Um possível exercício filosófico clínico do “Poema em linha reta”, de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

Uma possível introdução

É comum, nos cursos de Formação em Filosofia Clínica, recorrer a textos literários, aqui especificamente a poesia, para exercitar-se no método terapêutico a que a FC se propõe.

Acredito que esse seja também um ótimo e apaixonante exercício mesmo para Filósofos Clínicos já habilitados, entendendo a literatura como um excelente campo de desvelamento da “natureza” humana e das questões existenciais que a envolvem.

Sabendo que a construção do processo terapêutico em FC pauta-se na historicidade, na história de vida da pessoa, que denominamos partilhante, faz-se necessário, dentro das possibilidades, conhecer a história do autor abordado e/ou da(s) personagem(ns), nesse caso o autor do poema, a fim de daí também levantarmos os exames categoriais (assunto/relação/tempo/lugar/circunstância) que contribuirão para situar a pessoa e melhor apreender sua forma de ser/estar no mundo, na medida em que vão sendo observados os tópicos de sua Estrutura de PensamentoEP e os sub-modos informais de que faz uso, possibilitando um olhar mais atento, levando-o a uma reflexão mais elaborada da(s) questão(ões) que apresenta.

Obs.: neste “ensaio” faremos apenas o levantamento de alguns tópicos, ficando os sub-modos associados a estes para um futuro trabalho.



Um possível “retrato” de Álvaro de Campos-AC

Ao falar de AC, faz-se necessário, mesmo que já do conhecimento de muitos, lembrar de Fernando Pessoa-FP, escritor/poeta português (13/06/1888 – 30/11/1935) que, além de manifestar-se ao mundo através de seus escritos/poemas usando o seu próprio nome, também o fez através de seus heterônimos.

AC é um desses heterônimos, um dos “outros” de si mesmo, que teve seu nascimento provável aos 15/10/1890, vindo a falecer, possivelmente, na mesma data do falecimento de seu criador, 30/11/1935.

Para conhecer um pouco AC e de sua visão de mundo, pensamos que nada melhor do que fazer uso de um excerto de um de seus próprios poemas, Tabacaria, escrito em janeiro de 1928:

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.(…)”.


É bom termos claro que esta é apenas uma pequena amostra do que AC teria relatado de sua historicidade se, porventura, tivesse sendo acompanhado por um Filósofo Clínico. Isso porque, em FC, não é possível estabelecer, no processo clínico, uma interseção entre o terapeuta e o partilhante, se aquele não tiver um conhecimento mais detalhado da história de vida deste, feito as devidas divisões e enraizamentos e os exames categoriais que lhe darão suporte para o desenvolvimento da clínica.

Uma possível clínica filosófica de AC

Bem, suponhamos que AC, durante a clínica, tivesse apresentado o “Poema em linha reta” ao terapeuta:

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

–  o FC, já tendo dado os passos iniciais da clínica e avançado no levantamento da EP do partilhante e dos sub-modos informais de que este faz uso para lidar com suas questões,
– também fazendo uso dos sub-modos formais que considerasse mais de acordo com sua visão do modo de ser daquele, e também considerando este poema específico dentro do contexto maior de vida do mesmo,
– passasse a levantar alguns tópicos
– e assim procedesse:

Obs.: fazemos uso de versos “em bloco” e/ou referenciados para melhor visualizar os tópicos que destacamos, o que não exclui uma continuidade do trabalho, sabendo que em FC não há uma “conclusão”, mas um constante ir e vir no processo de conhecimento de si e do outro.

Tópico 1 – Como o mundo me parece: a visão e representação de mundo da pessoa, suas referências do mundo externo.
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!

Tópico 2 – O que acha de si mesmo: como a pessoa vê a si mesma.

Obs.: aqui o “O que acha de si mesmo” pode estar associado à “Singularidade existencial”, ao “Papel existencial”, aos “Valores”.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Tópico 5 – Pré-juízos: verdades a priori e subjetivas que a pessoa traz em sua “bagagem de ideias” e como isso determina suas escolhas.

Que tenho enrolado os pés publicamente no tapete das etiquetas

Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Tópico 11 – Busca: metas, objetivos: para onde se direcionam as ideias.

Obs.: associação com “Axiologia” e “Pré-juízos”.

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Onde é que há gente no mundo?

Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?

Tópico 12 – Paixão dominante: ideias recorrentes, que aparecem com frequência.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza
.


Tópico 18 – Axiologia: quais os valores importantes e sua importância no conjunto da EP do partilhante.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

…estou farto de semideuses.
Onde é que há gente no mundo?

Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana


Tópico 19 – Singularidade existencial: modo de ser único; vivência dos valores próprios; características essenciais que constituem uma pessoa.

Obs.: associado ao “Papel existencial” e aos “Pré-juízos”; também a “Termos agendados no intelecto” (as expressões utilizadas e seus significados próprios).

Podemos observar na sequência de “eus” repetidos ao longo do poema, de modo especial a repetição do termo “vil”.

Tópico 22 – Papel existencial: aquilo que é nomeado como sendo seu papel.

Obs.: associado a “Pré-juízos” e à “Paixão dominante”.

Nas repetidas vezes que se diz “vil”

Obs. Geral: Em todo o poema pode-se também sugerir que há uma presença do tópico “Armadilha conceitual”, conjunto de conceitos a que a pessoa está presa, o que não significa que isso seja bom ou ruim, mas que podem ou não ser “quebrados”, a depender do peso, do papel que isso tenha em sua EP. O mesmo se daria para “Princípios de verdade”, que são verdades subjetivas e o modo e com quem são compartilhadas.

Uma possível consideração “final”

Como mencionado acima, não há uma conclusão, pois para a Filosofia e especificamente para a FC a pessoa está em constante construção de si mesma em sua interseção com o mundo e com as pessoas, demais seres, objetos que o compõem e acontecimentos que dele fazem parte. Por isso só nos é possível fazer considerações.

Bom esclarecer que alguns dos tópicos utilizados foram os que selecionamos para ilustrar o Curso de Introdução à FC que oferecemos presencial e on line pelo Recanto da Filosofia Clínica de São Paulo/SP. Isso deixa aberta a possibilidade de novas buscas e descobertas pautadas na historicidade de AC/FP que está implícita mas, principalmente, está para além desse único poema.

Ressaltamos que o termo “possível” utilizado nas partes deste trabalho foi proposital, no sentindo de que entendemos que a FC é um método terapêutico e de investigação não fechado em si mesmo que, embora rigoroso e pautado no conhecimento e na experiência da Filosofia e do filosofar, busca adequar-se ao universo de cada pessoa que procura a clínica e que também não está isento do olhar de cada Filósofo Clínico.

Que a literatura, especialmente a obra de AC/FP e a convivência com gente real e/ou imaginária continuem nos instigando nesse apaixonante exercício da Filosofia Clínica.

Paulo Roberto Grandisolli
[FClínica/Inst Packter; Filosofia/UCMG; GSS-FSP/USP] filósofo clínico, professor, administrador serv saúde, consultor