempo que passa sem passar e que se atualiza sem cessar, rearticulando-se com o instante presente. Como uma simples girafa de plástico, comprada em um dia qualquer, muitas décadas atrás….”

Ensaio testemunho: recomeçando e continuando

Angelo Ricardo de Almeida Guarnieri

Às vezes, é preciso dar o primeiro passo

É preciso começar de algum modo. Toda vez que vou iniciar um novo texto, existem as preliminares. Primeiro, a sensação de que será uma escrita inútil. Depois, que poderia ser a escrita mais revolucionária de todos os tempos. Entretanto, se me fosse perguntado qual dessas duas sentenças vem primeiro, eu não saberia o que responder, ou melhor, depende. Depende do momento em que estou vivendo, ora uma, ora outra e ora nenhuma.

            É certo que o tempo foi aumentando a minha consciência crítica. E quanto mais crítico, menos linhas foram escritas e mais consciência de que menos ainda teria a dizer. Também sei o quanto essa procrastinação me é pertinente. Com isso, tenho todas as desculpas para adiar o que seria uma tautologia literária.

            Contudo, nem sempre posso furtar-me aos deveres daquilo que me proponho profissionalmente. Dessa forma, já me justifico logo de início, sem muitas delongas. Desconfio de tudo aquilo que se diz profissional, a despeito de usar, muitas vezes, esse predicativo em meus discursos e práticas trabalhistas, afinal referir-se a um trabalhador como profissional é trazer o discurso para o lugar de autoridade. E aqueles que não se encaixam nesse sentido estão condenados ao amadorismo e estes não poderão usufruir de todos os benefícios de serem classificados como profissionais. Apesar disso, sinceramente, tenho muita dificuldade para decodificar o que seria, de fato, um trabalhador profissional.

            Um trabalhador profissional seria alguém mais competente que um trabalhador amador? Talvez sim, parece-me, pois, que são justamente os profissionais que alcançam os melhores resultados. Talvez não fosse possível a bomba atômica sem um profissional. Claramente essa discussão poderia incorrer no risco de amaldiçoar os profissionais em detrimento da incompetência e não é essa a minha intenção, mas apenas trazer luz às diversas possiblidades de interpretação de um conceito ou de uma palavra.

            A ideia é discutir a minha aventura de iniciar uma nova jornada depois de mais da metade da vida passada. Isso mesmo, passada, porque vivida, apenas na memória e nos parcos lapsos de que os sentidos ainda me trazem algum frescor. Às vezes, gostaria de congelar alguns momentos como em uma cena com diálogos, sensações e trilha sonora. A dura realidade, porém, é que o tempo tem sido muito mais implacável agora que outrora. Aprendi que estou nos meus últimos melhores anos que ainda me restam.

            Talvez alguém que leia o parágrafo acima possa achá-lo muito triste ou deprimente. Mas quero tranquilizar o leitor. Primeiro, escrevo isso para me tranquilizar. Segundo, apesar de achar que uma vida não basta para viver tudo que ainda espero viver, também tenho plena consciência da minha finitude e da minha impotência diante do tudo.

            Depois de meses procrastinando a escrita deste texto, hoje resolvi começar a digitar as primeiras linhas. Claro que antes me distrai com muitas outras coisas: olhar mensagens do WhatsApp inúmeras vezes; ver vídeos aleatórios nas redes sociais; ler notícias sempre de política e, às vezes, dar uma espiadinha no Corinthians (minha perdição); publicar ou gravar um videozinho desopilador nos meus canais; revirar vídeos e fotos antigas de amores presentes e passados; rever os projetos que estão engavetados no backup do notebook e, por fim, dar aquela espiadinha na biblioteca virtual de centenas e centenas de obras que morrerei sem jamais lê-las.

            Neste último ponto de distração é que mora minha maior queixa e, paradoxalmente, minha libertação. Se, por um lado, seguro-me o máximo que posso para não chatear os outros com minhas idiossincrasias, minha pequenez diante do gigantismo da obra humana, por outro, às vezes, preciso também libertar meus demônios, colocar para fora tudo aquilo que me atormenta, daí o grande reencontro e ao mesmo tempo uma descoberta da minha singularidade. 

            De certo, Nietzsche tinha razão em Ecce Homo quando sentenciou que não devemos ler muitos livros a despeito de nos perdermos nas ideias alheias e não encontrarmos mais quem de fato somos nós e quais ideias seriam nossas de fato. Paradoxal e provavelmente, Nietzsche apenas se tornou esse gigante do mundo das ideias depois de comer todas as ideias e a história da Humanidade. Foram as muitas vozes, os eus e os outros de Bakhtin, que possibilitaram e possibilitam o nosso alargamento singular. 

            Sem dizer que tudo que acabo de escrever não é nada mais, nada menos, que as minhas interpretações e meus desejos de que assim sejam. Ainda incorro no risco de ter feito todas essas intepretações de modo incorreto, seja pela preguiça, seja pela incompetência hermenêutica. É a minha singularidade enganando-me, enquanto eu mesmo a engano no limite vocabular da minha semântica.

A (re)volta da filosofia clínica

            Ao menos comigo é assim. Neste ponto sou partidário de Schopenhauer, o mundo é aquilo que consigo representar a partir de mim mesmo. Obviamente, este mundo que vejo e no qual vivo, segundo minhas interpretações, está cheio de lacunas, tanto visíveis quanto imperceptíveis.

            Recorro a Miles Davis, que disse certa vez: “Não toque o que está lá, mas o que não está.”. Isso para dizer da minha aventura em adentrar por um continente totalmente inóspito para mim, a filosofia clínica.

            Certo de deter o mapa da filosofia, afinal já era graduado e experimentado nessa seara há pelo menos duas décadas e meia, pensei que poderia ter um afinamento muito mais gingado para bailar essa balada. Ledo engano, lembrei-me de um ensinamento popular, só morre afogado quem já sabe nadar. Confiança em demasia está a um passo para a prepotência e para o erro, o que pode ser fatal. E aqui estou recorrendo aos tópicos: ‘epistemologia’, ‘axiologia’ e ‘como o mundo parece’ e muitos outros que poderão vir.

            Entretanto é impossível esquecermos tudo que nos tornamos ao longo de uma jornada, com exceção, claro, do Alzheimer, mas parece que ainda não é o caso. E por isso Davis inspirou-me como uma fresta de coragem e ousadia. Sabia que, com muito afinco e dedicação, poderia compreender este novo mundo. Também tinha consciência de que todas aquelas leituras e o modus operandi até aqui me serviriam para alguma coisa. Enquanto isso, Rubem Alves me atormentava com seu lirismo filosófico bebido e deglutido com Adélia Prado, ou seja, é preciso esquecer o que se sabe se quiser aprender o novo.

            E daí se vão tropeços e mais tropeços, afinal, como esquecer o que supostamente já sabemos para dar lugar àquilo que nem imaginamos? Clarice Lispector é ainda mais implacável, afinal como achar que a liberdade é pouco, já que o que ela queria ainda não tinha nome. Era poesia demais e esclarecimento em ausência demasiada.

            Sim, lembrei-me do velho Abu (Antônio Abujamra), que me disse certa vez, citando a própria Clarice. Às vezes, é preciso olhar por detrás da própria cortina, ou então fica-se preso à própria ignorância. Nesse ponto, Paulo Freire é libertador. De um lado, a ideia do inacabamento, jamais estaremos prontos, estamos sempre em se fazer e refazer. Do outro, ou talvez quem saiba, ainda deste lado, ou de todos os lados, a ressignificação. Eureka, isso mesmo, os sentidos, as verdades, os caminhos, enfim, as ações todas estão sempre por vir. É a dialética do devir.

            Aquilo que parecia apenas poesia e filosofia pueril fica ainda mais claro e vívido. A vida é aqui e agora, porém somente se amplia na medida em que vou recheando e consultando meu repertorio guardado e relembrado, deparando-me com os senões.

            Improvisar não é uma regra, mas como não? Diante de tanta complexidade posta no dia a dia da chamada vida vivida, algumas horas que não passam de minutos, ou segundos são como algo que fosse explodir dentro do peito. Daí é a hora de recorrer ao repertório. Sim, partirei de um imperativo, tópico 18 – Axiologia, somente improvisa bem quem conseguiu construir um bom estofo.

É bem verdade que nem todas as nossas experiências são passiveis da racionalização imediata. Neste sentido, o quero dizer é muito simples, ou seja, nossos sentidos captam muito mais o que expomos ou o que utilizamos no momento da experiência. A neurociência tem trabalhado nisso há um bom tempo, fenômeno da memória seletiva que a arte e a filosofia já bisbilhotavam há séculos com Fernando Pessoa, Aristóteles etc.

Por isso Davis era tão genial, pois toda competência técnica que lhe era peculiar, e não era pouca, nem conhecida, consistia justamente no campo da ousadia, da experimentação e do uso deliberado da criatividade em que residia sua arte de tocar aquilo que não estava lá. Mas, afinal, ele era mágico? Não, ele tinha um estofo tão deliberado das amarras técnicas que se dava a oportunidade de encantar e emocionar a si e a todos que tinham a oportunidade do deleite da sua arte.  

Dito e escrito, faço-me introduzir nesse mundo que me esperou por duas décadas. Na verdade, uma correção: como uma árvore, que nada depende do humano, a filosofia clínica não espera por nada nem por ninguém, apenas acolhe aquele que busca pelas suas sombras e oxigênios. Eis que aqui estou e me apresento.

Não posso negar que ter me graduado em filosofia não seja uma vantagem, mas também preciso confessar que, muitas vezes, ela tem sido um obstáculo vaidoso. Explico melhor. Às vezes, por já ter tido essa ou aquela leitura, corro logo fazendo minhas interpretações do outro. Pronto, lá vem os agendamentos tão perigosos em relação aos partilhantes e, por isso, a tão imprescindível fase dos estágios supervisionados. O que seria de mim se não fosse o professor, mestre Luiz, e suas intermináveis lições, com seus trejeitos e olhares que já me dizem tudo sobre o meu nada?

Vou me arriscar e dar algumas tecladas acerca de algumas preciosidades que me guiaram até aqui: “Nossa clínica vem das humanas, de inclinar-se à história, às equivocidades, à colheita da historicidade para fazer um planejamento.”

Esta bela e profunda ideia me leva a uma das primeiras lições que li nos cadernos do mestre Lucio, nas quais ele trata da nossa disponibilidade e generosidade no acolher e ouvir a história do outro. Penso que não é possível ser um filósofo clínico se não estivermos verdadeiramente ativos no ouvir e interessados em tudo que o partilhante tem a nos dizer e apresentar. Reafirmaria o mestre Luiz, “a clínica é estar ali.”

Lembro de um dos nossos encontros no estágio supervisionado, no qual tratávamos do lugar existencial e ele dizia o seguinte. Na verdade, não sei se ele realmente disse isso, sei o que eu aprendi e consegui inferir da fala dele: “cuidar é, muitas vezes, negociar com o outro, é encontrar sutilezas que ajudem o partilhante a esvaziar algumas angústias. É dar o tamanho do problema que ele realmente tem.”  Isso parece simples. Inclusive, revisitando, agora, enquanto escrevo estas linhas, vejo quão simples é. Mas, então, o que realmente me chamou atenção nisso? Por que voltei a este ponto? Simples. É justamente por ser tão simples que é tão profundo. E umas das hipóteses que tenho está na sofisticação desta lição, ou seja, vivemos em um tempo do mérito, da eficiência, da meta, enquanto a singularidade vai sendo deixada de lado, esquecida. É nesta hora que a filosofia clínica se faz tão necessária, tão útil. É na compreensão de que somos humanos e demasiadamente solitários neste jogo que podemos dar um salto e nos reencontrarmos diante do problema e do quanto podemos resolvê-lo, seja atacando-o, seja convivendo com ele, ou aceitando-o. E vou eu assentando minhas convicções a partir do tópico 20, da epistemologia para me valer das minhas investigações e inferências.

Neste ponto, trago uma lição da qual não posso me esquecer, quando ele disse que “é preciso fazer um saneamento tópico. Às vezes é preciso entender o que a pessoa quer dizer com aquilo que ela está falando, é preciso fazer a tradução… a clínica nada mais é do que conhecer o outro.” E eu me pergunto: será que vou conseguir compreender o outro quando ele mesmo não consegue me dizer o que está sentindo ou vivendo?

Neste ponto tem uma das mais preciosas lições que tirei dos dois anos em que convivi com os mestres Paulo, Glaucia e Cláudio. Não existe a filosofia clínica, mas as filosofias clínicas. Existe sim um paradigma e um método, somos “adeptos” da fenomenologia. Mas qual fenomenologia? Quando faço esse questionamento, não estou intentando na disrupção conceitual, mas na busca de uma singularidade como futuro filosofo clínico a que me intenciono, proponho-me e ouso vir a ser.

Voltando a uma questão fundamental. Alguém me perguntaria. De nada adiantou ter uma graduação em filosofia para agora fazer a formação em filosofia clínica?

A resposta é simples e objetiva. Claro que SIM.

Citarei algumas das vantagens em ter uma formação em filosofia antes da clínica:

  1. Não ficava tão perdido nas aulas quando os professores faziam citações de filósofos e mais filósofos e alguns conceitos tão comuns aos passantes pelas pedreiras filosóficas. E já aviso de antemão, a despeito do google, estudar filosofia por horas a fio e sair, com a bunda quadrada, de um domingo ensolarado, enquanto muitos estão à beira do rio, bebendo cerveja e você, suando e com inveja dos amigos, é muito diferente de ver um videozinho de 5 minutos de quaisquer youtubers e achar que já é um filósofo;
  • O tempo é implacável na formação. Não quero ser determinista, mas é praticamente impossível, depois de décadas estudando gastronomia nuclear, você acordar e acreditar que agora poderá ser o mais renomado neurocirurgião. A não ser no mundo dos coachs milionários, que ganham maratona mesmo estando acima do peso;
  • O senso de ignorância talvez seja o melhor ponto de ter estudado filosofia. Uma lição muito útil da filosofia socrática, ou seja, saber que sabemos muito menos do que sabemos é um imperativo imprescindível para o futuro filósofo clínico, pois apenas com acolhimento ativo, sincero e humilde posso me ater a ouvir o outro. Nesse ponto, aqueles que estudaram e estudam filosofia levam uma vantagem acerca da sua ignorância, ao menos comigo é assim. Aprendi com os filósofos e filósofas que só sei que ainda há muito o que saber e aprender e, por isso mesmo, nada sei;
  • Em tempo, uma grande lição. Estudar filosofia dá a nítida sensação real de que você não é o que disseram que você é. Por outro lado, você é realmente muito mais do aquilo que dizem que você é. Pode até parecer um jogo de palavras, e é, mas também não é. A filosofia oferece o poder sem torná-lo poderoso.

Não estou dizendo que pessoas provenientes de outras formações não possam estudar filosofia clínica, ao contrário, estou apenas dizendo o quão importante me foi ter uma graduação em filosofia. Em outros casos, penso que cada um pode apresentar suas próprias implicações e condições. Como aprendi na minha formação de filósofo clínico e tenho aprendido e aprofundado com o mestre Luiz, cada filósofo clínico é único.

Isso não quer dizer que vale tudo. Logo acima escrevi sobre essa temática. Por isso reafirmo: a filosofia clínica está baseada em um método, na fenomenologia, contudo, um método aberto, capaz de comtemplar a multiplicidade de singularidades, haja vista que um mesmo partilhante poderá e deverá ter experiências diferentes caso possa e queira experimentar a terapia filosófica com filósofos clínicos distintos.

Confesso que sentar aqui e escrever este ensaio-testemunho é um tanto pretencioso. É o risco de arrombar portas abertas e ter a certeza do enfadonho a reflexões gasturáveis. Ninguém exigiu nada de mim. A culpa e o sentimento da mesma são da minha parte. Ainda assim, coloco-me diante de todos aqueles que, porventura, estejam com este texto em mãos para dizer: simplesmente precisava disso, foi um ato terapêutico de mim para comigo na partilha de mim mesmo, precisava me ler e me ouvir no silêncio das palavras escritas.

A vida no chão da existência

            Quantas vidas podemos ter? Seria possível falar de vida no plural? Temos uma vida, é certo, ou temos vidas? Poderia continuar fazendo tantas outras questões acerca da vida, mas farei um recorte que me foi muito caro nessa caminhada da filosofia clínica nestes últimos anos de vida.

            Tive muitas experiências ao longo desta jornada, contudo teve uma que me marcou profundamente: a participação no Congresso Nacional de Filosofia Clínica, na cidade de Bragança Paulista. 

            Os fatos aqui narrados não seguem uma linha cronológica dos acontecimentos, mas o quanto foram marcantes na minha vida de futuro terapeuta das filosofias clínicas. O texto não é capaz de mostrar tudo que foi essa experiência, penso que nem falando consigo descrever o quanto dilacerante e extasiante foi, mas vou tentar.

            A primeira experiência, que me trouxe um sentimento de pertencimento e importância, foi o encontro com o Lucio Packter nas ruas de Bragança. Ele foi muito amável e solícito no encontro, ele foi aquilo que realmente ele escreve e teoriza. Foi a primeira vez que pude entender teoria e prática como algo, de fato, relevante e real na vida vivida. Estou exagerando? Talvez. Pode ser. Mas foi o que senti.   

            A segunda experiência foi participar com os mestres Paulo e Glaucia de um jantar em sua casa. Parece muito pouco, a princípio, mas foi tão acolhedor e profundo aquele encontro, que quase me senti em casa. O Marcos, a Santinha e tantos outros … senti como se fizesse parte de uma comunidade, acho que foi a primeira vez que vivi uma experiência de coletividade tão profunda.

            O encontro com o professor Claudio, na fila do teatro em São Paulo, com toda a sua generosidade e atenção no abraço afetuoso, fez-me pensar que não se trata apenas de aulas e textos, mas de vida e laços de continuidade na possibilidade de vidas em movimento. 

            No congresso em si, vi pessoas sorrindo, chorando, enfim, lembro-me como se fosse agora o que pensei: puxa vida, é um congresso de gente, tem emoções e verdadeiramente há uma vida pulsando em cada apresentador, mesmo quando não concordava. Sem minutas curriculares quilométricas e hierárquicas.

            Penso no doutor Genisson (ele é médico), que teve a coragem de me indicar duas partilhantes para os meus primeiros passos no mundo de filósofo clínico. Como assim? Ele confia em mim para cuidar da saúde psíquica de alguém? Sinceramente ainda não acredito quando, semanalmente, sento-me diante das minhas partilhantes e as ouço. Quanto privilégio ter a confiança de alguém que resolve falar de si para um “estranho” que sou eu.

            Diante de todas estas experiências vividas, leituras novas e releituras ressignificadas que o Recanto me possibilitou, ouso trazer uma pequena contribuição a esta teia de emaranhados, tão bem tecida, que já passa de três décadas de existência e resistência.

            Penso que a contradição seja uma parte considerável das nossas existências. Chego a acreditar que sem ela nada teria sentido. Quando me deparo com os tópicos, nossos lugares existenciais e os nossos submodos, “remédios terapêuticos”, deparo-me com as primeiras contradições. Quanta ironia, um filósofo que, por excelência, deveria cultuar e cultivar a dúvida, agora, terá em suas mãos e ouvidos outros que poderão trazer muitas certezas. E o que nos resta como filósofos clínicos? Ouvir e não mudar a historicidade de ninguém, ao menos não por deliberação ou provocação.

            Na condição de filósofo clínico, precisamos ouvir muito, acolher sempre, ou nos retirarmos, com afeto, principalmente se o que se avizinha é um agendamento cruel, profícuo, libertador, enfim, o que importa não são as nossas idiossincrasias, mas a estrutura de pensamento (EP) do partilhante.

            Ser filosofo clínico é uma contradição em si e per si. Como se calar, se o que a filosofia tem de melhor é a fala falada, escrita, anunciada? Eis aí mais um desafio para a filosofia que é clínica. O silêncio também pode ser o grito mais ensurdecedor, a música mais afinada das sombras sem partitura. É o tecer sem escolher a roupa, apenas o contemplar dos desvelamentos.

            Por isso, volto às contradições. A despeito de não me perder nas suas infinitas interpretações, fixar-me-ei em dois aspectos que, para o momento, vejo-os como mais pertinentes nessa minha empreitada, tentativa de refletir algo do espectro da filosofia clínica.   

Partirei do pressuposto que a contradição é condição sine qua non à existência humana. Apresento, aqui, suas nuances e desdobramentos a fim de compreendermos como este fenômeno se faz presente nas singularidades. Lembro e reafirmo que seria impossível trazer todos os seus aspectos e características à baila, justamente porque a singularidade não se faz única, mas múltipla, provisória e metamórfica.

            As contradições de que tratarei neste testemunho são: lógica e existencial. Para tanto, incorrerei na audácia de explicar cada uma delas. Obviamente, não conseguirei exauri-las em todas as suas complexidades e possiblidades, dado tratar-se de um passo inicial de tentativa, aberto a todas e quaisquer intervenções, inclusive para o descarte, a despeito de salvaguardar o paradigma.

            Contradição lógica: é a contradição do absurdo. Faz parte daquelas ações humanas que jamais poderão coadunar com a vida, mas, na condição de humanos, não somos nada razoáveis. Somos a espécie da impossibilidade. Razoabilidade, definitivamente, não é parte da natureza humana. Talvez nem tenhamos razão. Entretanto, temos vida, por isso a contradição logica. Porém, não somos guiados simplesmente pela lógica da vida. Poderia citar muitos exemplos, mas ficarei com dois.

  1. Vivemos em uma sociedade na qual fomos convencidos de que podemos ser o que quisermos, que podemos fazer nossas escolhas, que, na condição de  adultos, tudo é permitido, desde que haja consenso, enfim, toda essa parafernália liberal de termos escolhas e sermos seres livres. É o que decidimos nas sociedades modernas. Vamos a nossa primeira contradição logica. Ter filhos é uma questão pessoal, ou seja, cada ser humano adulto deverá fazer suas escolhas, entre elas, se terá ou não filhos. Do ponto de vista da lógica e da vida, isso é impossível, a não ser que retiremos a vida da equação. Somente é possível a vida, se seres vivos continuarem a procriarem novas vidas. Claro que não entrarei aqui em particularidades e suscetibilidades, afinal, o planeta já está cheio, tem gente demais, enfim, argumentos contra o povoamento da Terra não faltam. Mas, a intenção aqui é simples: a vida apenas existirá se outras vidas criarem vidas, essa é a lógica;  
  • Em contraposição ao primeiro argumento, mas em demonstração da própria contradição lógica, trago a ideia da morte assassinada, ou seja, ninguém poderá matar outro ser humano. É ilógico assassinar outra pessoa, esta ação contradiz à própria existência da vida, pois seria cruel, irracional, feio, enfim, temos muitos argumentos plausíveis para não dar cabo do outro. Tirar a vida de alguém não corrobora a ação de existir, é uma contradição lógica. Do ponto de vista lógico, assassinar uma pessoa é equivalente a exterminar a vida. Quando uma pessoa tira a vida de outro, isso é como se a criação e o criador deixassem de existir. É o fim da vida, por isso, ilógico, logo, uma contradição lógica;

Como disse, poderia citar outros inúmeros exemplos, mas me fixarei apenas nestes dois exemplos: não ter filhos e assassinar semelhantes. Ambos os casos, optar em não ter filhos e assassinar pessoas, são duas condições de contradições lógicas.

Inclusive, no caso dessas duas contradições, elas não são, necessariamente, inconscientes. Ao contrário, muitas vezes, são planejadas e muito bem delineadas pela faculdade da razão. Não entrarei aqui em nenhum juízo de valor acerca dessas contradições. Seria leviano e desgastante neste momento. A minha intenção é apenas demonstrar que a contradição lógica é parte da existência e da complexidade humana, logo, parte preponderante das singularidades.  

Contradição existencial: se, por um lado, a contradição lógica é um absurdo, por outro, a existencial está intrinsecamente ligada à reflexão do absurdo da contradição lógica. Essa contradição não existiria se não fôssemos seres de opiniões, ideologias, gostos, escolhas, idiossincrasias e afins.

Trarei aqui dois exemplos de contradição existencial e, como na primeira, as possibilidades de reflexão são, praticamente, infinitas. Apenas ressalto que, no caso da contradição existencial, as nuances são muito mais gritantes e pessoalizadas, justamente porque é na historicidade que reside a sua investigação. Há, porém, uma particularidade que precisa ser esclarecida a fim de darmos continuidade a esta reflexão.

Apenas entre humanos é possível essa contradição, pelo óbvio, somos seres culturais. Nenhum outro ser vivo é capaz de criar cultura. Pelo menos ainda não temos nenhuma notícia sobre sítios e empresas epistemológicas entre os outros seres vivos, a não ser impressões e relatos de seres humanos.

Vamos ao exemplo. Enquanto escrevo este texto, há um grande número de pessoas em um festival de música internacional, curtindo os shows, bebendo muito, comendo, devorando fast foods, namorando, paquerando, ou seja, nada de absurdo, tudo dentro do razoável. É o que se espera de jovens saudáveis em uma aglomeração juvenil. Acontece que, neste mesmo momento, a algumas centenas de quilômetros que, dado nosso desenvolvimento tecnológico, ficamos apenas a algumas horas de distância, repete-se uma tragédia humanitária: mais uma vez pessoas, famílias são dilaceradas em suas existências.

As consequências das chuvas são terríveis quando o ser humano não se planeja em suas ocupações urbanas. Sabemos que a falta de recursos financeiros, individualmente, acaba levando um grande contingente de pessoas a ocuparem os espaços de forma irregular. Não exatamente porque assim desejem. Mas, quando não há recursos suficientes para aquisição de espaços seguros, o que resta a essas pessoas? Morar onde é possível. O problema é que este possível, muitas vezes, é mortal. Assim tem sido nos últimos tempos… Parece até filme repetido. Todos os anos vemos no noticiário dezenas de pessoas que morrem simplesmente por morarem, por terem uma casa. E a culpa é de quem? Não vou responder aqui, deixo esse aparte para outras searas da minha vida.

Neste caso, apresentei esses dois exemplos apenas para tratar da contradição existencial. Apenas uma observação histórica. Em outros momentos, nos quais não tínhamos informação globalizada e rápida, em que as pessoas mal sabiam o que acontecia em cidades vizinhas, essa contradição era muito menos latente.

Dando continuidade aos exemplos extremos, de um lado, um grupo de pessoas se divertindo; do outro, pessoas morrendo e sofrendo. Afinal o que isso tudo tem a ver? Tudo e nada. Tudo, afinal não são todos seres humanos? Por esse motivo, não mereceriam todos a diversão ao invés da morte pelo simplesmente pelo fato de estarem em suas casas? Por que essas pessoas que estão se divertindo não param agora e vão em direção aos desabrigados e mortos? Por que essas pessoas que moram nesses lugares não se mudam desses verdadeiros vilarejos de defuntos? Lembrem-se de que disse também nada, afinal, o que poderíamos fazer? Deixar nossas vidas para cuidar dos outros que ainda não estão bem-arrumados em suas vidas … Somente poderei ser feliz quando ninguém mais estiver triste?

Enfim, a questão aqui não é resolver os problemas dos outros, tampouco ficar apontando o dedo moralista para outrem. Mesmo porque essas são apenas algumas das milhões de questões que poderíamos realizar. Inclusive perguntas melhor elaboradas poderiam ser feitas. Meu propósito, entretanto, é apenas dizer que a contradição existencial existe, faz parte da realidade e é impossível superá-la.

Se assim é, então, por que trazê-la à baila? Justamente por ser parte insuperável da vida é que a trazemos ao palco da vida. Seja em consultório, seja na vida social, o primeiro passo para mais um passo é não se furtar a olhar para a questão e enfrentá-la, ainda que seja para admitir a impossibilidade de uma resolução.     

Justamente pelo fato de sermos seres de escolhas, ainda que estejam restritas e limitadas a uma série de questões materiais e contingenciais, ainda assim, somos seres criativos. As escolhas residem no movimento, na ação, na posse, enfim, na mudança de estado físico. Nesse ponto, cito, como exemplo, a pessoa encarcerada, que tem seus movimentos monitorados e limitados. Poderíamos dizer que ela tem muito pouco a escolher diante das possibilidades de externalizar seu corpo existencial.

Entretanto, o que resta ao encarcerado? A criatividade. Somos seres inventores. Inventamos a religião, a ciência, a arte, porque a vida apenas não basta, assim poetizou e profetizou Ferreira Gullar.

Muitas vezes, o encarceramento não está apenas no corpo físico. É nesse ponto que reside a importância e a relevância da filosofia clínica. Ela pode revelar-se uma chave de acesso, o espreitar da vida quando tudo parece perdido e escuro. Às vezes, precisamos de menos luz para vermos o que ninguém está conseguindo sentir e olhar. São aqueles passos que pareciam impossíveis.

Hoje, um pouco mais maduro, perigo de sempre, tenho me convencido de que a terapia é o lugar que criamos para nos encontrarmos com o eu verdadeiro. É o espaço social instituído pela própria sociedade, criado e permitido por ela a fim de cuidar dos eus. Claro que esse verdadeiro é único e singular, mas como se diz no jargão popular, “me engana que eu gosto”, ou, como Cazuza cantou e escreveu em verso e prosa, “mentiras sinceras me interessam”. E ainda caberia uma mentirazinha Suassuna, inocente e reveladora.   

            Posso até nunca ter a filosofia clínica como a minha função primeira e principal, mas jamais voltarei a ser o que era. Posso, inclusive, estar me perdendo ainda mais neste momento, mas entendi algo singular, estou condenado às minhas contradições, mas é justamente por isso que posso sair de lado, olhá-las e enfrentá-las, seja para superá-las, seja para guardá-las e me aceitar melhor nessa caminhada.   

            Por fim, ainda neste breve testemunho, lembro-me de Sartre, quando escreveu e sentenciou que estamos condenados à liberdade. Do outro lado do mundo, ou do lado de cá, pois depende do continente que habitamos, a nossa querida Clarice Lispector foi além, afirmando que liberdade era pouco, pois o que ela queria ainda não tinha nome. Em tempo, peço licença a esses dois gigantes, permitam-me a audácia em dizer que já temos um nome para aquilo de que estamos livres de condenação: na contradição que reside a nossa caminhada livre, singular e criativa. Somos potência de devir.

2 textos: “Desconstrução” e “Filosofia Clínica: Terapia como espaço criativo”

 

                                                    Tatiana Borges Carvalho*

      Desconstrução                              

Primeiramente gostaria de agradecer a todos por dispenderem um pouco de seu tempo nesta leitura. Na realidade gosto de pensar que estamos juntos, em um gostoso bate papo, em que ideias fluem e experiências são trocadas.

Irei compartilhar um pouco mais de minhas vivências como Filósofa Clínica no acolhimento de partilhantes. Em meus textos, busco me distanciar um pouco de terminologias acadêmicas ou nomenclaturas da Filosofia Clínica e assim me aproximar de outros universos e realidades.

Diversos são os motivos pelos quais uma pessoa busca pela terapia, mas hoje gostaria de falar um pouco sobre os aspectos negativos das convenções sociais e como elas podem afetar nosso desenvolvimento.

Nascemos e a partir deste momento nos tornamos parte da sociedade. Somos educados por nossos pais, familiares, escola, etc. Somos fragmentos de valores e crenças que não partiram de nossas próprias escolhas.  Para algumas pessoas está tudo certo! Não há incômodos, inquietações ou buscas e elas devem ser respeitadas.  Porém para outras é completamente diferente. Essas pessoas sentem-se incomodadas e decididas a mudar algo, mas nem sempre sabem por onde começar,gerando uma grande crise existencial.

Durante o caminhar terapêutico, após termos realizados todos os procedimentos necessários, sempre com muito amor e ética, o(a) partilhante vai ganhando confiança em si mesmo(a). Aprende a se auto acolher, cuidar de si e ter domínio sobre sua vida, sem ser afetado(a) diretamente pelo meio social. Desenvolve formas de lidar em situações mais complexas com seus próprios modos.  As convenções sociais e imposições são descontruídas para que novas construções sejam erguidas.

Irei compartilhar duas experiências clínicas para refletirmos juntos.

Maria (nome fictício) – 30 anos

Criada em uma família tradicional católica, em que sempre foi dito que ela nunca poderia discordar dos pais. Qualquer manifestação de pensamento pessoal ou questionamento eram motivos para apanhar ou ficar de castigo. O pensar e questionar não faziam parte de sua educação, somente obedecer.  Ela cresceu, casou e teve uma filha. Porém a criança é extremamente questionadora, envolta a tecnologias etc. Maria vem para a clínica com certo desespero sobre como ter uma relação mais amorosa e compreensiva com sua filha. No caso dela, após profunda análise, foi totalmente necessária a desconstrução dos antigos valores e crenças. A primeira desconstrução foi mostrar que ela poderia falar sobre seus pais sem ser julgada ou repreendida (neste momento, a partilhante inclusive diminuía o tom de voz, sempre que iria contar sobre seus pais, como se eles pudessem ouvi-la). Também foi importante descontruir a ideia de que falar sobre os pais na terapia não significava falta de amor ou falta de respeito.

Valquíria (nome fictício) – 18 anos

Criada em uma família mais liberal, com pensamentos livres, sem convenções sociais. A família tinha seus próprios modos e pensamentos (filha de um artista plástico e uma filósofa). Valquíria podia escolher a cor de seus cabelos, colocar piercings, ter tatuagens, ou seja, sua estética não seguia os padrões convencionais. Seus pais sempre diziam: “Seja sempre você mesma, não mude para agradar alguém ou para se enquadrar socialmente”. 

Viviam muito bem financeiramente, porém por motivos de doença, houve uma grande mudança e Valquíria se viu diante de outra realidade. Bem, agora Valquíria estaria diante de umas das decisões mais difíceis de sua vida. Ela busca por um emprego e o encontra, porém no momento da entrevista é imposta a seguinte condição: Valquíria gostamos muito do seu desempenho no processo seletivo, porém para que possamos te contratar você terá que mudar a cor de seus cabelos e retirar os piercings. Quanto as tatuagens, como ficarão cobertas não há problemas.

Ela retorna para sua casa extremamente triste, sentindo-se violentada… parecia que estava sem ar, precisava falar com alguém… em um momento de desespero comenta sobre o acontecido e como estava se sentindo com uma conhecida e recebe a seguinte resposta: Mas Valquíria, é somente um cabelo e um piercing, não é nada demais!!!!!!! Neste momento um sentimento de solidão profunda invade o ser de Valquíria. Ela aceita as condições de trabalho por necessidade, mas é existencialmente destruída. Não era apenas uma cor de cabelo e um piercing. Era sua vida, sua existência, seus valores e crenças mais preciosos. Tudo isso era comunicado através de sua estética, não era apenas uma modinha, um embalo. Foram 10 anos de desconforto interior, perda de si e busca por seu lugar existencial. Na terapia ela pode trazer essas questões e se reencontrar de uma forma linda!

Penso que seja importante compartilhar vivências. Quanto podemos aprender… Através delas temos a oportunidade de refletirmos sobre nós mesmos, sobre os outros, sobre como podemos acolher e respeitar as singularidades.

Talvez uma das grandes belezas da vida seja sermos quem realmente desejamos SER!!! A Filosofia Clínica é umas das possibilidades que podem contribuir nesta desconstrução/construção de si.

 

FILOSOFIA CLÍNICA – Terapia como espaço criativo

Certamente muitos de nós já ouvimos comentários do tipo: Terapia para quê? Terapia é para quem tem algum problema. Em alguns casos as adjetivações são mais extremas…

Em Filosofia Clínica os rótulos são desconsiderados em respeito ao partilhante. Uma pessoa não deve ser definida por algum tipo de diagnóstico. O ser está para além de rótulos e diagnósticos.

Gostaria de convidá-los a refletirmos juntos sobre as colocações acima.

Permitam-me compartilhar de forma mais resumida duas belas partilhas ocorridas durante alguns encontros terapêuticos. São trechos resumidos de encontros com dois partilhantes: Denise e Pedro (nomes fictícios).

Denise

Denise foi casada por 20 anos e sempre teve sua própria renda (dividida entre a aposentadoria e, vez por outra, artesanato), quando casada, os custos fixos da casa ficavam por conta de seu companheiro. Após a separação ela se viu sozinha, tendo que retornar a residir em um local indesejado que trazia lembranças não muito positivas de sua infância, mas não havia escolha, por ora seria o melhor a ser feito. A partir deste momento, a relação com seus filhos, amigos e familiares sofrerá mudanças. Dentre todas as mudanças, a forma de lidar com uma em especial será determinante em suas novas escolhas, buscas, objetivos, modos de ser e lidar com situações. Agora ela contava apenas com sua aposentadoria, precisava ter outra fonte de renda e assim ter mais tranquilidade. Neste período de inversão a partilhante é deslocada de seu atual lugar existencial e alguns pensamentos e sentimentos vem à tona como: “será que eu ainda amo ele? Se eu estivesse com ele não estaria passando por isso! Todos os nossos amigos comentam, até plano de saúde eu tinha!” Ela é tomada por um sentimento de incapacidade total. Como estamos juntas nessa caminhada há um longo tempo e temos muitos princípios de verdade que contribuem positivamente na terapia e, com base na historicidade desta partilhante, senti que possivelmente ela não estava arrependida de ter se separado ou que ainda amava o ex companheiro, mas que se sentia dependente financeiramente dele e a partir de agora teria que encarar este novo momento. Fomos dialogando, caminhando e o melhor para ela acontece: Denise passa a entender e sente que estava com medo de encarar a sua própria existência (nova), existir por ela e para ela, com seus modos, olhares, entendimentos, valores…. Busquei em sua história a lembrança do crochê, de como ela dizia ser algo prazeroso e tranquilizador. Ela dizia que a cada ponto esquecia dos problemas, não sentia o tempo passar… a lembrança se tornou viva e então surge a possibilidade do crochê como a renda extra que tanto buscava! Trouxe este trecho da historicidade desta partilhante para pensarmos juntos sobre como a terapia pode ser um lugar de possibilidades criativas!!!! Ela está feliz, realizada, segura, em paz consigo e nas relações.

Nem sempre a busca pela terapia terá um assunto imediato, algum tipo de problema psíquico ou psicológico. Alguns buscam a terapia para partilhar suas ideias ou ter ideias, criações, alegrias, tristezas, conquistas ou apenas para bater um bom papo. A terapia é um lugar em que cada pessoa pode se expressar sem ser julgada. Na metodologia proposta pela Filosofia Clínica aprendemos a suspender os juízos diante de nossos partilhantes. A escuta deverá ser pautada pelo respeito à singularidade de cada ser, acolhimento amoroso e ético. Este processo de troca entre o filósofo clínico e partilhante pode ser profundamente construtivo para ambos. Importante lembrar que as formas que buscamos para auxiliar nesta construção sempre é baseada na historicidade. A forma que a clínica será conduzida dependerá desta singularidade. Assim, foi identificado em Denise que utilizar a produção do crochê para venda seria importante não só pelo aspecto material, mas também subjetivo e existencial.

Pedro

Pedro era um   jovem que sonhava em ser um grande artista, mas que se via obrigado a trabalhar de forma convencional por motivos familiares. À medida que os encontros foram acontecendo ele teve uma lembrança de quando era jovem e havia ganho um concurso de desenho. A terapia foi extremamente importante na reconstrução de seus processos criativos e consequentemente existenciais. A cada partilha finalizada ele se sentia inspirado em escrever mais e mais… e o desejo de viver como artista foi tomando conta de seu ser ao ponto de começar a criar planos para que esse sonho fosse realizado.

Caros leitores, através das partilhas acima observamos que a terapia pode ser um lugar de transformação interior e possibilidade criativa. Faz-se necessário educarmos nossos pensamentos, desconstruirmos certos conceitos sociais que impeçam ou reduzam as possibilidades de conhecer a si mesmo e sermos quem desejamos ser!

A Filosofia Clínica está aberta a todos que desejam passar por esta bela vivência interior!!!

                                                                                               Tatiana Borges Carvalho

 

Poesia e Atenção

   Poesia e atenção são fenômenos coextensivos. É basicamente disso que trata o livro de Lucy Alford ( Forms of Poetic Attention – Columbia University Press), e a partir do qual tentarei uma aproximação entre poesia e clínica; mais propriamente, entre poesia e a escuta em clínica.

   Uma clínica que se pretende não violenta, que possibilite a abertura do campo de linguagem e de relação com o mínimo de violência, resistindo ao englobamento e metabolização significativa do discurso do outro, é a clínica da escuta intransitiva. Uma escuta amplamente aberta, concentrada na atenção antes do surgimento dos objetos da atenção. Uma escuta por meio da qual as palavras não são objetificadas e concretizadas a partir do discurso, mas sim uma espécie de escuta intencional, na qual nos situamos junto ao dizer do outro sem o englobamento do dito, possibilitando a manutenção da abertura do dizer inaugural sempre a cada vez mais uma vez. O singular é o diferente diferenciando-se no tempo finito de ser. Nunca o alcançamos. Falamos com o singular sempre em uma relação de distância abissal. A clínica é sempre a clínica diante do abismo que nos separa do outro. O outro é o abismo insondável.

   A poesia se refere a uma certa forma de atenção, em sentido essencial. Não apenas como condição para apreender ou imaginar o mundo por meio de objetos intencionais; poemas lidam com a produção, o treino e a prática da atenção. A poesia, em sua forma particular de atenção, produz presentificação e, em seu ritmo, pode produzir e invocar a imagem, a sensação, a memória, mantendo viva a presença, performando aquilo que descreve, oferecendo-nos uma oposição a uma apropriação de mundo orientada por conceitos.

   O poema pode modificar o estado de espírito dos leitores, produzir uma impressão de tempo em suspenso, fornecendo uma abertura por meio da qual o que está ausente e remoto se torna presente; uma espécie de presentificação poética que é também um acontecimento da verdade: desvelamento do Ser. Desvelamento do Ser refere-se a uma situação que permite que as coisas sejam experimentadas de uma forma absoluta, “nelas e por elas mesmas”. Buscar uma forma de atenção intransitiva é também evitar qualquer atitude mais forçosa e ativa, o que levaria o Ser de volta à soleira que ele precisa atravessar a fim de se mostrar, impedindo a imaginação de emergir. Podemos retomar aqui a diferenciação entre as formas de cuidado de Heidegger: cuidado próprio, no qual sustentamos, em seu peso e medida específicos, o campo que se abre a partir da relação com o outro, não englobando-o significativamente, e cuidado impróprio, quando invadimos e norteamos os caminhos que são sempre os caminhos do outro, os caminhos da diferença. A existência é intransferível e contra isso não podemos ir de encontro sem que ao mesmo tempo tal intransferibilidade não se anuncie com mais força e nitidez.  

   A produção de imagens na consciência humana é normalmente filtrada por conceitos e padrões discursivos enraizados a partir da tradição. É essa operação que reduz nossa imaginação à significados discursivos e produção de sentidos. Segundo a autora, a linguagem poética (em especial em sua forma prosódica) “previne esse nível e função elevados da consciência humana emergir, diminuindo o nível de tensão da consciência (Husserl). Contra o pano de fundo da evolução, seriam “regressivos”, propiciando a presentificação em uma dimensão ontológica da imaginação em vez de ocorrer na dimensão do sentido”. A diferença entre sentido e imaginação pode ser a origem e a razão para a impressão geral de que poemas têm um impacto mais intenso e emocional (são mais próximos da nossa percepção e do nosso corpo) do que textos escritos e recitados em prosa.

   A atenção não é apenas uma entre as múltiplas funções e condições que constituem a base da poesia; antes é, na verdade, aquela dimensão central da consciência humana que a poesia, devido à sua estrutura específica, é capaz de desafiar em um nível particular de complexidade e é, assim, capaz de desenvolver e expandir. Nesse sentido, poesia tanto pressupõe quanto contribui para a formação de uma capacidade de atenção mais complexa e potente.

   Nesse sentido, o desafio que as formas poéticas impõem às nossas formas de atenção   podem contribuir para uma espécie de refinamento do exercício da escuta do outro. Na medida em que essas formas nos desafiam a permanecer na fenomenalidade própria do fenômeno, habitando, no limite, o que se deixa desvelar no tempo próprio do desvelamento, podem contribuir para uma maior resistência ao englobamento discursivo e consequente produção de sentidos do mesmo no outro. A linguagem poética pode contribuir para que o clínico deixe o outro ser o outro. A escuta em uma clínica não-pastoral é a escuta que tenta se manter, no limite, em escuta poética. 

Escuta, diálogo e cuidado na praxis de Paulo Freire

A presente colaboração teórica terá como referência principal o terceiro capítulo de Pedagogia da autonomia, um dos últimos textos deste autor, publicado especificamente em finais da década de 1990.

          É precisamente nesta obra que Freire expõe sua compreensão sobre a escuta, o diálogo e o cuidado como inerentes à prática pedagógica libertadora. Sua afirmação acentua que a escuta é uma exigência.

         Faz-se necessário considerar que há um pressuposto antropológico fundamental primigênio e fundante da epistemologia freireana, perpassando toda a sua prática pedagógica: os seres humanos somos seres inacabados; ou seja, não somos, mas estamos sendo. Trata-se, portanto, de uma característica ontológica. Vivemos e existimos em processualidade, em busca de ser, que o autor nomeia como SER–mais. Esta condição humana se dá mediante a construção da cultura, a criação e a transformação daquilo que chamamos natureza, pela atividade laborativa ou trabalho; fazendo uso da expressão verbal, a fala, a palavra e diversas outras linguagens ou semioses.

      Toda a teoria freireana se volta para a afirmação da dialogicidade e da horizontalidade no processo intersubjetivo do conhecimento. De modo que não deve haver separação entre conhecer, ensinar e aprender. Quem ensina aprende e quem aprende também ensina, reciprocamente. Aqui, podemos fazer a substituição do binômio educador–educando, por filósofo/filósofa clínica–partilhante. Partindo dessa situação chamada situação gnosiológica, como momento de conhecimento, é que o autor explicita a necessidade do diálogo, do cuidado e da escuta. Sendo importante não esquecer que toda terapia consiste num processo eminentemente dialógico. O termo terapia, inclusive, tem sua origem num verbo grego que significa cuidar (terapeuw). O exercício da clínica é o exercício do cuidado para com as pessoas. Mas, um cuidado recíproco, entre terapeuta e partilhante; uma vez que Paulo Freire reafirma o conhecimento como processo que se dá na intersubjetividade. Porque a terapia também é um momento de conhecimento. E ninguém conhece sozinho, mas dialogicamente, com outros. Não há um eu penso, eu conheço, desligados do nós conhecemos, do nós pensamos. Assim como também é um processo educativo, pois filósofo/a e partilhante compartilham  ideias, significados, perspectivas e visões de mundo.

        É importante distinguir que o diálogo não é conversa nem bate-papo, mas o encontro entre pessoas que se respeitam ao pronunciar seus mundos, mediante a horizontalidade da comunicação. E não pode acontecer numa relação antagônica. Não se trata de igualdade niveladora, mas de cuidado na comunicação, pois a comunicação e a inteligibilidade se dão simultaneamente. A relação entre pensamento-linguagem-contexto não pode ser rompida. Vale  lembrar o que a Filosofia Clínica chama princípios de verdade. E aqui surge outro componente importantíssimo nesta relação: o silêncio. Escuta, diálogo, cuidado e silêncio integram todo o momento deste encontro. Tais categorias possuem uma natureza ética. Numa referência direta a isto Freire afirma que “no processo da fala e da escuta a disciplina do silêncio, a ser assumida pelos sujeitos que falam e escutam, é condição “sine qua” da comunicação dialógica… É preciso que quem tem algo a dizer saiba, sem sombra de dúvida, não ser o único ou a única a ter o que dizer; nem o que tem a dizer é uma verdade acabada e alvissareira (…) Ao contrário, o espaço do educador democrático, que aprende a falar escutando, é cortado pelo silêncio intermitente de quem, falando, cala para escutar a quem, silencioso, e não silenciado, fala. A importância do silêncio no espaço da comunicação é fundamental. De um lado, me proporciona que, ao escutar, como sujeito e não como objeto, a fala comunicante de alguém procure entrar no movimento interno do seu pensamento, virando linguagem; de outro, torna possível a quem fala, realmente comprometidocom comunicar e não com fazer puros comunicados; escutar a indagação, a dúvida, a criação de quem escutou. Fora disso fenece a comunicação. Escutar é obviamente algo que vai mais além da possibilidade auditiva de cada um. Escutar, no sentido aqui discutido, significa a disponibilidade permanente por parte do sujeito que escuta para a abertura à fala do outro, ao gesto do outro, às diferenças do outro…”

        Aceitar e respeitar a diferença é, deste modo, atitude sem a qual a escuta não pode acontecer. Portanto, escutar, respeitar, fazer silêncio, respeitar a palavra e os silêncios, estão dialeticamente relacionados e integram o cuidado terapêutico-filosófico.

Clínica não pastoral

Tudo o que sei acerca do método é que, quando não estou trabalhando penso as vezes que sei algo, mas quando estou trabalhando está bem claro que não sei nada.”      John Cage

   A ideia de uma clínica não pastoral se aproxima da ideia de uma espécie de estrutura do cuidado que se dá de modo próprio (Heidegger), ou seja: ao invés de ser uma clínica conteudista, que salta para o interior da literalidade e significância da linguagem e indica, guia ou sugere (matematização da existência) os modos de ser do outro, ela se retrai, se inclina e se sustenta, no limite da linguagem, abrindo um espaço possível para a abertura de campos de sentido próprios (e não a partir dos campos de sentido pretensamente positivos da tradição) e a possibilidade da conquista de uma significatividade própria, ou seja,  liberando o outro para ser outro. É uma clínica da diferença, tomando por empréstimo o termo Deleuziano, onde a ideia de identidade é substituída pela de movimento incessante que engendra as formas a partir de si mesma. O outro é um abismo insondável, e só pode ser acessado formalmente, e qualquer tentativa de teorização a partir de estruturas teóricas apriorísticas se constitui na mais velada forma de pastoreio.

   Se a escuta é, pretensamente, a principal atividade do terapeuta, como se daria a escuta em uma clínica não pastoral? Colocar-se à escuta própria da linguagem é experimentá-la para além dos hábitos da fala (o que não significa a rejeição desses hábitos) e expor-se ao domínio do estranho; tal estranheza não se dá sem a sensação por vezes claustrofóbica de angústia e solidão, pois nosso pensamento calculador e nossa linguagem habitual — imediatamente compreensível — tornam-se impotentes e falhos diante de acontecimentos inusitados que desequilibram nossos pequenos hábitos e costumes. Cabe ao clínico “não pastoral” inclinar-se e sustentar-se diante desse abismo, abrigado no espaço de intimidade (proximidade) da relação.

   Uma clínica que quer estar a serviço do que existe precisa se organizar em torno de uma categoria livre, não sistemática, inassimilável, que não possa ser apropriada por nenhuma lógica operativa ou funcional. Às vezes é a categoria de natalidade, ou de começo. Às vezes é a categoria de liberdade, ou de emancipação. Às vezes é a categoria de diferença, ou de alteridade, ou de acontecimento. Às vezes é a categoria de abertura, ou de catástrofe.  Em qualquer caso, uma categoria que tem a ver com o não-saber, com o não-poder, com o não-querer, e que não se pode definir nem tornar operativo, mas sim que, de algum modo, só se pode cantar, musicar, ritmar. Há algo no que fazemos e no que nos acontece que não sabemos muito bem o que é, mas que é algo sobre o que temos vontade de falar, e de continuar falando, de cantar, e de continuar cantando. A vida viva, aberta à sua própria abertura, por vezes de modo sincopado, por vezes de modo elevado, por vezes de modo caótico…

   A clínica não pastoral seria a clínica enquanto experiência, e não experimento. Se a lógica do experimento produz acordo, consenso ou homogeneidade, a da experiência produz diferença, heterogeneidade e pluralidade. Se o experimento é preditível e previsível, a experiência carrega em si uma dimensão de incerteza que não pode ser reduzida. Posto que não se pode antecipar o resultado, a experiência não é o caminho até um objetivo previsto, mas sim uma abertura para o desconhecido, para o que não se pode antecipar nem “pré-ver” nem “pré-dizer. O sujeito da experiência tem algo de um ser que atravessa e é atravessado pela existência, que simplesmente “ex-iste” de uma forma sempre singular, finita, imanente, contingente. Tanto nas línguas germânicas como nas latinas, a palavra experiência contém inseparavelmente a dimensão de travessia e perigo. A clínica é travessia e perigo, assim como a existência.

   Se chamamos de existência a essa vida própria, contingente e finita, a essa vida que não está determinada por nenhuma essência nem por nenhum destino, a essa vida que não tem nenhuma razão nem nenhum fundamento fora dela mesma, a essa vida cujo sentido se vai construindo e destruindo no viver mesmo, podemos pensar que tudo o que faz impossível a experiência faz também impossível a existência. E tudo o que faz impossível uma clínica não pastoral faz também impossível a clínica enquanto experiência, tornando-a experimento conduzido por um ou uma terapeuta, impossibilitando, assim, que o outro seja atravessado por experiências (por meio da linguagem própria, do silenciamento do mundo? Por meio da substituição das muitas palavras do mundo pelas poucas e simples palavras do ser? Por meio da relação de intimidade entre dois indigentes?). Em um mundo pobre em experiências, como bem nos alertou Walter Benjamin, é incapaz de experiência aquele a quem nada lhe passa, a quem nada lhe acontece, a quem nada lhe sucede, a quem nada o toca, nada lhe chega, nada o afeta, a quem nada o ameaça, a quem nada ocorre. Uma clínica não pastoral se apresenta como uma clínica que luta com ardor, diante e ciente da dificuldade imanente a tal clinicar, para que experiências se tornem possíveis em meio ao que denominamos terapia, essa experiência tornada experimento pela tradição.

“E qual é o propósito de escrever música? Um, claro, é o de não lidar com propósitos, mas com sons. Ou a resposta pode ser dada sob a forma de um paradoxo: um despropósito proposital ou uma brincadeira sem propósito. Essa brincadeira, contudo, é uma afirmação da vida – não uma tentativa de dar ordem ao caos, nem de tentar melhorar a criação, mas simplesmente um modo de despertar para a própria vida que vivemos, que é tão boa se tiramos de seu caminho o nosso intelecto e o nosso desejo, deixando-a agir a seu modo.”        John Cage

Sobre a formação em filosofia clínica

Gláucia Tittanegro

Em se tratando de um curso de filosofia clínica, cabe começar a perceber quais são as próprias
representações de mundo (Tópico 1), como também a representação de mundo das/os
autoras/es indicadas/os. Com a representação de mundo podemos perceber outros tópicos:
axiologia, buscas, estruturação de raciocínio, princípios de verdade, modos e formas de
conhecimento etc.

O cuidado com a linguagem que procuramos ter busca mais do que simplesmente prestar atenção à etimologia dos termos: tentamos exercitar uma aproximação com a fragilidade e com a dificuldade de tratar de algo tão delicado que é a clínica existencial.E isso parece que só é possível quando estamos dispostos a transitar pelo incerto e desconhecido.

Por sinal, antes de ser uma relação de conhecimento, é relação ética, ou seja, abertura para algo que não é “tematizável” ou assimilável. Sinto, às vezes, que as discussões ainda tendem a transcorrer no âmbito do que pode ser tematizado e assimilado.

Para mim, discutir abstratamente as/os filósofas/os e suas ideias consiste em permanecer no espaço
temático da filosofia. Espaço este válido e legítimo como o de qualquer outra disciplina. Esse espaço do “tematizável”, seja por qual disciplina for, ainda é um espaço estranho ao fenômeno clínico, ainda é o espaço disciplinar de exercício do poder do conhecimento e, portanto, estranho à filosofia clínica.

A clínica filosófica, por ser experiência ética – simplesmente estarem relação com outrem – ou seja, abertura para uma qualquer singularidade, única e absoluta em si mesma, é um espaço de exercício de acolhimento e cuidado. Talvez, por isso mesmo se trate aqui de um outro tipo de potência: a potência de não encobrir o fenômeno com outras luzes, de fazer espaço, de dar um passo ao lado…

A voz do mistério a partir de Clarice Lispector e Martin Heidegger

Dentre as múltiplas vozes que habitam a clínica não pastoral, a voz silenciosa – a voz sem voz do mistério – figura como condição imanente à uma clínica que não se pretende desveladora do estranhamento que nos atravessa enquanto seres que existem. A clínica sem lacunas, debitaria do pensamento freudiano e do conceito de inconsciente – signatárias da relação de causa e efeito – busca explicitar e fundamentar o que não é passível de fundamentação. Existir ultrapassa qualquer conceito, como bem disse Clarice Lispector. Por outro lado, a linguagem é nossa morada, como citou Heidegger, e é com ela que nos havemos a todo instante.

Clarice, com sua escrita transbordante de poesia, e Heidegger, com sua reflexão filosófica, pensaram a linguagem na dimensão do estranhamento, fato provocador para que o homem possa experimentar a linguagem para além dos signos linguísticos desconectados da existência. A linguagem, a partir dessas duas compreensões, é um espaço de invenção, onde todas as potencialidades do indivíduo são despertadas para dizer o mundo e a vida na contingência das palavras. Ambos pensaram a linguagem fora dos padrões linguísticos e aproximaram, com isso, a filosofia da poesia, sem, no entanto, descaracterizar a linguagem de cada uma. A linguagem poética é pensada como o caminho que nos leva de volta para o sentido genuíno da existência, um sentido subjetivo que ultrapassa a trivialidade de nosso cotidiano.

Um acontecimento nunca cabe no que nós queremos dizer. Há uma dimensão do escrever e do dizer que não subsiste para provar, para demonstrar ou para esclarecer, mas para existir no limite da linguagem, no limite do que há verdadeiramente para dizer. Busca-se algo que escapa ao entendimento, o que não quer dizer que escapa ao ser singular.Os fatos, narrados por meio dos modos convencionais do pensamento linear e do modelo re-cognitivo, trazem a marca da ânsia das informações precisas, locupletadas por significações estandardizadas pela tradição. Os acontecimentos, por sua vez, se desenvolvem a partir do fundo vazio e da liberdade que faz vir à tona o caos criador das palavras.

Os mistérios que nos habitam em silêncio são acontecimentos transfiguradores que extrapolam os fatos reais em uma desorganização na ordem. E na cadência antimelódica dos acontecimentos silenciosos e velados de nossa existência, o mistério irrompe em fascínio e improviso, descosturando o há muito costurado, fraturando o há muito engessado, “desmundanizando” o há muito “mundanizado” .

Uma clínica não pastoral é uma clínica cuja estrutura do cuidado se dá de modo próprio, ou seja: ao invés de ser uma clínica conteudista, que salta para o interior da literalidade e significância da linguagem e indica, guia ou sugere os modos de ser do outro, ela se retrai, se inclina e se sustenta, no limite da linguagem, abrindo um espaço possível onde a possibilidade para a possibilidade da concretização seja conquistada por si mesma a partir da conquista do próprio. É uma clínica da diferença, tomando por empréstimo o termo Deleuziano, onde a ideia de identidade é substituída pelo movimento incessante que engendra as formas a partir de si mesma. O outro é um abismo insondável, e só pode ser acessado formalmente, e qualquer tentativa de teorização a partir de estruturas teóricas apriorísticas se constitui na mais velada forma de pastoreio.

Colocar-se à escuta própria da linguagem é experimentá-la para além dos hábitos da fala e expor-se ao domínio do estranho; tal estranheza não se dá sem a sensação por vezes claustrofóbica de angústia e solidão, pois nosso pensamento calculador e nossa linguagemhabitual — imediatamente compreensível — tornam-se impotentes e falhos diante de acontecimentos inusitados que desequilibram nossos pequenos hábitos e costumes. A linguagem poética experimentada nas obras de Clarice e pensada nas obras de Heidegger é a linguagem irreversivelmente estranha, pois ela não nos serve para prestarmos conta sobre nossa existência, não nos fornece nenhuma informação sobre os entes, não nos ajuda a resolver e nem dizer nada de importante para os negócios humanos, não causa nenhum efeito; não classifica nada, não nos diz o que é o bem e nem o que é o mal, escapando, assim, de toda justificação teórica ou moral. Desse modo, habita-se a linguagem e se tende,por excelência, a construir, edificar e a criar no sentido de poiesis. Nesse sentido, é a linguagem quem nos domina.

Experimentar a linguagem como linguagem é colocar-se no vazio e ser tocado pelo nada de si mesmo. Desse modo, escapa-se, mesmo que por instantes, dos falatórios que exprimem a compreensão mediana que tudo compreende sem nada compreender propriamente, fechando a possibilidade de um dizer, de um escrever, de um ler e de um escutar atento à voz da linguagem originária. Pensar em nada, ainda mais em tempos de pensamento acelerado, é uma conquista de compreensão existencial da linguagem.

Concluindo, a literatura de Clarice Lispector e a filosofia de Martin Heidegger assumem a exigência de penetrar na essência da linguagem mediante o apelo da própria linguagem, liberando a linguagem enquanto possibilidade para ascender ao impenetrável que se oculta na própria linguagem. E tomando o mistério como a mais alta expressão da verdade, abre-se caminho para uma clínica que respeite a abissal distância que nos separa do outro, esse ser que habita a linguagem e que por meio dos limites da mesma pode reconquistar-se a si mesmo. Cabe ao clínico “não pastoral” inclinar-se e sustentar-se diante desse abismo, mas sempre abrigado no espaço de intimidade da relação.

Referências

BEZERRA, Cícero. Clarice Lispector: quando Deus acontece. Rio de Janeiro: Via Verita, 2021.

HEIDEGGER, M. A caminho da linguagem. Tradução Márcia de Sá Cavalcante Schuback, Petrópolis: Vozes, 2003.

HEIDEGGER, M. Ser e tempo. Tradução de Márcia de Sá Cavalcante Schuback, Petrópolis: Vozes, 1993. Parte I.

LISPECTOR, C. Um sopro de vida (pulsações). Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves,Editora,1997.

LISPECTOR, C. A maçã no escuro. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

LISPECTOR, Clarice. Perto do coração selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

NUNES, Benedito. Passagem para o poético; Filosofia e poesia em Martin Heidegger. S Paulo: Ática, 1992

Epistemologia: Paulo Freire e Gaston Bachelard

APROXIMAÇÕES EPISTEMOLÓGICAS:  PAULO FREIRE e GASTON BACHELARD

                                                                           Marcelo Bezerra Oliveira*

 

Paulo Freire (1921-1995) e Gaston Bachelard (1884-1962) são contemporâneos em termos históricos e em perspectivas teóricas, por pertencerem ao construtivismo dialético-fenomenológico. Ambos compartilharam a afirmação básica da historicidade do conhecimento. Este é o traço geral que os aproxima, em suas características múltiplas e diferenciadas. Nestas anotações consideraremos somente alguns capítulos dos volumes citados na bibliografia.

Paulo Freire elabora sua gnosiologia tomando como base o binômio natureza e cultura, estabelecendo a distinção fundamental entre ambas; compreendendo por natureza tudo aquilo que os seres humanos encontram no mundo e que não foi criado por eles; e por cultura tudo aquilo que é construído pelos sujeitos humanos, tomando como objeto de transformação a natureza, mediante o trabalho. Natureza, trabalho e cultura são conceitos básicos para a compreensão da epistemologia freireana. Aqui, por enquanto, não vamos adentrar na questão da historicidade do próprio conceito de natureza. Apenas destacaremos as teses da epistemologia freireana, com as referências que faz à epistemologia de Bachelard. Não se trata de estabelecer paralelismo entre ambos. Daremos destaque para duas obras de Freire: Pedagogia da tolerância e Pedagogia dos sonhos possíveis. De Bachelard – A poética do espaço e O novo espírito científico.

Para Paulo Freire o ser humano está sendo no mundo com outros; como ser inacabado, inconcluso e consciente de sua inconclusão; que se constitui pelas relações com outros e o mundo cultural que inventa ao fazer história. O ser humano não se naturaliza, mas se historifica. A historicidade já aproxima os autores, por afirmarem essa dinâmica dos seres humanos e dos saberes que constroem.

A construção do conhecimento, em Paulo Freire, acontece no confronto intersubjetivo. O conhecimento é construído coletiva, social e culturalmente. Não há um saber produzido exclusivamente pelo indivíduo. O conhecimento se dá na relação dialógica, na dialogicidade entre dois ou mais sujeitos. Por conseguinte, não há um “eu penso”, “eu conheço”, desligados do “nós conhecemos”, “nós pensamos”. Não é o “eu penso” que constitui o conhecimento, mas o “nós pensamos” é que estabelece o “eu penso”, “eu conheço”. A dialogicidade é constitutiva de sua ontologicidade, de sua condição como ser-no-mundo-com-outros. Certamente neste modo afirmativo da intersubjetividade Freire se diferencia de Bachelard, que ainda permanecia na perspectiva da teoria clássica tradicional do conhecimento concebido como relação entre sujeito-objeto, embora, evidentemente, tivesse consciência da construção coletiva do saber científico.

Aproximam-se em suas epistemologias por não desligarem a construção do saber científico da atividade filosófica. Bachelard se refere constantemente à filosofia como indispensável no processo de construção do conhecimento das ciências. Inclusive, relativamente à produção das artes.  A Filosofia e as ciências devem estar em aproximação. Em suas obras não há separação entre filosofia, poesia, literatura e psicanálise.  Portanto, ambos possibilitam uma reflexão epistemológica sobre as dimensões da cultura. Uma reflexão aberta à diversidade epistemológica. Isto merece ser destacado.

Segundo Paulo Freire, somente diante de uma realidade cultural cognoscível mediatizadora da relação entre as pessoas (educador-educando, filósofo clínico-partilhante), poderá se estabelecer dialogicamente o encontro e a busca compartilhada do conhecimento (ou dos saberes). E só em tal condição é possível a inteligibilidade e a compreensibilidade dessa realidade objetivada na comunicação. Sendo oportuno relembrar a complexidade do que denominamos realidade, que jamais pode ser definida nem compreendida exaustivamente, por abarcar tudo aquilo que está para além do imediato.

Há uma historicidade na construção do conhecimento. Desde então, aparecem ou podem reaparecer os diversos níveis de diversidade e profundidade de saberes; seja o saber popular, o científico, o ideológico ou de classe, de gênero, etnia, etc. Paulo Freire surge no contexto das teorias do conhecimento com esta originalidade que consiste na afirmação, sistematização e fundamentação histórico-filosófica do caráter essencialmente dialógico do conhecimento. Algo que pensadores de tendências filosóficas anteriores não o fizeram, senão enquanto simples acenos tangenciais. Como Martin Buber, com a dialética EU-TU, assim como outros pensadores das filosofias existenciais que destacavam o ser-com-outros-no-mundo, denominada “comunicação das consciências”. Tal expressão tem sido usada para designar, por oposição ao subjetivismo, a experiência imediata da consciência do outro; por exemplo, no olhar, na corporeidade. Paulo Freire afirma que o ser humano é um corpo consciente, e que a consciência não é uma região espacializada do ser humano.  Assim, Karl Jaspers nomeava esta relação usando o termo “Daseinskommunication”, ou seja, uma comunicação existencial em que o si busca apreender o outro como si. Quiseram expressar que “eu não tomo consciência daquilo que sou como ser isoladamente”. Eu me experimento na comunicação com outrem; que Freire chama “outreidade”. Tais elementos conceituais foram considerados pela epistemologia freireana, mas repensados na dialogicidade exercida pelos sujeitos no mundo cultural e histórico.

O intento de toda a obra freireana é pedagógico, mas a sua sustentação ou embasamento teórico é radicalmente de caráter filosófico. Ele a elaborou em sintonia com as epistemologias de Gaston Bachelard e de outros pensadores de sua contemporaneidade, a exemplo de alguns filósofos existencialistas, como Gabriel Marcel, Jean-Paul Sartre, Karl Jaspers, Martin Buber; psicanalistas como Erich Fromm, Frantz Fanon, acrescidos do suporte de outros clássicos da Filosofia, como Hegel, Karl Marx, Gramsci, Husserl; além de diversas referências pedagógicas de destaque no século XX, entre as quais Anton Makarenko e Anísio Teixeira. No entanto, sem aderir a nenhuma teoria ou ideologia que o caracterizasse como dependente. De modo que não se pode adjetivar a epistemologia fundante de sua teoria pedagógica com apenas um autor ou tendência filosófica exclusiva. O que se pode afirmar é que sua epistemologia se fundamenta no construtivismo dialético-fenomenológico, referenciado numa enorme diversidade de pensadores. Isto, entretanto, não significa ecletismo.

A filosofia de trabalho de Paulo Freire tem origem num elemento ético fundamental, muito mais que em teorias. O seu método cognitivo-pedagógico teve como objetivo essencial uma perspectiva filosófica que se empenhou em reafirmar e recuperar a palavra como direito humano, entre populações de trabalhadores analfabetos e silenciados. Sua pedagogia propôs a afirmação do ser humano como ser da palavra. Daí que encontramos, na fundamentação filosófica da sua obra principal, Pedagogia do Oprimido, um belíssimo texto-prefácio do professor Ernani Maria Fiori, intitulado “aprenda a dizer a sua palavra”. É desta raiz ética que desponta a sua epistemologia, fundada na dialogicidade e em pressupostos de filosofia da história.

A contribuição de Paulo Freire se orienta no sentido de possibilitar uma educação libertadora das condições opressivas. Por isto denominada pedagogia do oprimido, mediante a educação concebida como prática da liberdade. Lembrando que a categoria “oprimido” possui mais conotação ética do que mesmo sociológica; nomeando o explorado, excluído e silenciado pela cultura do latifúndio, que se caracteriza pela redução dos trabalhadores a uma condição de silenciados. A sua metodologia veio para restaurar a dignidade humana daqueles que, transformados em “quase-coisa”, não podem dizer a sua palavra. No sentido de ultrapassagem desta desgentificação. Afirmar e restaurar a condição humana desses excluídos como seres da palavra e da ação. A palavra e o diálogo são exclusivos da ontologicidade humana. Portanto, também numa condição de terapia existencial, tomando como exemplo a Filosofia Clínica; pois somente é possível a sua efetivação autêntica através do diálogo, através da palavra existenciada em condições de liberdade. Freire, inclusive, referiu-se a este processo educativo como um esforço de expulsão do opressor hospedado na consciência dos oprimidos. Pois os oprimidos se tornam hospedeiros dos opressores. Aliás, uma terapia verdadeiramente humanizadora não pode acontecer em situação antidialógica. Sem diálogo não há construção de pensamento, nem é possível restaurar ou refazer a existência. Por isto a epistemologia freireana poderá contribuir bastante no processo cognitivo-construtivo da Filosofia Clínica.

É mais precisamente na obra Extensão ou Comunicação? que Freire expõe a sua epistemologia, a sua teoria do conhecimento. E a inovação essencial desta gnosiologia consiste em superar a teoria tradicional que resumia o conhecimento à relação entre sujeito e objeto (S—–O). Para afirmar a precedência da intersubjetividade ou dialogicidade; porque nenhum sujeito conhece sozinho, mas com outros, mediatizados pelo mundo. Consciência e mundo coexistem simultaneamente; não há mundo sem consciência, nem consciência sem mundo. Disto vem outro princípio básico de sua teoria: a leitura do mundo precede a leitura das palavras. Não há “eu penso”, mas “nós pensamos”, no encontro dialógico mediatizado pelo mundo cultural dos sujeitos (S¹——–mundo——–S²).

No segundo capítulo deste volume o autor faz um verdadeiro redimensionamento da História das Filosofias, expondo sua crítica ao subjetivismo da teoria tradicional do conhecimento, desde os pré-socráticos até os pensadores existencialistas.

Freire, na sua teoria epistemológica, refere-se ao processo educativo que possibilita aos sujeitos envolvidos na ultrapassagem do senso comum, da consciência ingênua, da curiosidade ingênua, em direção à consciência crítica, à curiosidade epistemológica ou científica, pelo exercício dialógico do compartilhamento intersubjetivo dos saberes, objetivando a transformação de suas vidas, de sua realidade, rumo ao nível mais elevado do conhecimento reflexivo – a “práxis”. Esse termo resume o nível mais profundo da filosofia social, chamada desde Antônio Gramsci, filosofia da práxis.  Isto supõe a educação, o trabalho cultural de reflexão, na construção dialógica, que é problematizadora das condições objetivas desses sujeitos. Pela educação como prática da liberdade, como busca. Isto supõe o perguntar, duvidar, não apenas “facilitar”, como pretendem as teorias conteudistas, psicologizantes e comportamentistas.

Na relação intersubjetiva, pelo encontro dialógico, as pessoas efetuam a admiração e readmiração da sua realidade cultural. Neste processo, essencialmente dialógico-horizontal, em que nenhum sujeito deverá se sobrepor aos demais, a realidade objetivada (admirada) se presentifica à percepção dos sujeitos do conhecimento. Todos se encontram para conhecer, perguntar, investigar, partindo dos conteúdos de sua realidade vivencial. Em Filosofia Clínica (FC) isto poderá ser posto como integrante da historicidade do partilhante. Todos sabem e não sabem algo. Todos ensinam e aprendem algo. Não há saber nem ignorância absolutos. Ambos são relativizados. Esta condição oferece o ponto de partida da busca e construção dos saberes da existência humana.

  • Num primeiro momento os elementos do conhecimento/investigação surgem como algo de que apenas a pessoa se dá conta, como algo que é pouco percebido.
  • No segundo momento, acontece o adentramento mais profundo do objeto percebido ou admirado e destacado da realidade ou contexto maior (a totalidade). São objetos, fatos, temas, assuntos, sentimentos, situados num contexto mais amplo, que pode ser uma história do lugar, da pessoa… (historicidade).
  • No terceiro momento, os sujeitos dialogantes (educador/a-educando/a, filósofa/o clínica/o-partilhante), dirigindo perguntas relativas a esses conteúdos, penetram mais na razão de ser daquilo que está sendo conhecido – o “ontos” do objeto; e a sua razão de ser, o “logos”. Dá-se o começo da tomada de consciência.

Esse dar-se conta, passando ao momento do pensar, possibilitará uma opinião ou doxa. Acontece, assim, um mergulho na profundidade do “objeto” (coisa, fala, ideia, acontecimento…), estabelecendo-se relações. Assim vai tendo lugar a cognoscibilidade do que foi “mirado”, “ad-mirado” e “re-ad-mirado”. Pela re-ad-mira-ação abrir-se-á o caminho do conhecimento, como busca das suas razões de ser e/ou não-ser.

Nesse caminho de escuta, observação, silêncios, ad-mira-ação e re-ad-mira-ação da realidade acontece o momento de se fazer o que Freire nomeou com os termos codificação e decodificação da realidade vivenciada e/ou observada. Certamente, aqui, no âmbito da FC, pode-se fazer uma referência ao tópico Semiose, visto se tratar da codificação das diversas formas de expressão, linguagens, etc. A codificação se refere às várias representações de mundo trazidas pelos educandos/partilhantes. São as representações gráficas, pictóricas, fonéticas, artísticas, que expressam as vivências pessoais e culturais dos sujeitos em dialogicidade. Refletem a polissemia da linguagem. Que, todavia, não pode ser confundida com uma representação unívoca, do tipo publicidade.  À codificação segue-se a decodificação como leitura ou leituras e interpretações do que foi codificado. Trata-se de um dos momentos mais complexos da construção do conhecimento, para que haja o que Freire chama conscientização.

 Na verdade Freire fala em interconscientização, por ser recíproca, para ambos, no processo dialógico. Há um co-pensar, uma interconscientização de ambos, seja educador/a e educando/a; ou filósofo/a clínico/a-partilhante. Pois ninguém conscientiza ninguém; mas todos se conscientizam no processo de construção dos saberes. Há co-aprendizagem, co-pensamento e interconscientização. Num processo de dialogicidade e reciprocidade que se pode chamar transcognitividade.

Deste modo, acontece a tomada de consciência, num primeiro momento; que tenderá e poderá ser progressiva, em direção à “conscientização”. Entretanto, isto não é automaticamente. Pois a consciência é transitiva, dinâmica, mas poderá intransitivar-se. Poderá interromper o processo cognitivo, se submetida a situações de opressão, autoritarismo; enfim, quando a dialogicidade é rompida. Quando a comunicação se torna ausente e a relação passa a uma condição de verticalidade, ou seja: quando uma das partes envolvidas no processo se impõe autoritariamente provoca a interrupção da comunicabilidade e do compartilhamento; e o diálogo pode ser rompido. Isto atinge “os princípios de verdade” (PV). Quando se gera antagonismo entre as pessoas envolvidas, fraturando-se a horizontalidade dialógica, não haverá mais comunicabilidade. Porque foram atingidos negativamente os PV. Lembre-se: isto não se refere à diretividade ou momentos expositivos de conteúdos da aprendizagem, que devem acontecer. O que Freire refuta é o autoritarismo e o nivelamento entre as partes do processo. O professor não pode ser antagônico ao aluno, nem querer nivelar-se. São diferentes, mas não antagônicos. Também não se devem confundir. O mesmo vale para a relação filósofo clínico/partilhante. Sobre isto deve incidir uma reflexão sobre a eticidade desta condição para ambos.

Em situações de trabalho social, cultural ou político, na inexistência ou ruptura da dialogicidade, pode acontecer o extremo da intransitivação, pela fanatização da consciência. Freire se fundamenta teoricamente em Gabriel Marcel, ao nomear esta contradição. Havendo isto, desde então, as pessoas buscam soluções mágicas, lideranças autoritárias, etc. Acontece a perda da confiança dos próprios sujeitos envolvidos, a perda da amorosidade, a rejeição à mudança, por medo da liberdade. Este medo da mudança e da liberdade tende a gerar a crença em soluções imediatas, rápidas, tecnicistas e, inclusive, com apelo à violência, dando origem a situações que chegam ao ódio e à desesperança, naturalizando até a morte; como nas situações históricas de desenvolvimento de práticas que a Sociologia e a Psicanálise nomeiam como fascistas. Instalam-se o ódio ao diferente, o ódio à diversidade, a rigidez de princípios, o dogmatismo, incentivando o ódio de classe, como estamos constatando atualmente, no Brasil e em diversos países do mundo atual. Instala-se uma falsa consciência de que a história pode ser estacionada e negada em termos de processo.

À parte esta referência sociológica necessária, Freire sempre se refere aos dois momentos da cognitividade como sendo a curiosidade ingênua e a curiosidade epistemológica. O conhecimento gerado pela dialogicidade possibilita a saída da primeira rumo à segunda. Isto só acontece mediante uma orientação educativa. E a educação é sempre uma situação gnosiológica. Por conseguinte, a situação de busca que acontece na terapia filosófico-existencial, por exemplo, no contexto da FC, também se constitui como uma situação educativa e gnosiológica entre filósofo/a clínico/a e partilhante. Pois a terapia em geral possibilita outras perspectivas de conhecimento.

Decorrentes da complexidade do processo cognitivo brotam os chamados erros e obstáculos epistemológicos, compartilhados pelas terminologias de Paulo Freire e Gaston Bachelard, ambos pertencentes à concepção histórico-construtivista do conhecimento. Em duas obras de Freire há referências diretas a Bachelard: Pedagogia da tolerância e Pedagogia dos sonhos possíveis. Ambas tratam da leitura do mundo e da leitura das palavras, destacando as questões relativas aos erros e obstáculos impostos aos sujeitos no processo de aprendizagem e sistematização dos saberes. Aqui vale destacar as contribuições de Freire e Bachelard à crítica da interpretação positivista dos fatos e saberes. Para ambos não há dados fixos, fatos puros, ciência pura. Os dados são dados dando-se.  Bachelard se rebelou contra o que chamava “imortalidade dos fatos”; que o senso comum da ideologia neoliberal quer impor como o termo “domínio dos fatos”. Pois os fatos sempre são interpretados. Não há fatos soltos. Tudo está num contexto. O conhecimento sempre tem algo de interpretação. Fatos não são coisas, como afirma o positivismo sociológico.

Em Pedagogia da tolerância, especificamente no capítulo 3, em forma de diálogo, Freire reflete com o interlocutor (Patrick) sobre questões de etnociência e senso comum, partindo da pergunta: “há episteme no saber dos indígenas”? Freire responde afirmando que “em todo processo de compreensão do mundo há um processo de produção e compreensão do conhecimento. Em todo processo de produção do conhecimento, está implícita a possibilidade de comunicar o que foi compreendido, o que você faz não apenas com a linguagem oral, mas também com desenhos e com várias outras linguagens. (…) A minha convicção é de que a gente tem que partir mesmo da compreensão de como o humano com quem a gente trabalha compreende (…) a minha grande preocupação é com a ética: como é que eu respeito a cultura do outro. Mas respeitar a cultura do outro não significa manter o outro na ignorância sem necessidade; fazê-lo superar sua ignorância não significa ultrapassar os sistemas de interesses sociais e econômicos de sua cultura. É como se houvesse gente inteligente num outro planeta, noutro universo, e viesse aqui e dissesse a mim que eu devo pensar da forma absolutamente contrária àquilo que penso, pois lá já se pensa diferente. Não posso me submeter a uma coisa dessas.” E Freire repete que “o conceito de ignorância é um conceito relativo; pois, em primeiro lugar, ninguém é absolutamente ignorante. Ninguém. Você ignora coisas e sabe coisas. O ser humano fundou-se com base na curiosidade. Esta é a fonte fundamental do conhecimento. Mas a curiosidade também gera interesses e usa interesses. É preciso compreender como a compreensão do outro se dá e se na chamada cultura científica você tem um caminho que dá um resultado possivelmente mais exato que o outro caminho que está sendo usado. No mínimo você se obriga a mostrar que há. Eu sou pela defesa permanente da revelação, ao educando, das diferenças, que há diferenças, e que vale dizer que você não pode ficar numa perspectiva estreita e exclusivista: só como eu penso é verdade, mas pelo contrário, discutir as possibilidades das diferenças legítimas. E´ por isso que, nessa questão epistemológica da passagem do saber do senso comum para um saber científico, eu acho que há uma superação, e não uma ruptura. A curiosidade que empurra o conhecimento é a mesma, seja a do índio e a da gente; o que há é uma superação no encontro dos achados; quer dizer, pode ser que até, eticamente, a gente fique atrás, mas, do ponto de vista da compreensão da realidade e do mundo, a gente, rigorizando a busca do objeto, pode achá-lo com mais precisão, o que não significa que você invalide o achado do índio. Eu acho que há muita arrogância nossa, dos intelectuais, dos cientistas. Isso nos faz cair na arrogância, é autoritário e não democrático; e viola as qualidades ontológicas do ser humano”.

 O diálogo trata da pesquisa de um estudante que teve sua tese rejeitada por um professor que não admitia o saber indígena como episteme, pois dizia que só há episteme na ciência. E conclui o diálogo perguntando: “…mas o conhecimento do índio não tem esse rigor que você está dizendo, porque eles não sabem a escrita. Mas como posso dizer que não tem rigor, quando eles conversam todos os dias sobre os acontecimentos e estão se socializando? (…) Um conhecimento que faz tantos anos que vem sendo elaborado e socializado, porém não escrito, mas vivenciado. Como você pode dizer que não é um conhecimento que tem tanto rigor quanto o seu? (…) No fundo, quer dizer que, lamentavelmente, isso é uma tese de Bachelard, grande epistemologista francês, filósofo e poeta. Gaston diz claramente que a passagem de um nível para outro é radicalmente fundada na ontologia, acho que isto é superação. E, precisamente porque o nosso lado é o lado do poder, a superação se dá em favor de nós; se o lado do poder estivesse no dos índios, a superação seria deles; mas como eles não têm poder de mandar em nós, nós dizemos que superamos em favor de nós”.

Em outro texto, Pedagogia dos sonhos possíveis, especificamente no capítulo “alfabetização: leitura do mundo, leitura da palavra”, ainda discute a mesma temática, com ênfase nas categorias do “erro” e dos “obstáculos epistemológicos” no contexto da aprendizagem. Coloca em destaque a constatação das duas leituras: a leitura do mundo e a das palavras. Acrescenta que “os educandos relacionam a essa leitura anterior do mundo, se relacionam os signos e símbolos da interação local do estar-no-mundo, dessa presença no mundo que se vai construindo enquanto comunicação e historicidade”. Sua insistência principal se volta para o respeito que educadoras e educadores devem ter relativamente aos níveis de conhecimento que os educandos trazem ao ambiente educacional, e que necessariamente expressam sua identidade cultural e passam pelo corte de classe social.  “… educandos trazem uma linguagem, uma sintaxe, uma semântica; que os linguistas chamam competência linguística. Entretanto, em geral nas escolas há um desprezo burocrático por tudo isto que se deu antes das escolas, e que vai continuar se dando, apesar da escola. Como se a escola assumisse por decreto divino a tarefa de apagar da memória e do corpo consciente dos meninos essa linguagem, que é também sentimento, comportamento e percepção do mundo. Ou seja, desrespeita-se a dialética própria no reconhecimento e construção dos seus referenciais de tempo, espaço e, portanto, de sua situação histórica. A negação deste saber experiencial revela uma ideologia elitista e autoritária da escola. A escola é autoritária e elitista, entre outras razões, porque só aceita como válido o saber já montado, o saber pseudamente terminado. Aí há um erro científico, também um erro epistemológico. É que não há saber nenhum que esteja pronto e completo. O saber tem historicidade pelo fato de se construir durante a história e não antes da história nem fora dela. Então, o saber novo nasce da velhice de um saber que antes foi também…”

Não se trata de manter os educandos no nível de saber em que eles se acham. Pelo contrário. Mas é preciso evitar que educadores pensem numa progressão de conhecimento no sentido da hierarquização atual do conhecimento; como se o estabelecimento de uma norma culta para a escola fosse o único caminho para se chegar a uma norma mais culta, com critério ideológico. Passando a conotação de que na escola se ensina um saber puro cuja excelência deva ser defendida das impurezas da linguagem das classes trabalhadoras.

Freire propõe que educadores/as e educandos/as progridam reconhecendo outros conhecimentos, inclusive das classes populares, das minorias étnicas, etc. E declara: “lembremos Bachelard, que sugere verdadeira “pedagogia do erro”, na qual o erro deve ser revisto não como reflexo do espírito cansado, mas, na maioria das vezes, como um obstáculo epistemológico, um obstáculo ao ato de conhecer e um desafio da realidade ao seu enfrentamento …é o obstáculo ideológico ao não prosseguimento no reconhecimento ou na construção de outros conhecimentos… Seria preciso que a compreensão do erro em Bachelard fosse democratizada. O que quero dizer é o seguinte: que a grande maioria dos educadores passasse a entender o erro assim e passasse também a acrescentar à compreensão do erro, enquanto obstáculo epistemológico, a compreensão da força da ideologia, quase sempre na raiz do obstáculo epistemológico. E em lugar de óbice para o processo de conhecer, o erro passaria a constituir-se como um momento do processo. Quer dizer, um momento importante. Um momento fundamental do processo de conhecer é errar…  isto diminuiria o autoritarismo de educadores que fazem do erro um motivo de punição. O que a gente precisa fazer na prática pedagógica é mostrar que, se a curiosidade se equivoca ou erra, não deve, por isso, ser punida. Eliminar essa conotação punitiva.  Avaliar sim, mas considerando também aquilo que houve no tempo vivido pelos educandos, não apenas no tempo da escola, considerando que a escola raramente busca fazer a ligação do que ela aprende na escola com o que aprende no mundo. E considerar que não existe rigorosidade pura. Toda rigorosidade convive com o seu contrário; pois a ingenuidade é ponto de partida para a própria rigorosidade. Não despreze a ingenuidade, não ponha entre parênteses as emoções e sentimentos”.

Tais são alguns dos tópicos que podemos discutir com base nestes pensadores, em termos de epistemologias que contribuem para o aprofundamento do pensamento filosófico em geral e, especificamente, da Filosofia Clínica.

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BIBLIOGRAFIA:

BACHELARD, Gaston. Os Pensadores. S. Paulo; Abril Cultural, 2ª ed. 1984.

FREIRE, Paulo. Extensão ou Comunicação? Rio de Janeiro; Paz e Terra, 2013.

___________. Pedagogia da Tolerância. Rio de Janeiro / São Paulo; Paz e Terra. 2016.

___________ Pedagogia dos Sonhos Possíveis. Rio de Janeiro / São Paulo; Paz e Terra, 2018

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*Autor do livro “Pressupostos epistemológicos da pedagogia freireana”, publicado como edição do autor, pela Type Digital Solutions, São Paulo, 2020.